O perigo da erosão dos centros de prazer

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perigo da erosão dos centros de prazer

Começando pela desambiguação do significado de prazer, será útil identificá-lo de uma forma simples e clara.
Prazer é uma sensação de bem-estar, como tantas outras sensações, inserida num processo psicofisiológico.

Apraz dizer que o prazer é incluído amiúde na qualidade de vida, onde o amor, o sexo, o trabalho e todas as atividades recreativas/lazer estão incluídas.

Sobretudo os afetos…

Nos bastidores do prazer está uma resposta complexa do sistema límbico e dos neurotransmissores, sendo a dopamina o mais conhecido.

Se pensarmos no prazer como uma recompensa, natural e humana, que nos faz caminhar numa direção, um reforço; seria útil perguntar para onde vamos…

Todos dispomos, à partida, de atividades prazerosas. o desporto, a natureza, a família são recursos que dispomos para alcançarmos prazer.

Não obstante, em tempos de confinamento, alguns recursos diminuem (por exemplo a impossibilidade de ir à praia, sair com os amigos, jantar fora) e outros são mais usados (comida, doces, tabaco, álcool, pornografia, interações multimédia) por serem gratificações instantâneas.

No Jornal El País, o artigo”La explicación psicológica a la lista estrella de la compraen cuarentena: cerveza, aceitunas y patatas” mostra-nos uma análise das alterações dos hábitos de consumos dos espanhóis devido à quarentena.

A dopamina é conhecida por ser a molécula do prazer ou da motivação. Se o cérebro não libertar esse neurotransmissor “abre-se a porta” para outras emoções menos positivas “entrarem”.

A gestão de recursos carece de uma disciplina e de uma tomada de consciência dos processos cognitivos que nem todos dispõem.
O perigo da erosão dos centros de prazer nada mais é do que a ingerência de recursos. Se fizermos compras e não racionarmos o que comemos a comida esgotará, correto?

Se gostamos de cinema e assistirmos a todos os filmes que dispomos de uma só vez poderá não restar mais nenhum que nos agrade e até é possível que não exista mais essa predisposição por estarmos enfastiados.

O vício ou as dependências são outro problema emergente.

Os vícios, mais do que uma solução dopaminérgica escapista, são também um hábito e uma ameaça. Por vezes uma forma de lidarmos com o desprazer.

Da mesma forma, os gostos podem encapotar uma persistente busca pelo prazer imediato, com vista à alienação da situação presente.

Em todos existe uma característica denominada “tolerância”. Significando que o corpo se habitua a determinadas reações normalizando-as e será cada vez necessário maiores quantidades ou intensidades para que o resultado seja o expectável.

Portanto, o uso ou abuso de atividades prazerosas poderão resultar numa apatia, anedonia, desprazer ou a depressão.
A proposta de resposta a estes perigos será encontrar um equilíbrio e o prazer em coisas mais simples.

A multiplicidade de estímulos vindos da Internet e dos aparelhos tecnológicos podem dar-nos uma falsa sensação de prazer.
Os açúcares e as gorduras saturadas um esquecimento temporário com uma fatura “pesada”.

É conveniente disciplinar o corpo e a mente, com estratégias cognitivas para melhorar a nossa dimensão afetiva. Sentir os sabores naturais dos alimentos, dos afetos e do tempo, do excesso de tempo que temos à nossa mercê para aproveitar as coisas mais simples da vida e que temos por dados adquiridos.

A Psicologia poderá ser uma preciosa ajuda, nomeadamente as correntes psicológicas de terceira geração como o mindfulness.
Imagine-se obter satisfação ao comer uma maçã sem aditivos ou de sentir prazer por uma simples brisa de Verão no final do dia…

João Rodrigues (psicólogo)