Memorial da polémica

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Sempre que o prémio Nobel lança um novo romance, coincidência das coincidências, ou talvez nem tanto, lança também para o espaço público, uma qualquer polémica, preferencialmente fracturante e o mais escandalosa possível.

Pois bem, Saramago está de volta e em força. Ainda que as pessoas não se interessem minimamente pelo seu estilo literário, pela forma e pelos conteúdos dos seus romances, cuja escrita é, com toda a certeza, altamente respeitável e, por certo, detentora de alguns méritos, o escritor insiste em agredir e ofender todos, e são muitos, aqueles que no uso da sua Liberdade, não pensam como ele, professam a fé Católica e deviam ser respeitados, por alguém a quem se exige, no mínimo, a honestidade intelectual de não manipular e distorcer o sentido da Palavra Sagrada.

Julgo que não é necessário ser-se religioso para compreender que a Palavra, enquanto chave para o diálogo entre os homens, enquanto instrumento para fazer o caminho da Paz, encerra na sua essência, no seu âmago, algo de profundamente religioso. Creio nisto e é por acreditar na riqueza do poder de mediação da Palavra que não entendo como é possível que um escritor, justamente um escritor, seja capaz de destilar tanta barbaridade.

Sei que corro enormes riscos de ser sujeito a uma espécie de julgamento sumário, de uma qualquer elite intelectual que, certamente, há-de sair a terreiro, para cerrar fileiras em defesa do idolatrado escritor, virando o bico ao prego, para me acusar a mim, de fundamentalista, fanático e sei lá mais o quê?…Mas enfim, quanto a isso, nada que me possa causar espanto, é uma reacção crónica e previsível.

Não me importo absolutamente nada com isso, não posso é deixar de expressar o meu veemente protesto e indignação pelas gravosas palavras proferidas por Saramago, por ocasião do lançamento do seu mais recente livro, evento durante o qual teve o descaramento de dizer que: “a Bíblia é um manual de maus costumes…”, além de outros escabrosos impropérios.

Não estou certo de que na sala onde o escritor proferiu tais afirmações não houvesse Cristãos Católicos, mas se os havia, a minha tristeza é ainda maior, porque a única reacção que se sentiu, foi umas gargalhadas e uns sorrisos sarcásticos.

Vivemos hoje, felizmente, numa sociedade livre e aberta, onde cada pessoa pode ser aquilo que quiser, mas o que se impõe é que haja respeito pelo outro, pela diversidade de pensamento, de profissão confessional e pelas opções individuais de cada um.

Lembram-se quando Saramago lançou para o espaço mediático aquela polémica da fusão da Espanha e Portugal, num espaço único a que designou por Ibéria, acicatando paixões e fazendo correr rios de tinta. Vendo bem as coisas pela lógica da causa e dos seus efeitos, temos de reconhecer que o homem é mestre na arte de fazer render o peixe e manter o seu nome e as suas ideias peregrinas, à tona dos dias, durante muito tempo, coincidindo com os seus regulares lançamentos literários. Quanto custa uma campanha televisiva, radiofónica ou na imprensa? Quanto tem de investir uma editora para fabricar um “best-seller”? A resposta é clara, muito mas mesmo muito dinheiro, e mesmo assim sem as garantias da eficácia de uma boa polémica.

Não podemos ser ingénuos e embarcar de ânimo leve nestas estratégias de marketing, a custo zero, e que conseguem concentrar nos seus objectivos, nem sempre muito claros, poderosos meios e canais de comunicação. Estejam atentos e pensem no tempo e no espaço mediático que tem sido dispensado à verborreia do prémio Nobel. Por fim, já alguém viu ou ouviu algum anúncio publicitário ao novo livro do escritor? E seria preciso, com tão potente amplificação que foi dada aos infelizes comentários do PN?…

Os Cristãos Católicos, como eu, não se podem calar e deixar-se insultar com ofensas tão graves, principalmente vindas de gente que tinha obrigação intelectual de ter um discurso pautado por uma linguagem de elevação e pelo respeito da diferença.

Vivemos um tempo muito difícil, um tempo em que as crianças, os jovens e as famílias estão expostas a toda a sorte de discursos subversivos, a toda a perversidade, à hostilidade total dos valores e princípios éticos e morais com que se querem educar os mais novos. Lamento profundamente que um escritor que figura na galeria mundial dos prémios Nobel, nutra um gosto especial pela corrosão verbal, ofensivamente cáustica e imprópria de um homem que usa a palavra como a sua matéria-prima de eleição. Tenho muita pena de ter de escrever esta prosa, mas era um imperativo de consciência, expressar a minha livre opinião, a respeito de uma postura intelectual que não bate certo com a imagem que, apesar de tudo, alguns órgãos de comunicação social teimam em dar do escritor.

Estou certo de que o próximo romance deste escritor se intitulará: “Memorial da polémica” e que por ocasião do seu lançamento, o escritor deitará mão da sua imaginação prodigiosa, para provocar um novo escândalo, recheado de “sond bytes” que alimentará durante semanas a fio, intermináveis “fait divers” que hão-de manter a flutuar na espuma dos dias, o seu nome, a novidade literária de então e, quiçá, o objecto arremessado para provocar o choque cultural. Sejamos pacientes e, ou muito me engano, ou iremos confirmar isto mesmo.

Victor Dias