Opinião Arminda Moura: Saltos altos

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Tic, tac, tic, toc assim é muitas vezes o som dos saltos altos em muitos locais se passeiam. Este som por vezes até faz virar a cabeça para se apreciar com os outros sentidos. Quem anda em cima deles são muitas mulheres, usam-nos não como simbolismo de glamour e extravagância. Nem tão pouco como forma de expressar feminilidade mas, pelo simples prazer de usar um par de sapatos de salto alto. Talvez desconheçam mas, num passado que não tem séculos, este modo de andar calçado ditava o tipo de senhora que os utilizava e as apartava por não serem consideradas “filhas de boas famílias” e estas não eram brindadas com os dotes de meninas de bem. Mas esquecendo um pouco isto porque se os sapatos de saltos altos fizeram história e marcaram o tempo também muitas mulheres que os usaram, ou não, também se destacaram pela diferença. Não nos podemos esquecer que ao lado de um grande homem se encontra sempre uma grande mulher. Não pensem que esta é grande porque é alta ou gorda, suas qualidades físicas aqui não interessam. O que interessa é a sua forma de estar e se mostrarem à vida, como actuam e resolvem muitas situações com que se deparam.

Na nossa história portuguesa temos uma grande mulher e seus feitos a levaram a ser coroada santa pela igreja católica, Rainha Santa Isabel. Como ela muitas outras romperam e marcaram a história e ainda hoje muito se aprende com actos praticados por estas e outras mulheres que enobrecem a história, como por exemplo Catarina II, a Grande. Grande mulher verdade seja dita, conquistou uns mas outros a odiaram. As façanhas desta imperatriz russa marcam a história e sob a sua indicação o Império Russo expandiu-se e tornou-se conhecido como uma das maiores potências europeias. Igualmente Cleópatra, rainha dos egípcios marcou um povo e no decorrer da humanidade outras almas femininas gravaram seus nomes na mente e vida de muitos por seus feitos políticos, económicos e sociais. Tempos que a história não nos consegue mostrar agora a força e a coragem que estas bravas cometidas por atos de ambição, garra, força, determinação e quiçá também um pouco de loucura conseguiram seus intentos. Obra destinada ao sexo mais forte, o Homem!

Outra grande mulher marca a história e marcou também muitas pessoas e crianças pelo mundo, Madre Teresa de Calcutá. Uma missionária católica albanesa, tornando-se conhecida ainda em vida pelo cognome de “Santa das Sarjetas” pois a sua afeição e preocupação era ajudar o próximo. Criou em várias cidades do mundo centros de apoio a leprosos, a velhos, a cegos e doentes com HIV, assim como escolas, orfanatos e também trabalhos de reabilitação com presidiários. Quem teve a alegria e o privilégio de conviver com Madre Teresa certamente se sentiu diferente e muito pequenino. Independentemente da posição política e social que detinham, nada esta valia ao pé desta nobre mulher em que a sua maior riqueza era ajudar os necessitados. Pena que este exemplo de mulher ainda não tenha conseguido arrancar a carcaça incrustada de insensibilidade no coração de muitos homens. Lamentavelmente o seu ideal ainda não conseguiu domar a mente de muitos e frases simples que muito dizem se derretem no tempo como o orvalho ao amanhecer: “Não usemos bombas nem armas para conquistar o mundo. Usemos o amor e a compaixão. A paz começa com um sorriso.”. Grande filosofia de vida. Pena o mundo andar a caminhar para a perdição e está a perder o que lhe resta de humanidade…

Exemplos destes de humildade e bem querer ao próximo não se encontram ao virar de uma esquina e nos dias de hoje em que ainda vemos muitas mulheres a serem sequestradas e vendidas para verdadeiras empresas comerciais de prostituição que correm países, nos arrepia. E pensar que isto nos pode acontecer a nós adultos, às nossas filhas ou irmãs nos atira a um precipício de sentimentos dolorosos e, o que por vezes nos parece longe está próximo.

Sabemos que muitas mulheres desaparecem no mundo, fica a questão de saber onde é que elas estão? Não o sabemos e fazemos de conta que esta realidade nem existe. Fechamos ouvidos e mente, não queremos pensar nisto, o melhor é ver uma revista mais “in”, mais “light” ou ligar a televisão e ver algo que não seja nada de pesado pois pesado é já o jogo da bola que a muitos provoca taquicardias e isso já é emoção e preocupação que baste! Não é preciso procurar longe as violências físicas e psicológicas, por vezes estas estão ao pé da nossa porta, se não é o vizinho de cima, é o vizinho do lado. Cada vez mais nos deparamos com violências domésticas em que um homem agride, pontapeia e pula em cima do corpo de uma mulher. Que atitudes tomar? Agir ou fugir para não responder por responsabilidades que não se desejam?

Só resta uma atitude digna, acabar com o suplício e acudir aos pedidos de ajuda de quem se encontra nesta situação. Mas telefonar a centros de apoio a vítimas é complicado porque muitas destas empresas têm horário de abertura e fecho! Porque será que não estão ligados a outros serviços? Será que o perigo, a dor e a violência usam relógio? Se alguém tiver que fugir na calada da noite para onde se dirigem, pernoitam à porta de uma esquadra? Infelizmente a desgraça não cumpre horário, trabalha sempre a qualquer hora. Chamar a polícia nestas situações por vezes, se não muitas vezes, nada adianta porque, se não são demostrados factos esta limita-se a tomar nota da ocorrência e nada faz. Não venham dizer que “Só se lembram de Santa Bárbara quando troveja…!”. O pior que nos pode acontecer é morrer e todos sabemos que esta cobrança todos pagaremos mas nestes casos a que custos? Quanto não se sofre…

A história relata muitos casos tristes de maus-tratos que muitas mulheres sentiram e sofreram mas isto continua a acontecer no mundo. Mundo que julgamos grande e longínquo mas ao mesmo tempo tão perto de nós. E se muitos de nós pensam que só acontece aos outros se recorde que não é bem assim como se constata.

Muitos comemoram o dia da Mulher a 8 de março mas não recordam as mulheres que lutam, que gritam ou sofrem e que são vítimas da ambição de outros. Esquecem que não somos todos iguais e não se importam com os sentimentos da mulher… Se somos iguais porque temos que dar destaque ao dia da mulher? Curiosamente sabemos que a história dos tempos confidencia segredos escondidos de muitos mas há vista de todos, “ mais cego que o cego é o que não quer ver”.

Uma coisa posso afirmar, as mulheres de hoje têm os traços de suas mães e avós mas o pensar destas acredito que não é igual. Os desejos talvez alguns sejam semelhantes mas as ambições mudaram. As mulheres de hoje já não se satisfazem com uns simples sapatos de saltos altos.
A propósito sabem como nasceram os saltos altos? Não! Então quem sabe talvez eu conte a história numa próxima…