“Na Maia o desporto é um investimento e não uma despesa”

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Francisco Barbosa é o responsável pelo movimento associativo do departamento de Desporto da Câmara Municipal da Maia. Nessa qualidade é também o responsável e organizador da Liga e Taça de Futsal da Maia, provas que ganham projecção e qualidade, de ano para ano.

Primeira Mão – Que avaliação faz desta Liga e Taça de Futsal da Maia?

Francisco Barbosa – A avaliação é extremamente positiva. O futsal é uma modalidade que está em crescendo em Portugal e tem condições únicas para a sua prática por parte dos portugueses. É uma modalidade que rapidamente vai apanhar o andebol, basquetebol ou voleibol, em termos de modalidade de pavilhão. Como a Maia tem cerca de 40 colectividades que praticam futsal, a Liga enquadra-se perfeitamente nesta realidade e cria condições para que os clubes a pratiquem. Além dos objectivos gerais de promover e divulgar mais a prática desportiva, a Liga tem como objectivo promover que colectividades com pequenas condições para a prática de desporto federado o possam fazer. É preciso frisar que praticar desporto a nível federado em Portugal é muito dispendioso, é uma lacuna gravíssima em que este poder central continua a persistir, por exemplo uma licença de um jogador federado de futsal custa 150 euros, o que é uma barbaridade, pequenos clubes, como os que temos aqui na Maia, poucas condições tinham de funcionamento se não fosse o apoio da Câmara, que é o que está a acontecer por esse país fora. Não na Câmara, com a criação da Liga de futsal, permitimos que pequenas colectividades sem apetência para o desporto federado possam desenvolver a sua actividade sediados na Liga.

Foi assim que nasceu a ideia desta Liga de Futsal da Maia?

Sim, o grande objectivo é desenvolver a prática desportiva de forma organizada e consistente, porque praticar desporto sem competição não tem muito fundamento nem razão. Tudo na vida tem que ser avaliado, e na parte desportiva é a competição que avalia. Quando não há competição, não há avaliação. Portanto, estar a praticar desporto sem haver competição, não faz grande sentido. Basicamente, a ideia é permitir que pequenas colectividades do concelho da Maia tivessem uma competição organizada e competitiva. Depois, face ao evoluir da Liga, colectividades com expressão no desporto federado, como o Clube Académico de Sangemil, que foi campeão desta época, encontram nesta Liga uma competição de forma a permitir que os jogadores com pouca apetência para o desporto federado ou jovens que saíram dos juniores tivessem um espaço de prática desportiva. Neste momento a Liga alberga no seu seio colectividades federadas que encontram nesta Liga o espaço para que atletas, que não estão no desporto federado mas estão ligados à  colectividade, tenham o seu espaço desportivo, e tem também colectividades que, sem expressão para o desporto federado, tenham um espaço para a competição desportiva. É preciso frisar que a Liga só pode ter jogadores não federados.

E em relação à edição deste ano, que culminou com a vitória do Clube Académico de Sangemil?

Acho que a edição deste ano foi extremamente bem conseguida. Este ano a Liga funcionou com uma primeira divisão com 12 equipas e uma segunda divisão com 20, divididas em duas séries de 10. Depois desciam os três últimos da primeira divisão e subiam os três primeiros da segunda divisão. A qualidade dos jogos foi óptima, foi extremamente elevada. Há excelentes jogadores de futsal na Liga da Maia. E eu vi jogos das divisões nacionais e não vejo grande diferença entre estes e os da nossa Liga.

Esses jogadores, tal como algumas equipas, podem começar a ver a Liga como um trampolim para as divisões nacionais?

Não tenho dúvida disso. Aliás, há clubes das divisões nacionais que têm referenciados para possíveis contratações jogadores que participavam nesta Liga. Outra prova disso, nós fizemos a gala da Liga de Futsal da Maia onde houve um jogo entre o campeão da segunda divisão e uma equipa com os 12 brasileiros da Liga, e outro entre o campeão da primeira divisão e uma selecção dos restantes jogadores, e foram jogos de alto nível. Eu acompanhei essas partidas ao lado de alguns treinadores de equipas federadas que não faziam ideia e ficaram admirados com o elevado nível desta Liga. Isto significa que a organização conseguiu criar condições para que a adesão fosse subindo e a qualidade dos jogos também ajudou e melhorou bastante. Nós até já tivemos cá o seleccionador nacional de futsal, Orlando Duarte, para um colóquios direccionados sobretudo aos treinadores da nossa Liga. E também já fizemos um curso para esses treinadores, em conjunto com o ISMAI. Isto também nos criou outro problema, que é o facto de os clubes, devido à  qualidade que atingimos, já¡ começam a querer treinar, e pedem à Câmara espaços para isso. Infelizmente, não o podemos fazer. Em relação às equipas o objectivo também era esse, que as equipas criassem condições para poder avançar para o desporto federado. Agora o que está a acontecer é um retrocesso. Face à  qualidade da Liga e aos pressupostos quem são necessários para entrar no desporto federado, há equipas que deixaram o desporto federado e passaram a jogar na Liga, como o recreativo de Parada e o Clube Amigos do Corim. Para já¡ são só estes dois, mas eu espero bem que não sejam mais, porque, como já disse, o nosso objectivo é o contrário. E eu, se fosse dirigente de um clube, também preferia participar na Liga de Futsal da Maia do que nas divisões nacionais, porque a Liga garante competição para oito meses quase a custo zero, só pagam o seguro de 2,40 euros. O poder central, neste caso substanciado no poder associativo, é que tem de reformular os seus objectivos.

Acha que se corre o risco de hoje em dia este tipo de ligas serem mais competitivas do que as ligas nacionais?

A continuarmos a trabalhar desta forma, eu não tenho dúvidas que, a curto prazo, a Liga se vai tornando mais competitiva, e, se calhar, vamos ter pedidos de ingresso de colectividades que vão sair do desporto federado.

Pensa então que devia haver uma reformulação dos objectivos da federação ao nível do futsal?

Eu nãoo tenho dúvida disso, mas essa é uma resposta que terá de ser a própria Associação de Futebol do Porto a dar, e explicar porque custa tanto dinheiro praticar desporto federado.

Acha que o futsal tem crescido por estar tão ligado ao futebol?

Acho que é basicamente por isso. Depois é uma questão cultural porque o futebol pratica-se em qualquer espaço. As outras modalidades de pavilhão, como o basquetebol, o andebol, o voleibol e o hóquei em patins, são muito mais específicas. Naturalmente o jovem, mesmo nesta sociedade tecnológica, joga futebol. O futsal digamos que é a aplicação do futebol num espaço mais reduzido, e já é a modalidade de pavilhão que mais praticantes tem. É preciso frisar que a primeira divisão nacional de futsal tem muita qualidade.

Disse há pouco que há 12 brasileiros na Liga de Futsal da Maia, uma prova que foi criada para as colectividades maiatas. Há mais estrangeiros na Liga? E são bem recebidos?

Sim. Há dois cabo-verdianos. Uma das premissas fundamentais para se estar ligado à  Liga de Futsal da Maia é estar recenseado no concelho. No entanto, cada equipa, por época, pode inscrever um máximo de três jogadores que, mesmo não estando recenseados na Maia, exerçam a sua actividade laboral ou residam no concelho. Ou seja, para jogar só é necessário que tenham algum vínculo ao concelho, laboral, estudantil ou de residência.

Para já participam 32 equipas na Liga. Há a possibilidade de a alargar? Tem recebido contactos de outras colectividades nesse sentido?

Sim, temos. A Liga também serviu para reactivar colectividades que estavam adormecidas ou com nenhuma actividade. Nós continuamos a receber perspectivas de adesão e há duas colectividades que se fundaram para participar na Liga de Futsal da Maia. Nós já temos a possibilidade de crescer já esta época, porque há tentativas de novas adesões. Não posso adiantar um número para o crescimento porque está dependente de um parecer político do vereador do Desporto da Câmara.

A haver esse parecer positivo dos responsáveis políticos, como se vai reorganizar a Liga?

O ideal seria ter três divisões, até porque em termos económicos isso seria mais favorá¡vel. Mas isso depende do parecer do vereador e eu não posso estar a emitir opiniões sem saber o que se vai passar. Mas acho que o futuro passará pelas três divisõees.

Há pouco tempo os clubes da Ligas apresentaram um conjunto de propostas de alteração aos estatutos da prova. Como estão a ser recebidas essas propostas?

Ninguém na vida consegue avançar sem avaliar o que faz. Há alterações propostas que estão a ser avaliadas e que podem ser aceites, porque são susceptíveis de ser absorvidas e aproveitadas. Isto também revela interesse dos clubes em melhorar pata tornar a Liga mais atractiva e competitiva. Para nós, isso não é o mais importante, o que queremos é promover a prática desportiva no concelho. Mas é claro que quanto melhor for a Liga, mais interesse desperta nas pessoas. E nós já movimentamos cerca de 600 pessoas por semana, o que demonstra a qualidade e o interesse da Liga.

Quando está previsto o arranque da Liga de Futsal da Maia 2009/2010?

Há¡ eleições em Outubro e o presidente garantiu que se for eleito a Liga é para continuar. Mas se não ganhar não sei como será, porque não quero entrar por questões político-partidárias. Mas é claro que se acabar é uma perda para o desporto na Maia, porque é uma mais valia até para o desporto popular. Nós temos tido a sorte deste presidente considerar o desporto um investimento e não uma despesa. E eu tenho planeado que, se este presidente for reeleito, a Liga começa no final de Outubro.

No início do mês foi homenageado pelos clubes da Liga. Como se sentiu nessa homenagem?

Todo o ser humano gosta que o tratem bem. Senti-me extremamente feliz e emocionado. Mas eu represento só uma parte da estrutura da Câmara e sozinho não posso fazer nada. Sou só a face visível da política desportiva da autarquia.

Sente que esta homenagem, mais do que ao responsável e organizador, é uma homenagem à  própria Liga de Futsal?

Completamente. Eu tenho que agradecer, para além do presidente, vereador, e chefe do departamento de Desporto da Câmara da Maia, tenho que reconhecer o contributo dos professores de educação física, que estiveram na mesas, da equipa de segurança, que foi inexcedível, e dos árbitros.

Sente que esta Liga é também uma criação sua? Tem um carinho especial por ela?

É evidente. Até porque os meus fins-de-semana são dedicados à  Liga e aos seus jogos. Sou muito feliz naquilo que faço e sinto que um bocado de mim está ali.