O Socratismo já se entranhou na sociedade portuguesa

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O socratismo é já muito mais do que um seguidismo militante da figura do secretário-geral do Partido Socialista e primeiro-ministro, o Socratismo é, nesta altura, como que uma doutrina política, com o seu ideário próprio e modo de estar, ser e posicionamento perante a sociedade que exige dos seus aderentes, coisas que mais nenhuma ideologia exige.

O estilo pessoal de Sócrates começou por estranhar-se e depois entranhar-se nos seus seguidores e apologistas.

A divisa é, ser arrogante, prepotente, autoritário e surdo, mas mudo – mudo nunca…

Pertenço ao grupo dos cidadãos que acredita na honestidade dos políticos, pelo menos, até que haja prova em contrário, mas também partilho da clássica definição romana: -“…à mulher de César não basta ser séria, é preciso parecê-lo…”.

Enquanto cidadão português quero ter orgulho no meu país e nos seus mais altos representantes, no Presidente da República, no primeiro-ministro, no Presidente da Assembleia da República, no Presidente do Supremo Tribunal e no Procurador Geral da República e não quero saber da origem social, político-partidária ou religiosa de cada um, apenas quero rever-me nos seus valores éticos, morais, cívicos e patrióticos, porque sinto que dessa forma me será mais fácil respeitá-los e reconhecer o prestígio e honra que lhes cabe, por definição e prática.

O triste espectáculo a que temos assistido na praça pública, a propósito de um processo judicial é, a meu ver, terrivelmente lastimável, deitando por terra, para não dizer na lama, a reputação e dignidade de algumas das mais importantes e representativas instituições do Estado de Direito Democrático, em que era suposto vivermos, e isso entristece-me profundamente. Sinto que de algum modo, houve um retrocesso na nossa Democracia.

É certo que todos os protagonistas, ou putativos candidatos a protagonistas, que saem a terreiro, para abrir a boca e dizer de sua justiça, só têm conseguido lançar mais achas para a fogueira e, mesmo aqueles que querem deitar água no lume, só têm conseguido fazer mais nuvens de fumaça.

Toda a gente fala na separação dos poderes, judicial, legislativo e executivo, mas aquilo a que assistimos permanentemente é o contrário, com foices, a torto e a direito, na seara alheia. Assim não nos entendemos e, por certo, não vamos a lugar nenhum, a menos que seja esse o objectivo dos tais protagonistas. Se for, tenham ao menos a decência de o admitir, que eu, confesso, já começo a ter as minhas dúvidas.

O discurso político de Sócrates e dos socratistas, tem tomado uma forma e um conteúdo que merece uma análise mais cuidada, ora vejamos: -“…isto já começa a passar das marcas…”, afirmou Sócrates a propósito das escutas, sendo secundado por um socratista, porventura, mais socrático que o próprio Sócrates: -“…espionagem política…”, falando a propósito das supostas violações do segredo de justiça.

Partindo do princípio constitucional da separação de poderes, não deveriam ser os governantes e titulares de cargos públicos, os primeiros a pugnar por dar o exemplo e não exercer qualquer tipo de pressão, ou sequer declarações públicas sobre processos e assuntos que estão em segredo de justiça, mesmo sobre aqueles que, aparentemente, já sofreram essa violação?…

Ameaça

A Cavaco Silva exigiram que se calasse, apenas porque exprimiu a sua preocupação sobre o que se estava a passar, enfim, sentimento partilhado por milhões de concidadãos que continuam perplexos perante um fenómeno que, do meu ponto de vista, ameaça como nunca antes foi ameaçado, o Estado o Direito e o regime Democrático, coisas que parecem, neste momento, estar um pouco separadas umas das outras…

Quem garante aos cidadãos, os deveres do Estado, a segurança, a Justiça, o respeito pelas liberdades, direitos e garantias consignadas na Constituição. É claro que a resposta mais coerente é – as instituições, nada mais correcto!… Mas as instituições são, antes de mais, os rostos que as protagonizam e o discurso que eles proferem, mormente, na praça pública e nessa matéria, penso que estamos conversados, não acham? …

Não acredito que se volte abrir espaço para um caudilho que chegue para salvar a Pátria, invocando um qualquer sebastianismo messiânico, mas nunca é demais lembrar que fenómenos dessa natureza aconteceram aqui na península, apenas, em meados do século XX, ou seja, se pensarmos bem há pouquíssimo tempo.

Dá que pensar se tivermos em linha de conta que esses fenómenos começaram com interpelações do género –“…isto já está a passar das marcas…” –, o que pode querer significar, qualquer dia temos de restabelecer a ordem pública, facto que, com toda a certeza, iria acolher enorme aclamação populista, amplamente apoiada pela entusiástica legião de servidores que não hesitariam em apoderar-se rapidamente da máquina do Estado, de prosseguir com a propaganda e em nome do interesse nacional e sabe-se lá mais de quê e de quem, impor de novo o regime da rolha e do posso, quero e mando.

É por tudo isto que, apesar das ilegais violações do segredo de justiça, entendo que, nós os cidadãos cumpridores da Lei e pagadores de impostos, temos o direito de saber toda a verdade, pelo que reconheço que em nome da Justiça igual para todos, da Liberdade e do Estado de Direito Democrático, se devia por um ponto final num segredo que, afinal, só serve para ser infringido e quando é respeitado, como se tem visto, acaba por proteger quem não devia.

Da minha parte, continuo a adoptar o princípio de que todos são inocentes, mesmo aqueles que são constituídos arguidos ou, simplesmente, indiciados da prática de algum crime. Enquanto não forem julgados, para mim, presumem-se inocentes. Também não alinho em linxamentos na praça pública, nem em tentativas de assassinato de carácter, tal como julgo o farão, todos os cidadãos sensatos e sérios. Por isso custa-me entender que o nosso Primeiro tenha tantos advogados de defesa, tantos socratistas militantes. Deixem o homem trabalhar que bem precisa, que ele não deve ter mãos a medir, de tanto que há a fazer neste país mal amado.

Não sou socialista, mas se o fosse, diria que há muito mais PS e muito mais Mundo para além de Sócrates e, pior do que isso, para além do socratismo. Uma ideologia em que, estou convencido, nem o próprio inspirador acredita e segue.

Só espero que quando este artigo for publicado ainda haja Liberdade de Expressão, senão, ainda corro o risco de responder por delito de opinião…

Victor Dias