Em nome do bom senso

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Ninguém me ouviu um ai quando fui o alvo da golpada vergonhosa de oito de Julho perpetrada por Mário Gouveia, Luís Rothes e outros que tais. Ninguém me ouviu um ui quando os resultados eleitorais penalizaram o aventureirismo e a irresponsabilidade que deram ao PS a maior e a mais humilhante derrota da sua história autárquica, na Maia. Pacientemente fui esperando.

Quando na noite eleitoral Mário Gouveia assumiu tratar-se de uma grande derrota política e pessoal (foram suas as palavras) esperava-se que coerentemente apresentasse a sua demissão, nessa mesma hora, da liderança do partido. Foi o que fez em 2001 António Guterres, o que fizeram agora muitos líderes concelhios que simultaneamente foram candidatos, foi o que com toda a dignidade e maturidade política fez aqui na Maia, David Tavares líder do CDS-PP. É assim que se faz quando as derrotas além de políticas, são, também, derrotas pessoais.

Apesar de haver mais cinco mil eleitores do que em 2005, o PS teve agora muito menos votos, tanto para a Câmara como para a Assembleia Municipal, foi alargado o fosso de mandatos, ficou reduzido a duas freguesias, tudo isto numa conjuntura favorável resultante do divórcio do PSD com o CDS/PP a nível local e de uma recente vitória do PS nas legislativas, que pela proximidade dos actos era susceptível de fixar e fidelizar eleitorado. Foi assim que o PS obteve, no plano nacional, a sua maior vitória autárquica de sempre, em completo contraste com o que se passou na Maia.

Mas mais do que uma derrota política, os resultados ditaram a derrota pessoal de Mário Gouveia que fez a campanha que quis e como quis. Rasgou todos os acordos que fizeram dele presidente da concelhia e candidato à Câmara, traiu a sua base de apoio, transformou os vencidos internos em candidatos e afastou das listas os vencedores, exigiu o afastamento de quadros com experiência e comprovada competência e à boa maneira comunista saneou nomes e perseguiu militantes. Fez coacção sobre muitos que enfileiraram a seu lado forçando-os a trair amizades de muitos anos, a faltar à palavra dada e a assumir o triste papel de trânsfugas.

Para quem se apresentou sob o slogan “ Novas ideias, mais trabalho”, o projecto autárquico foi um vazio de ideias sem qualquer estratégia política que fizesse a diferença. Não houve um ataque, nenhuma critica às políticas do PSD, nenhuma proposta que mobilizasse os eleitores. Nem os membros das listas participaram no único debate que houve, foi a completa desmobilização do partido. Em vez de unir provou rupturas insanáveis, semeou desavenças entre pessoas com um longo passado político em comum.

As derrotas assumem-se

Por tudo isto, mais do que uma derrota política perfeitamente normal e até compreensível, esta foi uma derrota pessoal. As derrotas políticas fazem parte do jogo democrático e não é nenhuma vergonha para o PS perder as eleições autárquicas na Maia. As derrotas pessoais assumem-se com dignidade e respeito pelo partido que nos deu a oportunidade de ser candidatos. Eu nunca tive essa oportunidade, fui sempre impedido, mas ter-me-ia imediatamente demitido.

Depois de há dois anos ter liderado o processo que conduziu a uma moção de censura por razões bem menores, não haverá agora uns gramas de sensatez e humildade para simplesmente deixar o cargo percebendo que a sua presença na liderança do PS Maia será um factor de instabilidade insanável?

Pacientemente esperei que Mário Gouveia convocasse a Comissão Politica antes da tomada de posse colocando o seu lugar à disposição do partido. Era o que devia ter feito se tivesse alguma cultura de militante e se o cargo de Vereador da oposição não tivesse sido o seu único objectivo desde que foi eleito presidente da concelhia. Eu percebi isso desde a primeira hora.

Diga-se que, pessoalmente, nem sequer concordaria muito com isso pois entendo que as pessoas devem honrar o compromisso que assumiram com o povo que as elegeu, se não se impuserem razões de força maior. Mas outra coisa é a liderança interna que deve de imediato ser suspensa para que o partido se reorganize e inicie um novo ciclo em vez de ficar afundado na derrota, a perder apoiantes e num contexto em que o líder já nada acrescenta.

Estupefacto, fui lendo e ouvindo que Mário Gouveia iria perguntar aos militantes se deveria continuar na liderança do PS Maia. A quais militantes? Aos que estiveram com ele unidos na derrota e que fazem parte da concelhia? À JS que é um dos principais culpados da situação que se vive no PS Maia, desvirtuando sistematicamente com os seus cinco votos e apenas para servir os interesses do grupo, a correlação de forças na Comissão Politica? Aos militantes que maioritariamente o elegeram numa lista que ele traiu, excluindo-os do processo autárquico?

Então, depois de esfacelar o partido invertendo os resultados eleitorais; depois de conduzir um processo eleitoral semeando ódios e ataques pessoais; depois de ter provocado cisões insanáveis com uma postura que nos fez recuar aos tempos do PREC; depois de ter esbanjado o orçamento da campanha na promoção ridícula da sua imagem pessoal; depois de ter deixado os candidatos das Freguesias entregues à sua sorte e sem apoio, reduzindo o PS a duas Freguesias, expressão mais baixa de sempre; depois de ter perdido a sua própria Freguesia, com uma votação humilhante; depois de arrastar o partido para a mais expressiva derrota autárquica aumentando o fosso em mais dois Vereadores e quatro Deputados Municipais para o PSD; depois de ter ignorado os resultados de uma avocação e desrespeitado uma decisão dos órgãos jurisdicionais; depois de ter conduzido uma campanha eleitoral amorfa, ausente da comunicação social, firmando um pacto com os adversários políticos e onde o único facto relevante foi queixar-se à Comissão Nacional de Eleições; depois deste estendal de misérias ainda diz que vai perguntar aos militantes se deve continuar na liderança do partido? E porque não apresentar uma moção de confiança?

Salvar aparências

Pacientemente esperei que na reunião da Comissão Politica de 6 de Novembro, houvesse uma onda de bom senso. Pelo que me disseram em vez de bom senso prevaleceu o autismo e nem sequer os mais experientes e fiéis ao partido tiveram a coragem de exigir dignidade. Entenderam que o importante é salvar as aparências, trocar acusações e deixar tudo como está. Sem um pingo seja do que for.

O que vai pensar o povo da Maia deste Partido Socialista que nem sequer é capaz de perceber e de reagir à expressão dos resultados eleitorais? O que pensará o povo da Maia deste Partido Socialista quando os seus dirigentes e responsáveis políticos fazem por ignorar a resposta que esse povo deu às suas propostas?

Eu até compreendo que aqueles que desceram recentemente de pára-quedas, alimentando projectos pessoais, estejam felizes da vida porque conseguiram aquilo que queriam. O partido não lhes diz rigorosamente nada e à semelhança de outros iluminados, no passado, vão sair à mesma velocidade com que entraram. Mas aqueles que com persistência, e tantos são, dedicaram uma parte da sua vida na defesa da sua bandeira e dos seus ideais, não podem ter este comportamento. Perante o veredicto popular não há sequer um sinal de respeito? Preferem manter as aparências em vez de exigir, num acto de humildade política, uma atitude de mudança?

Por tudo isto cansei-me de esperar e de ser paciente.

Dizer, como diz Mário Gouveia, que continua na liderança do partido porque tem um compromisso com os militantes é de uma pobreza política confrangedora. Na política, o compromisso dos líderes com os militantes é levar o Partido à vitória, ou a um bom resultado. Quando o resultado é uma humilhante derrota o compromisso é devolver-lhes o poder e evitar ser um factor de instabilidade.

De futuro os militantes do PS Maia, eu incluído, deverão ter mais cuidado nas suas escolhas. De facto não se pode exigir a um tocador de cavaquinho que saiba tocar violino.

Miguel Ângelo Rodrigues