Opinião Victor Dias: A energia nuclear da família

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A família, tal como eu a aprendi, numa experiência de vida de mais de vinte anos, enquanto partilhei o meu quotidiano com os meus pais e irmãos, num agregado numeroso, pleno de substância e significado, é por definição, o espaço comunitário que mais virtudes pode concentrar.

Nessa comunidade, aprendi a falar, a caminhar, a partilhar o que a todos pertencia, a evitar ou a resolver tensões e conflitos, a respeitar o outro, enfim, aprendi a ser pessoa.
Para além de tudo isso que foi estruturando a minha personalidade e a minha dimensão de ser vivente em relação, o mais importante de tudo, foi nascer e crescer no amor dos pais e dos irmãos.
Hoje, no seio da família que nasceu do meu matrimónio, essa experiência tem servido muitas vezes, sobretudo para nunca confundir aquilo que é a sua essência, de tudo o resto que, embora sendo importante, é acessório ou secundário.

Para que uma família consiga resistir e fortalecer-se, enfrentando as dificuldades e desafios com que é actualmente posta à prova, só há uma energia nuclear que a move e torna inabalável, face às hostilidades de toda a ordem com que actualmente se depara. Essa energia é o amor, o verdadeiro cimento que une e sela os laços de afecto e de sangue.
Hoje, é frequente ouvir-se um guizalhar persistente que não esconde, não consegue esconder, os seus reais intentos, de proclamar a crise da família. Quem o faz, sabe bem porque precisa de lançar essa atoarda.

É preciso estarmos atentos e procurar ler, para além das linhas visíveis, o que move certos poderes, na sua maioria ocultos e alicerçados em interesses gananciosos que, no princípio e no fim, visam invariavelmente o lucro.
Todos nós sabemos muito bem que famílias bem estruturadas, sólidas, erigidas sobre valores humanos, morais e éticos consistentes, não são prezas tão fáceis para o consumismo, para a promoção da libertinagem ou para a desordem moral.

O capitalismo selvagem, invenção de um certo neoliberalismo, esfrega as mãos de contente, sempre que pode dar um empurrãozinho na desunião e no desmembramento das famílias, porque desse modo obtém mão de obra mais disponível e, por força das circunstâncias, quase sempre mais barata.
A política e os políticos, sobretudo os neoliberais, também dão a sua ajudinha, fazendo publicar leis que facilitam o divórcio no minuto, encerrando maternidades e escolas, liberalizando o aborto, o casamento de homossexuais e agravando impostos e contribuições que penalizam fortemente as famílias.
O primado da vocação da família é o amor, o amor conjugal entre os esposos, o amor filial e o amor fraternal, dimensões em que se pode alcançar a verdadeira felicidade. Mas esta missão da família é hoje um desiderato quase impossível, em muitos casos hercúleo, tantas são as dificuldades e obstáculos que tem de vencer quotidianamente.

Nos nossos dias, as famílias têm de lutar corajosa e tenazmente contra tantas adversidades, inclusive contra a tentação sub-reptícia de quem procura fazer crer que certos comportamentos e atitudes são normais e socialmente aceites e quem fugir de certas normas, ou normalidades banais, corre o risco de ser segregado e excluído do grupo social. Este tema é um assunto que procuro desmistificar sempre que posso e fazer dele motivo de reflexão e diálogo no seio da minha família, levando as minhas filhas a reflectir que se a corrente nos tenta arrastar para onde não queremos, temos de ser fortes, e lutar para a contrariar, porque nenhuma dificuldade na vida é mais forte do que a nossa determinação e vontade de a vencer.

Quando às vezes uma criança ou um jovem me diz que quer isto ou aquilo, que quer ir aqui ou acolá, que quer fazer o que toda a gente faz, a minha resposta é – mas tu não és toda a gente, tu pensas pela tua cabeça, ages segundo a tua vontade e não fazes o que toda a gente faz, porque tu não vais para onde te leva o vento ou a corrente, sê tu próprio e não toda a gente.
A família tem de facto uma energia nuclear, o amor, mas ela própria é igualmente a energia nuclear da sociedade. Famílias felizes irradiam alegria de viver, formam cidadãos mais solidários e fraternos, cujo sentimento de pertença à comunidade é, porventura, mais significativo, porque fundado numa identidade comunitária que provém dessa célula biológica e espiritual originária.

Se formos ler a História da Humanidade, iremos por certo concluir com alguma facilidade, a importância crucial que a família teve no aparecimento de certas civilizações, povos e nações. Do mesmo modo, iremos perceber os desastres e as tragédias que aconteceram sempre que os estados e o poder atentaram contra a família, promovendo o individualismo ou a colectivização, desrespeitando valores intrínsecos à natureza humana. Foi assim que no século XX, regimes como o nazista na Alemanha, comunista da União Soviética e na China, cometeram crimes hediondos contra a Humanidade.

A família é uma comunidade de afectos, de bem-querer e bem-estar, onde os seus membros se realizam através da integração nesse sentido da vida, o amor, a tal energia nuclear.
A felicidade, enquanto sentimento comum, partilhado por toda a família, no seu amor, é possível, basta que acreditemos e façamos tudo o que está ao nosso alcance, sem nos deixarmos levar por modas, tendências ou vulgaridades da norma que outros nos querem impor, para não se sentirem sós.

Victor Dias