Opinião Victor Dias: Soberania, Independência, Democracia e perda de sentido…

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Em Portugal, os valores que invoquei no título deste artigo, encontram-se hoje esvaziados de conteúdo e perderam o seu significado real, pelo que reservam apenas um sentido substantivo, de natureza morfológica.
Mais do que a crise política, uma instalação assinada por todos os artistas da partidarite do umbigo, a crise económica e financeira já se tinha encarregado de tornar ocas todas essas palavras.
Na verdade, se reflectirmos bem, onde está a nossa Soberania? Sobre que domínios políticos e estratégicos, cabe ainda aos dignitários dos poderes públicos nacionais, tomar decisões? Não é já quase tudo decidido pelas instâncias europeias e internacionais?

Que Independência Nacional resta a um país que anda de mão estendida a mendigar crédito, tendo de aceitar juros especulativos dos agiotas do “rating” da alta finança? Que autodeterminação política nos sobra depois de sermos chamados pela senhora de aço da toda poderosa Alemanha que puxa as orelhas aos primeiros-ministros que se portam mal e não fazem os trabalhos de casa?
Que Democracia é esta que temos, para fazermos as nossas livres escolhas, se nenhum político sério e honesto que tenha vergonha na cara, pode prometer fazer o que quer que seja, a não ser aquilo que lhe é imposto pela Srª. Merkle/Europa, pelo Sr. Tricher/Euro e pelo Sr. Durão/Comissão?
Sabendo que o programa de qualquer partido ou coligação, pré ou pós eleitoral está condicionado à vontade desses senhores todos poderosos, que nos resta escolher senão os rostos dos executivos ou, pior do que isso, executores das políticas de injusta austeridade que nos são impostas?…

A visão globalizante e neoliberal do capitalismo que se encontra à solta, dando largas ao seu instinto mais selvagem, avesso a direitos humanos e sociais e a regulações que funcionem, está a vingar e a meter as democracias em camisas de 7 varas, piores que espartilhos que nem deixam sequer Liberdade para respirar um pouco. Democracias aprisionadas pela ditadura da dependência financeira é o que vemos por toda a velha Europa, onde a união já só faz a força duma Alemanha que perdeu a IIª Guerra Mundial, mas está agora a ganhar a guerra do domínio económico, com uma arma que todos os seus parceiros lhe deram, o Euro.
Não sou anti-capitalista e continuo a acreditar no modelo da Social Democracia, que deixa espaço para um capitalismo equilibrado e regulado, com sentido da responsabilidade social, que respeite os direitos humanos e sociais e distribua riqueza e lucros, em função da participação e risco que cada um assume na sua criação. Este é porventura o mais justo modelo de desenvolvimento humano e económico e, quiçá, o mais adequado aos tempos modernos.

Mas esta Srª. Merkle, este Sr. Tricher e o seu comparsa Durão são cá um triunvirato que nos saiu pior do que a encomenda, ainda por cima acolitados por um tal Constâncio que se comportou como um Pilatos, apressando-se a saltar do nosso navio, como se nada tivesse a ver com esta deriva que nos atormenta, fazendo pender sobre as nossas cabeças, a ideia de que o barco pode mesmo ir ao fundo um dia destes.
É bom que os nossos políticos metam na cabeça que já ninguém tem ânimo, entusiasmo e nem sequer paciência para os aturar em campanhas eleitorais de utilidade duvidosa, em que aquilo que vai estar em debate é apenas a escolha dos intérpretes de uma partitura composta na Alemanha.
A nossa escolha resume-se a decidir se queremos que o artista que vai para S. Bento dirigir a banda é o Pedro, o Paulo, o José, o Francisco ou o Jerónimo. Esses artistas e o público, ou seja, os portugueses, sabem todos de cor, quantas notas há para mandar tocar e conhecem bem o sabor amargo dessa música. Tudo o resto é ruído, são “sound bytes” que espremidinhos valem zero.
Não nos iludamos porque aquilo que devemos fazer, a meu ver, é não voltar a cair no erro de escolher mais do mesmo. Tentemos pelo menos variar, pois assim o risco de enjoar é menor.

Lamento ter de escrever com o coração, mas o “politiquês” com que temos sido inundados nos últimos tempos levou de facto à perda de sentido de qualquer discurso político. Um discurso quase sempre proferido de uma forma esdrúxula, crispada e vazio de conteúdo que acaba sempre por denunciar a impreparação, incompetência e insensatez dos seus autores, enfim, uma lástima.
Estou numa fase da minha vida em que já só procuro ser fiel a mim próprio e à minha família, estando-me nas tintas para a militância política e seus revanchismos, pelo que quero dizer sem qualquer complexo que um dos discursos que mais me agradou ouvir nos últimos tempos, foi o de António Pires de Lima, no congresso do CDS, em Viseu, que com o desassombro e independência de quem não vive da política foi capaz de afirmar algumas ideias com as quais concordo inteiramente e que, inclusive, gostaria de ver adoptadas pelo meu partido de sempre, o PPD.

Neste momento estou absolutamente convicto de que uma aliança ou uma coligação pré-eleitoral com o CDS, tendo em conta o refrescamento que os seus órgãos e ideias tiveram neste seu último congresso, além de desejável é necessária, não só para garantir uma maioria parlamentar que assegure a estabilidade e a boa governança de Portugal, como pelo efeito de regulação política que o CDS pode imprimir a essa, eventual, maioria parlamentar.
PSD e CDS são membros de uma mesma família, com diferenças e formas de ver e estar na política que os divide, mas também enriquece, é certo, mas que não são insanáveis, pelo que entendo que ambos estão condenados a entender-se, a bem de Portugal. É a minha última réstia de Esperança!…