Opinião Victor Dias: “Excepções em excesso”

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Todos nós sabíamos que o que nos esperava eram tempos de dificuldade, de dureza e aperto financeiro. Ninguém tinha ilusões e rapidamente se percebeu que a vida, na forma de a pensar e no modo de a viver, tinha mudado.

Face aos apelos e avisos à navegação, feitos pelo Primeiro-ministro e por alguns dos seus ministros com maior responsabilidade nas áreas da economia e finanças, lá acabamos por nos convencer que os sacrifícios eram inevitáveis e iriam envolver toda a comunidade nacional, de forma proporcional e justa, consoante as possibilidades de cada um.

Pedro Passos Coelho sempre se mostrou determinado e corajoso, falando em tom muito afirmativo e convincente. Eu fui uma das pessoas que se deixou convencer e, sem reservas, aceitei os sacrifícios que me foram impostos, encarando-os como o meu contributo de cidadania para ajudar o país a vencer a crise e a sair do buraco em que os políticos incompetentes e desonestos nos meteram.
Sou social-democrata convicto e estava perfeitamente sintonizado com o governo de Portugal que ajudei a eleger.

Não há nada que mais me custe, do ponto de vista político, que ter de dar razão aos meus adversários. Mas como não sou fanático, nem seguidista indefectível de ninguém, manda a minha consciência e sensatez, que com toda a humildade democrática dê razão a quem a tem, seja lá de que partido ou família ideológica for. Para mim, a verdade e a Justiça não têm partido e mesmo que tivessem, eu tinha de ser militante dessas causas.

Não compreendo, como os meus concidadãos também não entendem, com que cara o Primeiro-ministro pode continuar a exigir e impor sacrifícios ao povo, revelando-se duro e forte com os fracos, mas subserviente e titubiante com os poderosos, numa atitude que só nos deixa pensar que está sujeito a constrangimentos e compromissos pouco transparentes. Como será fácil de entender, esta dualidade, diminui, de uma forma que para mim é preocupante, a autoridade democrática do chefe do governo.
Pedro Passos Coelho que diz que não se desviará um milímetro do caminho que traçou para a governação de Portugal, mas que entretanto, tem andado numa autêntica gincana política, contornando as excepções que os seus “gurus” lhe têm imposto.

Não bastava ter de governar com um programa político para o qual não escreveu sequer uma linha, para ter de gramar e assobiar face às contradições que o Banco de Portugal, a Caixa Geral de Depósitos, a TAP, a PT, os CTT e outras empresas com participações do Estado, o têm obrigado a engolir.

Passos Coelho aparentava ser um líder forte, mas foi só aparência, porque diante dos barões do PSD, daqueles que têm nas mãos o controlo da economia, na banca, nas empresas de sectores estratégicos, como o da energia, das águas e dos recursos que ainda são qualquer coisita dos portugueses, não hesita em vacilar e ceder, a todas as pressões e manobras de bastidores que se jogam nas sombras.

Penso que esta questão das excepções vergonhosas, injustas e desiguais, deixaram de ser uma questão de política mesmo, para entrarem noutro domínio, ou se preferirem, noutra escala de valores. A meu ver, estamos agora no plano da moral e da ética.

A desfaçatez com que se quer validar e justificar o injustificável, em matéria de excesso de excepções, é já uma questão de imoralidade e falta de vergonha!…

Espero sinceramente que apareça alguém no congresso do PSD que vai realizar-se este fim-de-semana, com coragem e de uma forma desassombrada, confronte Pedro Passos Coelho, com esta questão da imoralidade que está a afectar grave e irremediavelmente, a credibilidade do governo e, consequentemente, o futuro do PSD, nos processos eleitorais que se avizinham.

A este propósito do planeamento eleitoral, convém que os líderes nacionais tenham consciência que se o Ministro Relvas teimar em levar por diante a revolução administrativa de Portugal, na sua lógica puramente economicista, lançando o país num clima de tensão e conflitualidade social, de pendor regional e bairrista, o PSD vai ser fortemente penalizado. Um castigo severo que penalizará a inconsistência do governo, quanto à sua política de excepções, e que terá em conta o rasgar de velhas feridas que Miguel Relvas, na sua ignorância da realidade regional e da História de Portugal, está a todo custo, empenhado em abrir de novo, numa demonstração de excepcional excesso.

Victor Dias