Legislativas em contagem decrescente

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Os próximos meses até às eleições legislativas serão de pré-campanha, com o espaço mediático dominado pelo combate político entre partidos, com particular destaque para aqueles que se movem no designado arco da governação, ou se preferirmos, os partidos do bloco central.

Contudo, há uma outra pré-campanha que está a ocorrer longe dos olhares indiscretos dos jornalistas e dos holofotes das televisões. Refiro-me obviamente às movimentações de bastidores, aos golpes de asa e jogos de cintura que estão a acontecer no âmbito das máquinas partidárias.

Desde os órgãos nacionais, aos concelhios com maior expressão de militância, contando com as correlações de forças que se jogam nas distritais, as legislativas estão já em contagem decrescente e a fervilhar no seio dos partidos, com os deputados que já são, a tratar de garantir a sua continuidade, e os putativos, a fazer pela vida, na esperança de serem repescados para lugares elegíveis.

Para os deputados em exercício, dos partidos da maioria, a vida não está fácil, considerando que as sondagens, mesmo nos melhores cenários, apresentam algumas perdas que baralham as contas de quem gostaria de continuar no Parlamento.

Uns e outros, quer dizer, os que já são, e os que almejam um lugar nas listas, desdobram-se em iniciativas pessoais e “colagens”, aparecendo como emplastros, em todos os eventos com potencial de notoriedade interna e pública.

O resultado, para nós cidadãos eleitores, é que nas legislativas, teremos um boletim de voto, onde para além das siglas dos partidos, coligações ou movimentos transformados em candidaturas organizadas e legais, pouco ou nada saberemos da maioria dos candidatos a deputados da nação.

Nada saberemos sobre o que pensam, sobre o seu perfil de cidadãos e o que cada um deles fez, ou se propõe fazer, caso seja eleito.

Uma vez garantido o seu nome numa lista, em lugar elegível, ou perto disso, seguem na nuvem, à sombra do líder ou das figuras mais mediáticas, limitando-se a compor o ramalhete.

Liberdade e Democracia

Como cidadão, entendo que é curto, muito curto, o que sabemos sobre a competência e o perfil político dos candidatos a deputados. E na prática, a Liberdade e a Democracia que temos, acaba por perverter um pouco os seus valores, dando-nos apenas a possibilidade de fazer segundas escolhas, pré-determinadas por alguém, que em vez de nós, decidiu quem seria quem, nas listas dos diferentes partidos.

É este lado, a meu ver perverso dos partidos, de todos os partidos, que acaba por afastar muitas pessoas com qualidade, perfil público e competência política, que poderiam contribuir positivamente para o desenvolvimento de Portugal. Muitas dessas pessoas válidas, não se querem sujeitar às maquinações dos “controleiros” dos aparelhos do sistema partidário.

Não é por ter esta opinião que no entanto, deixo de considerar importante o papel dos partidos no sistema político democrático, mas vejo com preocupação que certos figurões, na ansia de controlar tudo e todos, acabem por descredibilizar o próprio sistema partidário, no seu todo. E isto é grave, muito grave mesmo. É tão grave que temo uma desistência esmagadora da cidadania, abstendo-se do exercício de um dever fundamental, o dever de votar.

Temo inclusive pela própria Liberdade e Democracia, olhando para as ameaças que vão surgindo, por agora ainda muito ténues e encapotadas, mas que a prazo, se podem adensar, se não encontrarem na sociedade portuguesa, uma resistência esclarecida, suficientemente esclarecida, que consiga travar quaisquer veleidades totalitaristas ou tiques ditatoriais. Como essa ideia peregrina de querer condicionar a Liberdade de Imprensa, uma Liberdade imprescindível a qualquer Estado de Direito Democrático. Lápis azul, não obrigado!…

Já sobre o conteúdo dos programas eleitorais, desta vez, aparentemente, teremos alguma margem para conhecer as propostas, atendendo ao facto de PSD e PS, se terem posto a caminho, para as apresentar publicamente.

Ainda não me debrucei com a atenção que o assunto requer, mas posso partilhar com os leitores, qual será a minha regra de ouro para a sua análise, que terá como questões metodológicas fundamentais, as seguintes:

  • Com que condições de vida vivo hoje, a nível cívico, social e económico?
  • Que perspectivas me propõe cada um dos programas dos diferentes partidos?
  • Consigo discernir a verdade e o realismo das propostas, e separar o trigo do joio, afastando tudo quanto é do domínio da demagogia eleitoralista?

Comemoramos recentemente 41 anos de Liberdade e Democracia, mas temos de reconhecer que há ainda um longo caminho a percorrer, para a aperfeiçoar e melhorar as possibilidades de participação democrática dos cidadãos.

Para já, recomendo a todos os leitores que não se esqueçam de afinar os seus filtros à prova de promessas eleitoralistas e demagógicas, para não se deixarem embarcar em conversa mole e discurso da treta, daquela que nos promete chuva no nabal, Sol na eira, e amanhãs que cantam…

Sejamos exigentes com os partidos e com os políticos, obrigando-os a falar verdade, a apresentar propostas viáveis e sérias, e teremos melhor e mais Democracia.

Victor Dias