Oinião de Jaime Senra: Prioridades

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Acabo de chegar da Nova Zelândia, onde, como se sabe, se conduz pela esquerda. Não tive problema nenhum em pegar num carro e começar a conduzir pela direita outra vez. Da mesma forma que o nosso cérebro interpreta a imagem invertida num espelho ou se encarrega do sentido do equilíbrio em cima de uma bicicleta, basta pegar num volante para o resto do processo ser quase automático. Instintivamente sabemos que o pisca está invertido, que o limpa-pára-brisas está invertido, que a faixa lenta é a direita e não a esquerda, e um longo et cetera. Não é difícil. O que realmente me custa entender é a forma de conduzir que têm por cá os portugueses.

Já conduzi em várias partes do mundo e tenho observado, nos países civilizados, que os condutores respeitam um princípio básico, uma ideia muito simples de senso comum. Ninguém, em nenhuma circunstância, se sente com direitos especiais, com direito a ser o dono da estrada ou com o direito, seja figurado seja literal, de atropelar tudo e todos. E este princípio, levado à prática, funciona mais ou menos assim: se dois carros chegam a um cruzamento, os dois devem abrandar e ter cuidado, naturalmente. É raro acontecer que os dois cheguem ao mesmo tempo. Geralmente chega um dos carros primeiro e ambos condutores abrandam, indicando assim que cada um reconhece a presença do outro e uma situação que envolve um perigo potencial. Ora bem, quem tem direito a passar primeiro? Um português tem logo a resposta prontíssima na ponta da língua: “quem tiver prioridade passa primeiro”. E se lhe perguntarmos como se estabelece a prioridade explica-nos logo a sinalização da estrada ou, em seu defeito, a “prioridade à direita”. Pois bem, para espanto de muita gente, não é assim que se encara a mesma situação em muitos países civilizados (e imagino que os portugueses gostam mais de serem comparados com a Inglaterra do que com Marrocos, só para dar um exemplo qualquer, mesmo que politicamente incorrecto). Nos países educados, de uma forma geral, impera um sentido básico de civismo e de bom senso. Para continuar com o exemplo anterior, o condutor do carro que chega mais tarde ao cruzamento não vai acelerar estupidamente porque tem um sinal ou uma prioridade qualquer. Vai abrandar para reconhecer que o outro chegou primeiro, e se esse outro efectivamente avança lentamente, ainda trava um bocadinho mais para lhe facilitar qualquer manobra. Naturalmente que, se o carro que está a chegar em último lugar abranda e o outro carro não passa, porque não quer ou acha que não pode, apresenta-se uma situação de dúvida e, neste caso, resolve-se o problema com recurso à sinalização e às regras de prioridade. E isto realiza-se de uma forma calma e natural, sem grandes arranques nem travagens. Quando um carro deixa passar o outro não fica o carro de trás a buzinar ou a acender as luzes e a simular que atira o carro para cima do nosso. Passar e deixar passar é a coisa mais natural que pode acontecer na estrada porque ninguém tem direitos especiais nem sobre ela nem sobre as outras pessoas.

Aceleras

Mas isto, infelizmente, não é o que acontece todos os dias em Portugal. Por aqui as pessoas andam todas obcecadas com ter prioridade, com ter direito, com o “agora sou eu”, com imporem-se aos outros sem olhar a medidas nem considerações de nenhum tipo. Se um carro se vai meter à estrada e não tem prioridade, o carro que vem atrás nem sequer mantém a velocidade a que vinha e muito menos a reduz. Acelera o mais que pode numa corrida suicida (e homicida) para impor os seus direitos de prioridade ultrajados. E não há contemplações. Se uma pessoa idosa vai atravessar a rua fora de uma passadeira, não se lhe cede a passagem. Antes pelo contrário, atira-se-lhe o carro de forma intimidatória e obrigamo-la a correr, literalmente, pela vida. O condutor não vê nada de errado neste comportamento; antes pelo contrário, justifica-se dizendo que está a “educar” a pessoa a respeitar as regras e a ter mais cuidado! Provavelmente o idoso não tinha uma passadeira nem trezentos metros mais acima nem trezentos metros mais abaixo naquela estrada, é altamente provável que tenha problemas de locomoção, ou mesmo os reflexos diminuídos, talvez até suprimidos por Alzheimer, mas todas essas considerações, que são feitas na intimidade da vida social do condutor com toda a sensibilidade e bom senso a respeito dos seus pais ou avós, desaparecem por arte de magia quando está atrás do seu volante.

Estas situações são o triste lugar-comum das estradas portuguesas. Acelerar na luz amarela, ou mesmo vermelha, acelerar nas rotundas, acelerar na proximidade das passadeiras, acelerar à frente de carros sem prioridade, acelerar e “colar-se” ao carro que vai à frente, dar murros no volante ou no tejadilho, esbracejar, insultar entre os dentes para que o outro leia os lábios, enfim, o repertório da estupidez é grande, variado e tão ou mais amplamente partilhado que o próprio código da estrada.

Imagino o que deve sentir um turista estrangeiro a conduzir neste país. Não deve esquecer tão cedo a simpatia e a hospitalidade deste povo de brandos costumes. Não me admiraria nada se muitas vezes fosse simplesmente impedido de chegar ao seu destino. Em muitas situações, as filas para virar à esquerda ou à direita começam muito antes de que apareçam as respectivas indicações de rota nas placas de sinalização e os correspondentes traços contínuos. O turista, obviamente, não tem forma de o saber. Quando chega à conclusão que se tem de meter na faixa da fila, já vai demasiado tarde. Bem pode tentar meter-se, insinuar que precisa de virar, pôr o pisca, acenar com o braço… chegou tarde. Bem pode esperar porque não o vão deixar passar. Os carros vão-se colar uns aos outros e acelerar para não deixar que se meta ninguém. E ai do infeliz que decida transigir porque naquele dia estava especialmente bem-disposto… os carros de trás não o vão deixar mais em paz. Cinco quilómetros mais à frente ainda lhe vão fazer sinaizinhos, manobras, olhares reprovadores, gestinhos, enfim…

Saber

Há toda uma subcultura da condução em Portugal que vem desde tempos imemoriais. “Saber conduzir” ou “conduzir bem” é todo um culto e tem legiões de oficiantes. Imagino que as raízes deste comportamento provêm da incorporação em massa de analfabetos funcionais ao fenómeno da democratização do carro. “Tirar a carta” em Portugal sempre foi um acontecimento vital e transformador só comparável ao casamento. Este é todo um tema digno de antropologia cultural. Não é assim em muitas outras partes do mundo. As pessoas não aprenderam a descarregar as suas frustrações dentro do carro. Não é isso que os pais ensinam aos filhos com o seu exemplo. A impressão que dá, e acho que não devo andar muito longe da verdade, é que em Portugal as pessoas andam todas obcecadas com o seu lugar na pecking order, a hierarquia da picotagem na sociedade das galinhas. As pessoas sentem que têm de se “defender” umas das outras porque são todas acérrimas inimigas e todas vítimas (sabe-se lá de quê) e que, se não fizerem valer os seus direitos e “prioridades”, são ultrapassadas no mapa social como uma carroça de burros é ultrapassada numa estrada. Defender a sua prioridade com veemência, mesmo com uma imprudente e criminal violência, é visto pelos próprios, lá no fundo, como um acto de reivindicação e de justiça. E este sentimento chega a ser tão forte que quando a imprudência fere e mata na estrada nem é objecto de condenação social nem é motivo de auto-recriminação e de culpa, porque afinal de contas o irresponsável, o criminoso, até tinha prioridade… Quantas mortes absurdas se podiam ter evitado e ainda se podem evitar se se acabar com o culto à prioridade.

As regras de “preferência”, chamemos-lhes assim, têm toda a razão de ser e devem continuar a existir. Servem para dissipar situações de dúvida potencialmente perigosas. Mas em vez de lhes darmos o nome de “prioridade” talvez devam ter uma designação diferente. E definitivamente não servem para descarregar frustrações, não outorgam patentes de corso, não dão direito a ignorar e a desprezar os outros e, em última instância, “não têm prioridade” sobre o bom senso e a educação. Acelerar o carro porque se tem prioridade e acabar por matar uma pessoa é um crime. Não só é um homicídio, é um homicídio premeditado, tremendamente absurdo porque é absolutamente gratuito e evitável.

É importante ensinar e saber as regras de trânsito. Da mesma forma que aprendemos todos a não cuspir para o chão, devemos ensinar e aprender agora que é de bom-tom conduzir com educação, cortesia, respeito pelos outros e bom senso. Talvez seja uma prioridade.