Opinião Victor Dias: PSD/PCL a sigla do futuro

0
5

Aos poucos vamos descobrindo que as orientações programáticas que estavam na proposta eleitoral do PSD, de Pedro Passos Coelho, se vão desviando da base sobre a qual, um número significativo dos eleitores, tomou a sua decisão de lhe confiar o voto. As divergências entre essa base programática pré-eleitoral e o programa de Governo, além de saltarem à vista desarmada, são em muitos aspectos, extremamente preocupantes.

Estão hoje postas, completamente a olho nu, a incapacidade política para negociar com os nossos parceiros internacionais e, mais preocupante do que tudo, uma penúria intelectual que não permite pensar e formular soluções para os vários e complexos problemas com que o país se defronta.

Basta reparar que depois do ímpeto populista com que o Primeiro-Ministro inaugurou as suas funções, criando super-ministérios ‘ingovernáveis’, viajando de autocarro, de metro e de avião em classe turística, para significar que íamos mudar mesmo de vida, o que vemos agora, é os ministros a viajar para todo lado, semanas a fio, fugindo às polémicas, e a terem de ir aos seus compromissos públicos, fortemente guardados. Certamente sinal de alguma coisa de sintomático, numa Democracia.

Há uma matéria que nos deve fazer reflectir e questionar por todos os meios ao nosso alcance. Refiro-me à “enorme” panóplia de consultores “liberais” que este Governo tem contratado para apresentar soluções “viáveis” que o Governo depois há-de legalizar, privatizando o pouco que ainda resta para privatizar.

À cabeça dessa trupe de consultores, pagos segundo tabelas, certamente, “escondidas” da troika, está o professor Borges, que com toda a isenção e imparcialidade, não se cansa de elogiar o Governo e alguns dos ministros mais chegados a si.

Deduzo, com alguma razão, que o Governo não precisa de se desgastar muito com as privatizações. Deve limitar-se a ler os pareceres, assinar as respectivas facturas e decidir sobre o cenário indicado como mais favorável, quiçá, ao Estado, segundo a classificação atribuída pelos consultores. Consultores que são contra a posse, por parte do Estado, de interesses vitais à sobrevivência da colectividade nacional, defendendo acerrimamente a sua transferência para os privados, como por exemplo, o Estado Angolano ou Chinês, tudo democracias que são modelos exemplares para o Mundo. Há qualquer coisa que não está a cheirar bem neste processo das privatizações…

Enquanto cidadão, desconheço o que pensam os consultores sobre Economia, sobre Democracia, sobre Liberdade, sobre a Constituição, enfim, desconheço o que pensam do ponto de vista político e ideológico…

Podem dizer-me que eles são técnicos e só opinam nesse âmbito. E eu posso perguntar – mas desde quando a privatização da RTP, da ANA Aeroportos de Portugal ou da CGD, são processos meramente técnicos?

Temo que o Primeiro-Ministro que não sabia o que significava a sigla TSF, desconheça também o significado de PSD e qualquer dia lhe acrescente a sigla PCL (Plataforma dos Consultores Liberais).

A visão de Pedro Passos Coelho sobre a Social Democracia é, a julgar pelo seu discurso e acção no Governo, penosamente redutora, pondo em risco, em muito sério risco, a base social de apoio que Sá Carneiro fundou e que apesar de todas as vicissitudes da nossa História recente, foi resistindo e permitiu a sua, dele Passos Coelho, chegada ao poder.

É sem nenhuma relutância que tenho de reconhecer que o discurso de António Costa, no 5 de Outubro deste ano, foi verdadeiramente um discurso de Estado que puxou pelos portugueses e tocou em pontos de extrema sensibilidade, onde o Governo está a falhar em toda a linha. Revi-me essencialmente nos parágrafos em que o Presidente da Câmara de Lisboa se referiu a valores fundamentais do Estado de Direito Democrático e da Justiça Social. Pese embora o desconforto de alguns social-democratas que se apressaram a colar esse discurso a uma tentativa de instigação ao rompimento com os nossos credores e rasgar dos acordos com a troika, na verdade, António Costa invocou alguns princípios e valores da social-democracia e do socialismo democrático. Parecia ser o líder da oposição, mas isso caros leitores, quando ouço alguns antigos líderes do PSD, também parecem sê-lo, e no entanto estão a cortar na própria carne.

Como me estou absolutamente nas tintas para a opinião dos obstinados e dos surrealistas que não querem ver o que está a acontecer debaixo dos seus pés, tenho de afirmar com toda a clareza que subscreveria inteiramente aquele discurso de António Costa.

Eu começo a ter saudades do PPD e de tudo o que isso ainda significa para mim e para imensos portugueses! …

Victor Dias