Humildade e gratidão

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António Guterres

1.- Não estive em muitos encontros com António Guterres e só uma vez falei pessoalmente com ele. Mas deram para considerar este homem cristão até às raízes do cabelo, como sério e honesto. Sempre apreciei a sua forma de estar na vida, mesmo quando se retirou de primeiro-ministro. Usava a razão e o coração e talvez este fosse muito maior que aquela. Por isso a sua vida é um livro aberto, que ele condiciona em algumas páginas, por exemplo aquela, agora conhecida, de que depois de ser o primeiro-ministro de Portugal, esteve anonimamente em bairros problemáticos de Lisboa a ensinar, com total desapego pelo dinheiro ou reputação. Os seus valores sempre foram mais fortes que o seu “eu”, por que nele o “outro eu” – o tu -, encontrava na vida. Foi esse “tu”, que encontrou em jovem, na pessoa do “outro”, foi esse “tu” que ele encontrou nos refugiados, foi esse “tu” que ele sempre encontrou na pessoa do seu povo. Por que para Guterres esse “outro”, encarnou sempre a figura de um Outro, esse Jesus que o acompanha na vida, e nunca fez distinções entre aqueles que como ele acreditavam ou aqueles que acreditavam que não acreditavam.

2.- Este engenheiro que deu sempre a sua vida a favor, veja-se a capacidade de seguir sempre a sua mulher na fase terminal de vida, do outro que dele precisava; ele não fazia aos outros o que queria que lhe fizessem, como retribuição, mas fazia-o independentemente do que o outro fizesse, ou não. Vejamos as duas palavras usadas por António Guterres depois da aprovação do seu nome para Secretário-Geral das Nações Unidas: Humildade e Gratidão. Num discurso muito curto, a sua enfase foi para a humildade e para a gratidão. Sentiu-se grato, o que não é normal nos dias que passamos, e disso fez a parte substantiva de si próprio, gratidão é estar ao serviço e dizer que está ali, para agradecer e mais do que isso fazer de si um instrumento a favor dos altos desígnios humanos. Grato a todos, numa gratidão que fala com o coração e brota dele.

3.- Por outro lado a sua humildade em reconhecer que também é “barro” e por isso precisa de todos nós, cidadãos desta terra onde vivemos: o Mundo. A Humildade de que fala Guterres advém da “razão” que sempre emoldurou com o “coração”; fala da humildade por que sabe que só, nada é, que só comete mais erros que acompanhado, por isso precisa dos “outros” e do Outro. A Humildade em António Guterres é uma ponte para encontrar nos outros, por mais sofisticados que sejam, o diálogo que conduz à Justiça e à Paz e que para ele tem o nome de “Misericórdia”, ou seja, ver naquele que pelo caminho é rejeitado alguém de que ele precisa, para o aconselhar, mesmo que o tenha de socorrer. Mesmo “outro alguém”, senhor do poder e do dinheiro, com quem quer fazer pontes, com humildade, para o ganhar no sentido da transformação deste cosmos em que vivemos. Muito esperamos do nosso concidadão António Guterres!

Joaquim Armindo
Doutorando em Ecologia e Saúde Ambiental