A “nova normalidade” no Mercado do Castelo da Maia

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foto Patrícia Stanton
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A feira semanal do Castelo da Maia, que se realiza todas as segundas-feiras no Mercado Coronel Carlos Moreira, voltou integralmente ao ativo, este mês de abril, e dias depois (dia 19), o Jornal Primeira Mão foi até ao local para perceber junto dos operadores como está a decorrer o regresso à “nova normalidade”.

Eram 8:30 da manhã e as ruas circundantes já se enchiam com pessoas que se apressavam para a entrada da feira. O burburinho do interior indicava animação e foi assim que encontramos o primeiro entrevistado.

Bruno é vendedor de roupa e já trabalha em feiras há 22 anos. “Sinto-me seguro porque a feira é ao ar livre, toda a gente está a usar máscara, tem álcool gel em todas as bancadas e nas entradas. Há também, seguranças a controlar. Penso que podemos estar descansados, na medida do possível”. Apesar de não ter arranjado alternativas para as vendas no período de confinamento, o vendedor afirma que os clientes que procuram os seus produtos continuam a ser relativamente os mesmos, não registando grandes diferenças a esse nível.

Foto Patricia Stanton

Mais à frente, encontramos Fernando Moreira, vendedor “há 32 anos”, que nos explicou que atualmente a feira não tem tanta afluência como “há 15 anos”. Apoios no confinamento “tive poucos”, mas apesar disso, diz-se “seguríssimo” a regressar ao trabalho, “pois a feira é ao ar livre e as pessoas estão a cumprir com as regras”.

Em contraste com a segurança sentida por alguns, há quem não esconda as incertezas desta nova etapa. É o caso de Amélia, feirante há 12 anos: “desde que a feira abriu não sinto segurança, porque ainda falta a vacina para nos sentirmos melhor com o público”. A preocupação está bem presente nesta operadora e espelha-se, segundo a mesma, nos clientes. “Está-se a vender muito mal, porque as pessoas não vêm tanto à feira pelo receio”, explicou.

A insegurança do público também é sentida por outros operadores, como é o caso de João, vendedor de legumes, e que confirma ser “seguro vir à feira”, embora reconheça existir uma diminuição de clientes, pois “há muita gente com medo”. Ainda assim, com 15 anos de feira, João explica que desde a abertura “à venda de roupa” nas feiras, “vem mais gente”.

Quebra de 60% nas vendas desde o ano passado”

Juvenal Veloso, feirante desde 1958, tem “81 anos feitos” e continua a possuir um grande amor pela vida na feira. “Eu praticamente fui criado aqui e tenho clientes com 94 anos que ainda cá vêm. São clientes que se mantiveram fiéis a mim e eu adoro atendê-los”.

O vendedor de têxteis afirma que a paragem este ano foi um pouco ingrata, pois “como não tinha nada para fazer pus-me em arrumações em casa e parti um pé”. Já recuperado, Juvenal Veloso voltou à feira, no passado dia 5 de abril, e a retrospetiva até ao momento, segundo ele, é uma quebra de 60% nas vendas desde o ano passado.

Apesar do declínio acentuado nas vendas, Juvenal mantém sempre um sorriso na cara e aborda o facto de a Câmara da Maia ter sido uma grande ajuda em tempos de dificuldade, porque “não levou um tostão no ano passado” pelas taxas de permanência na feira e, “este ano, vai pelo mesmo caminho”.

foto Patrícia Stanton

A última paragem da reportagem do Primeira Mão foi numa pequena barraca de produtos alimentares. A vendedora não nos forneceu o nome, mas a sua história merece ser divulgada. Contou-nos que trabalha desde “pequenina no monte de Santo Ovídio” e que vende apenas “o que tenho em casa e não compro nada do que vendo. Tenho fregueses que não me trocam, porque sabem que é tudo biológico”. Atualmente possui uma carrinha que a ajuda no transporte dos produtos, mas em tempos passados, “trouxe-os muitas vezes à cabeça quando era solteira e vinha com a minha mãe”.

De acordo com a vendedora, “agora está tudo diferente. Antigamente toda a gente vinha à feira porque não existiam os supermercados”. Ainda assim, “muita gente procura a feira pela qualidade”. A feirante também justifica a diminuição da afluência às feiras com o facto de haver pouco dinheiro e também porque “outros clientes preferem comprar comida feita. Antigamente chegávamos às 10 horas e já tínhamos tudo vendido. Agora não”.

Apesar de ter bastante medo “do bicho”, a operadora diz sentir-se “segura” devido à vigilância e medidas de segurança implementadas no local. Na feira do Castelo da Maia “nunca se junta muita gente”, explicou.

Assim foi mais uma manhã de feira no Castelo da Maia, onde as saudações e os “é bom voltar a vê-lo/a” se repetiam em toda a sua extensão. Um sinal de que a vida nas feiras está a decorrer com tranquilidade neste desconfinamento.

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