Opinião Alvarinho Sampaio: Cem anos de República

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– Tudo para poucos, nada para os restantes

Terminaram as comemorações do primeiro centenário da implantação da República e, como nunca é tarde para recordar, vou falar concisamente de uma história vivida há cerca de um século e que, com a simplicidade que me é peculiar, dedico-a aos portugueses – àqueles que há cem anos imaginavam ser pobres – e também a uma cambada de oportunistas que os convenceram de que iriam passar a viver bem se o rei fosse deposto.

Assim, em nome de uma liberdade que nunca tiveram e de uma melhoria de vida que nunca alcançaram, não só destronaram uma monarquia, vigente há cerca de oito séculos, como assassinaram o rei D. Carlos e o príncipe D. Luís e puseram em perigo de vida da rainha D. Maria e do seu filho D. Manuel – mais tarde rei de Portugal.

Também, em nome da liberdade foi constituída, em 1910, uma república que ainda hoje espera o que foi prometido e nunca chegou de uma forma duradoura àqueles portugueses que então se deixaram cair na esparrela – aliás no logro em que sempre se deixam cair. Depois do regicídio, seguiram-se mais de quinze anos de loucura e de eleições que elegeram oito presidentes e quarenta e cinco governos ‑ um deles nem tão pouco completou vinte e quatro horas! Viveram-se anos de terror com os atentados bombistas a terem lugar quase diariamente!
Vinte anos se passaram e, durante esse período, o povo continuava à espera de ver concretizadas as promessas que não se cumpriam. Para esse povo, o seu sonho continuava a ser irreal e sentia na pele que a «tal democracia» também não existia.

A história diz que os mais velhos, lembravam que durante a monarquia se consagrou o direito aos trabalhadores para se organizarem e assinarem contratos com a entidade patronal e que, desde 1820, o direito à greve estava instituído. Todavia, as condições dos trabalhadores, a partir de 1910, eram tão miseráveis que as greves se banalizaram e criaram a deterioração do tecido produtivo. As cenas de bordoada passaram das ruas para o Parlamento, onde os parlamentares se envolviam em cenas de pancadaria acompanhadas de risos e gargalhadas esgares. Era este o «prato do dia» que era servido ao povo!

A dívida pública, aumentou cerca de vinte vezes. O exército tinha os vencimentos em atraso, assim como os outros funcionários públicos. Estava aceso o rastilho para uma, mais que previsível, ditadura militar. O Governo republicano cai de podre, com o avanço do general Gomes da Costa sobre Lisboa. Sabe-se o que se seguiu. Este general foi substituído pelo general Carmona que não aceitou as condições de empréstimo da Sociedade das Nações para salvar a depauperada economia nacional e procurou, entre a sociedade civil um homem que tomasse conta da pasta das finanças. Este homem, de nome António Oliveira Salazar, conseguiu, em poucos anos, equilibrar as contas do estado, reduzir para metade o juro da dívida pública e descer, de forma inimaginável, o desemprego e, durante alguns anos o povo sentia que, apesar da guerra colonial que grassava em África, alguma coisa estava a mudar!
Em 1967, o doutor Marcelo Caetano assumiu a presidência de um regime autoritário onde se notava a falta de liberdade, a base social de apoio e a ausência de uma solução política para a guerra do Ultramar.

Em 1974, a chamada «revolução dos cravos», tal grito do Ipiranga, o grito da esperança, foi logo sufocada por uma ditadura de esquerda – o «Gonçalvismo de má memória». Depois de muitas tropelias e de tantos atentados à liberdade, o povo vê esta situação terminar com outro golpe ‑ o «25 de Novembro» que trouxe, de facto, um cheirinho a democracia! Só por isso esta efeméride deveria ser festejada mas, infelizmente, passa esquecida. O esquecimento a que são votadas as coisas e as pessoas importantes que, anonimamente, passam na vida de um povo e de uma nação!

Hoje, um século depois do sonho manchado pelo sangue de um monarca constitucionalmente em funções, verificamos que estamos ainda pior que em 1908! Hoje, volvidos que são trinta e sete anos após o 25 de Abril de 1974, e provocada pela inépcia de uma péssima governação – maioritariamente socialista – e dos desmandos dos nossos governantes, assistimos a uma escandalosa banca rota; ao aparecimento constante de inexplicáveis buracos financeiros; ao descalabro financeiro nas instituições públicas e quejandas; à subida vertiginosa do desemprego; ao descrédito total perante as praças financeiras internacionais e a uma enorme insegurança.

Tudo isto deveria fazer corar de vergonha os fundamentalistas republicanos… no entanto, o que acontece é que um orçamento de milhões (saídos dos nossos já esburacados bolsos) é entregue a fundações duvidosas e a uma qualquer comissão para «festejar os cem anos da República» ‑ cujos festejos terminaram no passado dia 5 de Outubro ‑, comemorando toda esta desgraça que se agravou durante o século passado!
Porém, se acrescentarmos a tudo isto, o facto de que todas as monarquias europeias estarem com muito melhor saúde financeira e social do que nós, que continuamos a viver não numa «república das bananas» ‑ no dizer de um republicano – mas numa «república de bananas», é caso para perguntar: «afinal, com tantos buracos e tantos biliões desbaratados ou sonegados, o que comemoramos nós?

Alvarinho Sampaio