Opinião Victor Dias: Nós, a crise e os outros…

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Portugal está a ser assolado por um autêntico vendaval político cujas consequências ameaçam ser devastadoras. A qualidade da nossa vida pessoal e colectiva está a degradar-se todos os dias.
O desemprego não pára de crescer, o poder de compra não pára de mingar, a saúde, a justiça, a educação e todos aqueles bens e serviços que eram, constitucionalmente, assegurados pela função do estado, quer fossem tendencialmente gratuitos ou não, estão a passar para as mãos dos privados. Privados que estão, como é óbvio, a dar preferência aos negócios rentáveis e chorudos, como diz o povo – “…negócios da China…”, ou também de Angola, direi eu. Privatizam-se os lucros e nacionalizam-se os prejuízos…

Não é aceitável e será, porventura, até imoral, que o Estado dê de mão beijada, milhares de milhões de euros aos accionistas privados dos maiores potentados empresariais de Portugal, ao mesmo tempo que “esgana” o povo com medidas de austeridade sufocantes.

Todos tínhamos consciência que era necessário governar o país com maior sentido da justiça social, melhor afectação dos escassos recursos públicos, mais eficiência na redistribuição da riqueza e dos sacrifícios e, sobretudo, de um exercício da política que fosse reconhecido pelas pessoas, como sendo mais coerente, verdadeiro, transparente e pautado pela moralidade, como valor orientador do uso da coisa pública.

Ora, aquilo a que estamos a assistir, é muito preocupante. Por mais explicações plausíveis que me possam dar, tudo indica no sentido de afundar ainda mais a classe média que é a verdadeira almofada social, condenando os pobres, à condição de miseráveis, enquanto os ricos, passam ao lado da crise e até vêm crescer como nunca as suas fortunas pessoais.

Nada, mas absolutamente nada, me move contra as pessoas ricas, principalmente as justas, sérias e honestas, mas entendo que compete ao estado, através do sistema tributário e da justiça fiscal, equilibrar a sociedade, promovendo a responsabilidade social e redistribuindo a riqueza, em função dos impostos cobrados. Não é o que está a acontecer, bem pelo contrário.
Por mais que prometam e apregoem que é tudo pelo paraíso que há-de vir, os rostos das pessoas não enganam ninguém. Sente-se no ar uma ansiedade, às vezes já transformada em angústia, que faz adivinhar que o futuro será pior, bem pior do que o presente.

O politiquês

Começo a ficar farto dos políticos que se dizem preocupados com as pessoas, mas que depois na prática, não só não o demonstram, como fazem o contrário.
Todos vamos ouvindo, lendo e vendo, políticos, analistas e comentadores, alguns com vastos currículos de exercício de cargos muito bem remunerados, a pedir, defender e apoiar que se corte aqui, ali e acolá, sem reflectir um segundo nas consequências dramáticas ou mesmo trágicas, que essas decisões vão acarretar, atirando famílias inteiras para a falência e miséria.

“É preciso cortar, despedir, extinguir, fechar, “matar e esfolar”, acabar com os direitos, etc.…”. Sim, mas dos outros!… É bem como diz o povo: -“…pimenta no “rabo” dos outros é refresco…”.
Podia desenrolar aqui uma vasta lista de personalidades a quem o Estado reconheceu os mais altos serviços prestados à nação, conferindo-lhes mordomias e privilégios que enchem de vergonha os seus congéneres de países ricos e que não são dignos de uma Democracia, mas que talvez fossem mais próprios de regimes fascistas.

Começo a pensar que a crise e os outros é alguma coisa que está para além do “nós”… Nós os políticos, nós os iluminados e privilegiados do sistema que foram bafejados com a sorte de estarem no aparelho partidário na hora certa, ou que na sua qualidade de independentes, podiam garantir uma afinação da imagem, para fazer parecer que agora é que vai ser, agora é que vamos ter um Estado apartidarizado e imune aos “lobbie’s” e às corporações.

Responsabilidade e solidariedade

Sou apologista das políticas que envolvam e comprometam as pessoas, levando-as a participar nas soluções que visam a viabilidade e sustentabilidade dos seus empregos, na plena certeza de que é sempre possível e preferível, reestruturar, em vez de se optar pela solução mais fácil, que é fechar e mandar toda gente para a rua, a rua da amargura.
Se uma organização se vê confrontada com a necessidade de, por decreto, ter de diminuir custos com pessoal, não será possível obter o consenso de todos para não deitar ninguém fora, ainda que isso custe a diminuição de salários e reorganização hierárquica?
O que é socialmente mais aceitável e menos dramático? – É que todos percam alguma coisa, ou que muitos percam tudo?…

Sou social-democrata, advogo a sã convivência interclassista e a justiça social, mas não sou, nunca fui e jamais serei, neoliberal, com trejeitos de capitalista selvagem, disposto a aceitar tudo em nome do supremo desígnio da economia, o lucro.
A Economia é uma Ciência humana que tem por missão ajudar a governar melhor, não a explorar ou destruir os mais fracos.
Na campanha eleitoral que antecedeu a tão reclamada estabilidade política que haveria de salvar Portugal, ouvi vezes sem conta, propalada aos quatro ventos, a palavra Esperança. Os caros leitores concordarão por certo comigo que não há Esperança sem Confiança. E quem governa tem de perceber isso, tem de compreender que a crise é um problema que afecta o “nós e os outros”.
Quero continuar a confiar que este governo quer restaurar a Esperança e pôr Portugal no caminho da Paz e da Justiça Social, do desenvolvimento humano e do progresso. Por isso me vou manter atento e vigilante, quer como cidadão, mas sobretudo, como social-democrata.
Se puderem, tenham umas boas férias.