Opinião Manuel Oliveira: Hoje já não basta mentir bem

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Já o tenho repetido várias vezes: o tempo da brincadeira, do desperdício, do facilitismo e do comodismo acabou. Se há, de facto, um novo paradigma na sociedade portuguesa é este. Os portugueses aprenderam, com este tempo de turbulência, a pensar duas vezes antes de assumir um compromisso, a calcular de uma forma mais racional o risco e a exigirem, isso sim, uma grande dose de respeito nas palavras e nos actos dos vários intervenientes da sociedade. Sinto que hoje os portugueses privilegiam imenso o sentido de seriedade e coerência de tudo aquilo que gravita e influencia as suas vidas. Obviamente, os partidos políticos não fogem à regra.
Na última ronda eleitoral para a Assembleia da República, as ruas de todo o país ficaram inundadas com milhares de outdoors para todos os gostos e tamanhos. Uns com gente feia, outros com mensagens “mais-do-mesmo”, ainda outros que, apenas com um breve olhar, se percebia estarem lá com o único propósito de marcar presença. O sentimento de que os partidos políticos se lembram do eleitorado apenas e só quando dele vão precisar, é cada vez mais sentido pelas pessoas. Pior, ele é cada vez mais percebido na lógica daquilo que o povo brasileiro correctamente apelida de “sem vergonha”.

Se por um lado é muito bonito dizermos que vivemos numa época da informação e do conhecimento, esta tem um reverso da medalha. O facto, por si só, de hoje estarmos capacitados de gerações mais instruídas e, claro, umas mais do que outras, conseguirem desenvolver um sentido crítico mínimo que lhes facilite uma tomada de decisão, é péssimo para uma forma de estar na política muito à portuguesa. Tradicionalmente os mestres politiqueiros deste canteiro da Europa sabem que lhes basta recorrer a três premissas para comprar o voto cego da Maria e do Joaquim: não aumentar impostos, prometer postos de trabalho (emprego, vá) e jurar fidelidade ao Estado Social – seja este o que for. Não sei se quem detém a possibilidade para Governar já reparou, ou se é preciso alertar aqueles que cresceram com este método brilhante de enganar os outros, mas isto acabou.
Hoje, não bastam promessas bacocas ou projectos megalómanos que inspiram à identidade de um povo, ou a algo que ele nunca foi mas sempre sonhou em ser. Não basta organizar um comício ou um jantar com muitas mesas, bandeiras e música dos Vangelis para que as televisões mostrem lá para casa que aqueles tipos têm muito apoio e se tanta gente os segue é porque devem ser os donos da razão. Os portugueses estão mais atentos e esclarecidos, mais conscientes e reaccionários.

Temos tido, nos últimos meses, provas mais do que suficientes de que a sociedade civil está cansada de ser tratada como inútil e exige respostas sérias a compromissos que nunca são cumpridos. Acima de tudo, os portugueses exigem hoje um diálogo verdadeiro e realista. É lamentável que o maior partido da oposição já tenha pedido uma maioria absoluta quando no parlamento acaba de se abster ao descongelamento das pensões mínimas. É patético ver aquele que será recordado nos próximos anos como o pior chefe de Governo desde a Revolução, e o maior ilusionista de todos questionar com toda a convicção como é que os outros puderam colocar o país na situação de eleições antecipadas, como se isso fosse o nosso grande prejuízo.
As duas forças políticas que são responsáveis pelas duas falências económicas e financeiras portuguesas nos últimos vinte e cinco anos, continuam a encarnar em si o acto de Pilatos a cada ronda eleitoral: sempre que os portugueses são chamados a escolher, a culpa nunca é deles. E, em boa verdade, não é. A culpa é daqueles que votam sempre nestes inúteis e incompetentes, neste tsunami de conveniências e interesses. Um acto de sadomasoquismo que estou cada vez mais certo que irá terminar. Até porque hoje, já não basta mentir bem.

Presidente da Juventude Popular da Maia