Das quentes e boas

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Castanhas assadas

1.- Estamos em pleno outono, a estação de que mais gosto. Não só pelas quentes e boas – as castanhas assadas -, mas também pelas cores de que as árvores se vestem. Uma estação singular onde as ondas batem com violência nos rochedos das nossas memórias, nos campos enfeitados com as flores dos fiéis, ou nos cadinhos da sobrevivência daqueles trigais que esmolam às portas das foragidas pombas. Se as folhas das árvores acampam por ruas adentro, por avenidas ou vielas, dos nossos monumentos, fazem-nos lembrar os sobretudos – de vestir-, que enrolamos aos nossos pescoços embelezados pelo surgimento do Natal, lá para o inverno. Outono tem o cheiro dos livros que compramos para a escola, da tinta permanente ou dos afia lápis. Uma atmosfera que brilha pelo afagar das iluminações que em breve aquecerá o ambiente citadino das cidades. Na cidade do nosso coração se constroem as lareiras crepitantes de fogo que brilham ao som dos crisântemos, nos beirais dos nossos lábios. A chuva aquece com as correrias para um lugar que abriga, como um rouxinol no beiral dos telhados.

2.- Canta a poesia no chilrear da presença das pessoas, como lírios ao som das borboletas. Nos corpos existem os sinos da esperança, do aconchego e da verdura. Da verdura dos musgos que haveremos de colher para o presépio, como dádiva serena de esculpir as pessoas em largos sorrisos de alegria. Mas também existem flores amarelas, não só folhas de cores indecifráveis que nos relincham aos olhares de espanto pelas paisagens da vida. É isso, a vida que nos transmite o outono, onde as quentes e boas, para os lados do Molhe, ou dentro da cidade, clamam pelo cheiroso e alegre fumo dourado, chamando-nos a clamar pelo surgimento do fruto das árvores. Por que os laranjais, ou as tangerineiras, já possuem quantidades enormes de frutos, que as dobram ao peso da alegria de quem se delicia pelo seu sumo açucarado, mesmo amargo.

3.- Outono canta a vida, forma o inverno e logo a seguir a primavera que nos dá o verão, e depois o outono. Outono é um canto à luz dos sóis que se produzem nos horizontes dos ventos nortes, um poema dedicado aos nenúfares dos lagos e que preenchem o querer de quem os sente. Outono é uma reflexão nas imagens incandescentes das lenhas secas, cujas luzes ofuscam as nossas dúvidas sobre o cantar das árvores sem flores. Outono das nossas vidas, onde os olhares fazem de nós praias de areais, repletos de algas. Outono torna-se um cântico incubado sobre os seres reais que frutificam os paraísos. Outono é a fuga de quem nos livros encontra a serenidade própria de quem escreve quentes e boas, nas planícies dos nossos quereres. Canção de embalar ao som dos ventos e das madrugadas esplendorosas dos nossos amores.

Joaquim Armindo
Doutorando em Ecologia e Saúde Ambiental