Eu desejo a Paz

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Parsifal

Há muitos séculos que a religião se encontrava numa trajetória que fazia prever a sua instalação nos centros de poder.
Uma das primeiras grandes revelações de que essa trajetória tentava forçar a essência dos fundamentos religiosos para os arrastar para o espaço ideológico próprio do poder político, encontra-se precisamente na Bíblia, quando Jesus Cristo profere com toda a claridade: – “… a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Desde esse momento Bíblico até aos nossos dias, houve ao longo da História da Humanidade, diversos conflitos e guerras que eclodiram devido à instrumentalização da religião, precisamente ao arrepio desse ensinamento de Jesus.

Um afastamento da verdade Bíblica com culpas para todos os que semearam ódio e terror em nome de Deus. E fizeram-no sem mandato, sem obediência a nenhuma doutrina e sem humanidade, por isso todos têm as mãos manchadas de sangue inocente.

Aquilo a que assistimos hoje é, a meu ver, assim uma espécie de colisão frontal entre dois mundos, porventura bem mais do que um “Choque de civilizações”, como previa em tese, Samuel Huntington, no seu livro publicado no final do século passado (1996), no qual fazia uma análise quase premonitória desta trajetória para o embate, antevendo mesmo uma nova ordem mundial.

Captura do poder

O que nos revelam hoje os telejornais é que o extremismo radical, o terror e o ódio são consequências de uma fusão da religião com uma base ideológica política, servindo ambas para legitimar a captura do poder.

Em contextos geograficamente localizados, a ideologia política serve para organizar os supostos estados e definir a hierarquia do poder. À religião, pela via da sua instrumentalização, reserva-se a função de banir a Democracia, a Liberdade, o respeito pelos Direitos Humanos e o uso indiscriminado da barbárie, em nome de um “Deus” que surge para retirar da equação, a culpa e responsabilidade dos líderes políticos e de todos os outros criminosos.

A instrumentalização abusiva da religião está também a servir, para legitimar uma estratégia de aniquilação da laicidade dos estados e o expansionismo político e militar, pondo em risco, em muito sério risco mesmo, o equilíbrio geoestratégico do Mundo.

Pesar a consciência

Aos líderes políticos do Mundo ocidental, deve pesar-lhes na consciência, o facto de não terem dado ouvidos, ás reflexões e visões que atempadamente tornaram públicas, vários cientistas sociais e politólogos que desde o fim da 2ª guerra mundial foram advertindo para o que poderia vir a acontecer e, que na verdade, está mesmo a acontecer.

Liberdade, Democracia, Direitos Humanos, Justiça, Estado de Direito, Fraternidade e Solidariedade são valores que no nosso Mundo sustentam uma Cultura a que chamamos civilização. São esses pilares que estão em risco de ruir. E podem ruir por duas razões que se entrecruzam. Por um lado, correm o risco de ruir, porque podem ser destruídos pelo fanatismo radical e terrorista ou, por outro lado, podem ruir pela necessidade das sociedades ocidentais se protegerem, tendo de privar os cidadãos, de um modo de vida assente nesses pilares.

O conceito romano de que quem quer a Paz tem de se preparar para a guerra, adquire cada vez mais sentido, após algumas décadas de quase esquecimento… Assim como adquire sentido que os líderes políticos estudem a História da Humanidade, das Mentalidades e das Religiões…
Eu desejo a Paz!…

Victor Dias