Opinião Victor Dias: A hora da Democracia

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O exercício da Liberdade e da Democracia é bem mais fácil de se concretizar quando as condições socio-económicas são caracterizadas por ventos favoráveis.
Em tempo de dificuldades, ou de crise instalada, como está acontecer em Portugal, na Europa e no Mundo, esse exercício torna-se muito mais difícil e exigente.
Quem está no poder acha que tem uma legitimidade reforçada, às vezes fala e age, como se estivesse investido de uma espécie de poder suprademocrático, por entender que tem de tomar medidas imprescindíveis, caindo na tentação do “messianismo sebastiânico”.

Noutro tempo e noutras circunstâncias históricas e políticas, Salazar interiorizou que a Nação Portuguesa clamava pelos grandes desígnios, acreditando e fazendo crer que era a si que assistia o direito de exercer a missão de erguer a Pátria, segundo os seus valores e métodos, exercendo o poder de uma forma autocrática e ditatorial que não admitia crítica ou oposição.
Recentemente tivemos alguém que aconselhou a fechar a Democracia por um período de seis meses, para recompor as ideias e o país. Julgo que os portugueses compreenderam bem o sentido dessa frase que resultou quase num gesto de “harakiri” político, tal foi a violência enfurecida das reacções que suscitou, muitas delas injustas e quiçá até hipócritas.
Face à situação vigente, espera-se dos políticos que façam o que tem de ser feito, explicando bem porquê e, sobretudo, para quê e até quando.

Exige-se hoje, mais do que nunca, um exercício da política e do poder, responsável e consequente. Uma responsabilidade que é incomensuravelmente maior para quem governa, mas que não subtrai exigência à oposição.

A tão propalada transparência que o meu partido invocou aos quatro ventos durante a campanha eleitoral, tem de ser um princípio inamovível da acção política governativa. As promessas eleitorais têm de ser cumpridas e aquelas que, de todo em todo, não possam ser levadas a cabo, têm de ser explicadas as razões porque os governantes se viram impedidos de as concretizar.
Todas as pessoas estão conscientes de que é inevitável fazer sacrifícios, passar privações e melhorar a sua regra de vida, poupando em tudo e gastando o mínimo, porque o rendimento disponível das famílias já foi fortemente afectado pela crise, obrigando a uma gestão da economia familiar, mais parcimoniosa e apertada.

A verdade e a moralidade têm de ser divisas permanentes da acção política. A verdade porque é um direito que assiste a todos os portugueses. A moralidade, porque ninguém mais aceitará que se imponham sacrifícios e medidas de austeridade de uma dureza ímpar, se continuarmos a ver que não há justiça e equidade nesse esforço nacional.
O grande desafio de quem governa é fazer o que tem de ser feito, sem esquecer que vivemos em Liberdade e em democracia, o que significa estar exposto à crítica, porventura injusta e infundada, mas legítima, porque resultante de um direito.

Por certo, a pressão mediática, social e política fará com que os governantes desesperem e se irritem, mas são os ossos do ofício e ninguém é obrigado a ser político.
Pese embora o facto de estarmos a entrar numa espécie de escalada verbal, com o discurso político e jornalístico a subir de tom e, paradoxalmente, a baixar de nível, o que é de certo modo normal, há uma constatação inevitável, é que o “estado de graça” deste governo, enfim, expirou precocemente. Como tal, Pedro Passos Coelho e os seus ministros e secretários de Estado, têm de se preparar para o fogo cruzado que aí vem. Para que não haja um desatino generalizado, é recomendável que a comunicação seja gerida com inteligência e, mormente, com verdade.

Não confundamos as coisas, porque apesar dos pesares, o ambiente político é totalmente diferente da era do socratismo. Embora a realidade seja hoje apresentada com maior crueza, pelo menos já não temos de aturar um discurso surrealista, altista e excessivamente demagógico.
Hoje, apesar das dificuldades, respira-se outro ar, e há mais verdade, por vezes dura, é certo, mas a verdade é sempre preferível à ilusão e à mentira.
É bom que não confundamos as coisas e não percamos a Esperança.
Como cidadão e, também como militante do PSD, é meu direito e, consequentemente, minha obrigação exigir a verdade e a transparência no exercício do poder e na gestão da coisa pública. Entre outras coisas, é aí que o PSD tem de fazer a diferença, sem equívocos e com inabalável determinação. Creio que o tem conseguido, mas precisa de ir ainda mais além…
Talvez ainda seja cedo, mas convém não demorar muito, porque a paciência de quem sofre não é ilimitada.