Opinião Victor Dias: O que separa o PSD do PS?

0
9

Tenho vindo a analisar cuidadosamente as declarações de alguns destacados dirigentes e figuras dos dois maiores partidos portugueses, para tentar compreender, em que matérias, as suas divergências ganham substância.

Extraindo dessa análise, o discurso dos respectivos líderes partidários, é possível encontrar alguns pontos, onde as posições se aproximam e até se encontram.

É assim, no que respeita ao essencial, em matéria de disciplina orçamental, de racionalização da despesa do Estado, do equilíbrio das contas públicas e, como não poderia deixar de ser, também no que toca, ao fundamental do memorando de entendimento com a troica, que tem vindo a viabilizar o ajustamento da Economia portuguesa que, se não tivesse tido esse apoio externo, teria entrado em colapso, como afirmou recentemente, nos Estados Unidos, o Presidente da República. Presidente que reconheceu o facto, de o ajustamento ter tido mais dureza do que se esperava.

Creio que ninguém deseja que o país volte a correr o risco de ficar à beira da banca rota. E como tal, o que se espera destes dois partidos com relevantes responsabilidades políticas, é que sejam capazes de se entenderem quanto ao futuro.

Claro está, que cada um destes partidos tem uma visão diferente, sobre a orientação política que poderia ser dada à recuperação económica do país. Seja no que diz respeito aos “timings”, como no que reporta às doses de austeridade, quer dizer, terão entendimentos diferentes sobre a terapia.

No entanto, quer-me parecer, que ao nível do diagnóstico, entenda-se da consciência dos problemas e da sua gravidade, há uma espécie de concordância tácita. Embora se perceba que, por vezes, tentem fazer de conta que não é bem assim.

Sei que este tempo pré-eleitoral não é o melhor, para arrepiar caminho e tentar aproximar posições e construir um pacto político sobre as principais matérias que requerem um compromisso estável e duradouro. Um compromisso que facilite o crescimento e o desenvolvimento económico e social do país.

Teremos certamente que esperar o “day after” das europeias, para ver que consequências advirão daí. Quem sabe, se os resultados das eleições, não irão ajudar a abreviar esse entendimento?

parlamento_3003

A minha cultura democrática só me permite pensar que, de ambos os lados, há-de prevalecer o bom senso e o sentido de Estado, para que o interesse nacional se sobreponha aos interesses partidários particulares, que são sempre circunstanciais.

Há no Partido Socialista e no Partido Social Democrata, pessoas com credibilidade e capacidade, para se sentarem a uma mesa e negociar um acordo para várias gerações, porque é isso que se impõe, neste momento de enorme dificuldade.

Vai ser preciso deixar passar a campanha, o seu folclore e as farpas que habitualmente animam a festa. Mas depois, depois de tudo serenar, convém que os dirigentes, de um e de outro partido, ponham de lado as habituais picardias e assumam um discurso mais positivo que tem, principalmente, de ser pontuado por uma linguagem que não seja agressiva ou provocadora. Exige-se a todos, um respeito recíproco e uma genuína vontade de entendimento.

Nós, os portugueses, social-democratas ou socialistas, ou nem uma coisa nem outra, não vamos aguentar mais, porque perdemos a paciência, para os egoísmos de quintal, partidários ou sectaristas.

Estou convicto que a maioria de nós, já está naquela fase, em que só nos apetece dizer basta, chega, deixem-se lá de tretas e conversa mole e façam o que tem de ser feito.

Há muita gente a sofrer, a passar dificuldades e privações de toda a ordem. Portanto, ainda que o entendimento possa ser encarado, por alguns, como um sacrifício ou uma digestão difícil, nada, mas absolutamente nada, é comparável aos sacrifícios que foram impostos, sem dó nem piedade, ao povo português.

Este já não é o tempo de brincar às ideologias, às perrices irrevogáveis ou aos partidos. Este é o tempo de ser responsável, competente e determinado, provando ao país, para que serve a política e a sua arte de construir soluções de futuro, com base em compromissos sérios que visem em primeiro lugar, o bem comum. E quando está em causa o bem comum, creio que é sempre mais forte o que nos une, do que aquilo que nos separa.

Por fim, devo clarificar que, pese embora esta minha opinião sobre a necessidade de uma atitude mais positiva dos dirigentes partidários, isto não significa que abandone as minhas mais profundas convicções ideológicas que continuam a encontrar na social-democracia, as melhores respostas. Respostas que também se encontram, em diversos temas, no socialismo democrático, com algumas diferenças de pormenor que não alteram a substância.

É caso para dizer, tão diferentes e tão parecidos. Se bem que, nem sempre, aquilo que parece é!…

Victor Dias