“O País só vai acordar para a realidade do deporto quando os dirigente entregar as chaves dos clubes às câmaras”

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Aníbal Sequeira é presidente  do Maia Basket há cerca de oito anos. A equipa não tem estado muito bem este ano, mas o presidente do clube maiato acredita que vai ultrapassar as dificuldades e alcançar o objectivo: a manutenção. Aníbal Sequeira acusa também o Governo de falta de apoios ao desporto português

Como chegou ao Maia Basket?

Entrei no clube quando o meu filho começou a jogar basquetebol, tinha ele oito anos. Na altura convidaram-me para seccionista e eu, dentro da minha boa vontade e preocupação com os miúdos, aceitei. Depois fui director e mais tarde acabei como presidente, já lá vão cerca de oito anos.

Que avaliação faz destes oito anos?

Tem tido momentos mais positivos e outros mais negativos. A nível de competição desportiva, no primeiro e segundo ano na Proliga conseguimos fazer um “brilharete” porque terminámos nos seis primeiros. Agora as coisas não têm sido tão fáceis porque, com as verbas que nós temos, é complicado ter jogadores de alto gabarito. Mas temos os que cá estão que jogam por amor à camisola e ao Maia Basket. Nós somos a equipa com mais baixo orçamento a nível da Proliga.

Este ano as coisas não têm sido muito favoráveis às equipa. Esse baixo orçamento, em comparação com outras formações da Proliga, pode ser uma das razões?

Desde o início que o Maia Basket tem por princípio jogar apenas com atletas nacionais. As outras equipas preocupam-se em contratar norte-americanos. Nós, como entendemos que não deve ser assim, até porque o basquetebol nacional precisa de bons jogadores portugueses e de melhores condições para os jovens, sofremos um pouco as consequências disso.

O que tem corrido mal esta época?

Muitas lesões de jogadores e também o facto de outras equipas virem desestabilizar a nossa, porque vêm aliciar os nossos atletas. Ainda no início desta temporada vieram buscar dois jogadores que eram essenciais para nós, um foi para o Angra Basket e o outro foi para o Vitória de Guimarães. No final do ano foi outro para o Póvoa. E agora houve a oportunidade de contratar um atleta de qualidade mas numa altura em que ele já estava inscrito por nós, veio o Vagos e convidou-o para jogar com eles. Isto desestabiliza muito a equipa.

Como se pode mudar isso?

Eu acredito que daqui até ao fim da época vamos amealhar os pontos que precisamos para nos manter na Proliga, porque é esse o nosso objectivo. Os jogadores estão connosco, percebem que não temos culpa das sucessivas situações que nos têm assolado nos últimos tempos e vão fazer das fraquezas forças para se manter. Isto é uma maneira de mostrar que tudo o que fazem para que o Maia Basket seja afastado da competição não é suficiente.

A equipa esteve à beira de não participar na Proliga esta ano. Foi uma fase complicada?

Não foi complicado porque nós sabíamos que tínhamos a razão do nosso lado e dificilmente não estaríamos na Proliga deste ano. De entre as equipas que se candidataram à vaga, nós éramos a que reunia as melhores condições para preenche-la, uma vez que éramos a formação melhor classificada de entre as que desceram. Se não conseguíssemos seria por manobras menos claras

Tendo em conta que a equipa tem só jogadores portugueses, a formação é uma aposta?

A intenção sempre foi ter jogadores portugueses para dar também uma esperança aos nossos jovens que treinem bem e gostem do basquetebol que podem ter um lugar na equipa principal. Neste momento já temos quatro jogadores no plantel formados no clube e que têm treinado e jogado bem.

Quais as prioridades do clube para os próximos anos?

As prioridades são sempre as mesmas, consolidar cada vez mais financeiramente o clube, todos os escalões serem competitivos nas competições em que estão inseridos, sermos o melhor clube da Associação de Basquetebol do Porto e levarmos o nome da Maia a todos os lugares onde vamos. As colectividades têm-se transformado em empresas e isso não é bom para o desporto porque dá falsas esperanças aos jovens que optam por modalidades supostamente mais lucrativas e depois são rejeitados. Isto cria desânimo e desinteressam-se pela prática do desporto.

Num tempo de crise muitas colectividades maiatos queixam-se de falta de apoios. Sente isso?

Sinto e muito. O Póvoa e o Penafiel, equipas que chegaram agora à Proliga, têm empresas dos concelhos que as patrocinam, o que lhes permite a contratação de norte-americanos e o pagamento de salários altos. Mas nós também entendemos que os tempos de crise façam com que assim seja. O Maia Basket sempre foi um clube que viveu sobretudo dos apoios da Câmara, com um subsídio de 60 mil euros anuais, e de formas de auto financiamento como as cotas dos sócios. Nós já tentámos contactar empresas para que nos concedessem pequenas verbas mas elas não têm estado muito receptivas.

Mesmo com alguns feitos que têm sido alcançados, o basquetebol português não é tão reconhecido o estrangeiro como o futebol ou o hóquei em patins. O quer é preciso fazer para mudar isso?

Era necessário haver uma vontade do Estado para mudar. O país só vai acordar para a realidade do deporto quando os dirigentes entregarem as chaves dos clubes às Câmaras e, posteriormente, ao Estado. Assim, eles têm que perceber o que fazer com os milhares de jovens que ficarão sem ocupação. Nós substituímos o Estado e, ainda por cima, de uma forma gratuita. É preciso perceber como tornar as equipas competitivas e não apoiar as equipas que já são competitivas. Repare-se que só há apoios quando há participações em Europeus ou Mundiais, de resto não há condições.