Opinião de Victor Dias: Que vergonha e que péssimo exemplo

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As boas palavras são um instrumento imprescindível a quem educa porque é por meio delas que se consegue abrir o coração de crianças e jovens, ajudando-os a compreender a essência das coisas e, sobretudo, a desenvolver a capacidade de discernir sobre as boas e as más escolhas da vida, para que o caminho a seguir por cada um, seja de facto o mais acertado, o mais verdadeiro e que melhor proporcione uma vida digna e de felicidade.

Mas como é bom de ver, palavras bem intencionadas e discursos eloquentes, por si só não bastam, é preciso dar testemunho concreto, com exemplos genuínos e verdadeiros que sejam modelo inspirador dos mais novos.

As notícias a respeito das habilitações académicas do Ministro Relvas que têm vindo a público, a serem verdade, são uma lástima para a opinião pública portuguesa mais jovem. Principalmente num momento crucial em que o actual Ministro da Educação tenta desesperadamente elevar a qualidade do nosso ensino. Uma missão hercúlea e quase impossível, face às profundas mudanças estruturais que são necessárias para que esse objectivo seja alcançado, daqui a uma ou duas gerações.

Licenciaturas de aviário

Estas notícias sobre as licenciaturas de aviário, conseguidas como se tratasse de um concurso de supermercado, ainda que aparentemente inócuas, vão gerar um sentimento, na população estudantil portuguesa, de inutilidade do esforço, do trabalho escolar e do estudo, criando quiçá, a ilusão de que basta matricularem-se numa “jotinha” partidária qualquer, de preferência do arco da governação, para um dia receberem um diploma de licenciatura, por exemplo, em Ciência Política. Curso que, ao que parece, tem como manual indispensável, a obra-prima de Maquiavel (1469-1527).

Em qualquer país europeu, em qualquer Democracia moderna ou sociedade civilizada, em que se exigisse aos titulares de cargos públicos, decência, honra e vergonha na cara, a esta hora, já teria havido uma atitude minimamente reparadora consubstanciada, obviamente, na demissão do visado. Pelos vistos não reunimos nenhuma dessas condições e, face a isso, continuamos alegremente numa patética república das bananas.

Questiono-me sobre o currículo do Ministro Relvas que de tão rico e pleno de garantias de domínio das habilidades políticas, terá sossegado os docentes universitários, ao ponto de utilizarem o recurso legal, mas porventura imoral, de conceder um grau que exigiria de qualquer outro cidadão comum, muito estudo, empenho e dedicação. A diferença é que quem conseguiu uma licenciatura por mérito, não está exposto ao ridículo e a chacota nacional, como infelizmente está a acontecer com o Ministro Relvas. Como cidadão português, não me alegro por isso, bem pelo contrário, entristeço-me e lamento profundamente. Penso também naquelas pessoas que tendo, porventura, um currículo profissional e público bem mais rico e extenso que o Ministro Relvas, não requereram o uso de qualquer prorrogativa discricionária, qual “bomba atómica” académica e conseguiram as suas licenciaturas, mestrados e doutoramentos, fazendo os seus percursos normais, a pulso e de consciência tranquila.

O que diz Nuno Crato?

Há contudo um pensamento que não resisto a partilhar convosco e que não me saiu ainda da cabeça, desde que tomei conhecimento deste caso que Passos Coelho teima em dizer que é um não assunto. Refiro-me à enorme curiosidade que tenho em querer saber a opinião do Ministro Nuno Crato, tão obstinado como está em carregar na exigência, no rigor nas avaliações regulares de fim de ciclo, com carácter nacional e abrangente. Será que Nuno Crato aprova a licenciatura instantânea do seu colega Miguel Relvas? Confesso que tenho dúvidas, mas sempre gostava de saber a nota que o Ministro da Educação lhe dava…

Apesar dos pesares, a verdade é que Relvas tem, no seio do Governo e no PSD, uma poderosa influência que até nos confunde, deixando os portugueses sem saber quem realmente manda, tal é esta inanarrável ausência de consequências políticas acerca de factos gravíssimos, que vão afundando a dignidade da classe política, cavando cada vez mais fundo a falta de credibilidade e a natural falta de respeito que isso acarreta, por parte dos concidadãos. Estou convicto que estas tristes notícias vão ter, inevitavelmente, efeitos muito perversos na nossa vida política, já de si tão pantanosa e lamacenta. Que tristeza e que péssimo exemplo, vindo de quem devia estar acima de qualquer suspeita ou dúvida, para não se expor ao deplorável escárnio, indigno de um governante. A um político e, mormente, a um membro do Governo, não basta parecer ser sério, é preciso mesmo sê-lo…

 

Victor Dias