Futsal para surdos quebra barreiras

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O Club Desportivo de Sordos de Huelva, da vizinha Espanha, foi o vencedor do primeiro Torneio Internacional de Futsal para Clubes de Pessoas Surdas, que decorreu no dia 1 de Agosto, no Pavilhão Municipal da Maia. A iniciativa conjunta da Associação de Surdos do Porto (ASP) e da Câmara Municipal da Maia juntou no recinto cerca de 144 atletas de um total de dez equipas. Do país de “nuestros hermanos” vieram ainda o Club Deportivo de Sordos de Gijon, Compostela, Lorca e o Club Deportivo de Sordos de Oviedo, a que se juntaram os ingleses de Charlton Athletic e, a jogar “em casa”, a Associação de Surdos de Braga, a da Guarda e duas equipas da ASP.

A ideia de organizar um torneio desta dimensão, à semelhança do que acontece noutros países, partiu de Fernando Baltazar, membro da associação e director desportivo, neste que é um ano marcante para a comunidade surda. É em 2009 que se realizará, pela primeira vez na história, o Surdolímpico (Jogos Olímpicos para Surdos), a decorrer em Taipei. O também intérprete de língua gestual portuguesa (na RTP), filho de pais surdos, acredita que é uma prova de que estes atletas são em tudo “iguais” aos restantes. Com uma excepção: não ouvem.

Foi também para o mostrar que surgiu o torneio na Maia. Neste concelho pelas ligações da câmara ao desporto e porque “foram espectaculares desde a primeira hora”, reconheceu Fernando Baltazar, desejando que as portas se mantenham abertas no próximo ano, para o segundo torneio. A primeira edição fica ainda marcada pelo facto de terem sido transmitidos todos os jogos, em directo, via Internet, para os familiares dos atletas que não acompanharam as equipas. Aliás, “um trabalho feito por uma grande equipa, também de dois surdos”, sublinhou o organizador.

E se um dos objectivos deste tipo de eventos é integrar as pessoas surdas, resultou. Aliás, na cerimónia de entrega dos prémios quem se sentiu à parte foram aqueles que não sabiam língua gestual. A começar pelos padrinhos do torneio – a apresentadora de televisão Sónia Araújo e o jornalista desportivo Hugo Gilberto – e até aos jornalistas que faziam a cobertura e cujo trabalho seria bem mais difícil não fosse os tradutores ali presentes. Porque, entre os atletas e a organização, a comunicação era feita em língua gestual.

Embora conhecedora de como transmitir por gestos as palavras “olá” e “parabéns”, Sónia Araújo pediu “desculpa por não saber língua gestual, tal como o fez depois Hugo Gilberto, prometendo para breve que o vai tentar aprender, e ainda o vereador do pelouro do Desporto da Câmara da Maia, Nogueira dos Santos. Sobre o torneio, os padrinhos foram também unânimes a louvar a iniciativa. Para além do incentivo à prática desportiva, a apresentadora destacou, “acima de tudo”, o facto de contribuir para “cada vez mais quebrar barreiras”. Já Hugo Gilberto destacou “o talento, a entrega, a qualidade de todos os jogadores”.

Sem barreiras, percebeu-se a alegria e o entusiasmo de terem feito parte deste primeiro torneio. Independentemente dos prémios conquistados. Por falar em prémios, em segundo lugar neste torneio ficou a Associação de Surdos do Porto 1 (que arrecadou também o prémio Fair-play) e, em terceiro, a Associação de Surdos de Braga.

Ao reconhecer que está a crescer o número de pessoas conhecedoras da língua gestual, inclusive nas escolas, Fernando Baltazar concluiu os cidadãos surdos “começam a ter os direitos que lhes assistem, o direito à comunicação”. Excepto da parte do Governo, lamentou, ao classificar os governantes de “surdos”.

Marta Costa