Opinião Aristófanes da Maia: O líder político “ÁCIDO”

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Em tempos de escolha de líderes políticos, que possam de alguma maneira, senão assegurar, pelo menos criar expectativas de vitória, os aparelhos partidários devem fazer opções criteriosas, sob pena dos seus objectivos não serem atingidos ou ficarem muito aquém das suas expectativas.

A líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, seguindo a linha traçada pela estratégia política de Marques Mendes, elegeu como princípio da sua acção política o critério ético-moral da Verdade. Todos estamos de acordo. Trata-se de um critério incontestável, mas, por isso mesmo, muito difícil de seguir e, sobretudo, de cumprir na praxis política.

A justificação desta dificuldade reside na incompatibilidade entre a Verdade e outros critérios não assumidos, que tacitamente são preferidos, consciente ou inconscientemente, pela grande maioria dos actores políticos. Estou-me a referir aos critérios do Poder e da Ambição pessoais, que desvirtuam a acção política, alienam a consciência moral, ao mesmo tempo que minam e subvertem a Democracia naquilo que constitui a sua “ratio essendi”- a Justiça Social.

Esta incompatibilidade entre a Verdade, por um lado e, o Poder e a Ambição pessoais, por outro, obriga alguns actores políticos, maxime os próprios líderes, a transformar a política num “jogo de aparências” cujo objectivo é criar uma imagem de si próprios que convença não apenas os eleitores, mas os próprios pares, de que o único fim da sua acção política é servir a comunidade, combatendo as injustiças sociais. O evangélico “amor ao próximo”, móbil fundador do mito religioso, transmuta-se em “solidariedade”, enquanto móbil fundador do mito político. Esta semelhança entre Religião e Política, não é mera coincidência, pois em ambos os casos há necessidade de conquistar e manter o Poder por mera ambição pessoal, e muito excepcionalmente pela exigência ética da realização da justiça social.

As regras

Transpondo o rigor do cartesianismo, da matemática para a política, diríamos que o actor político no seu combate à Dúvida e na procura da Certeza nos complicados processos da acção política, tem de adoptar um “Método para bem conduzir o espírito na Política”, mas enquanto o método cartesiano é constituído por quatro regras, aquele conta cinco na sua estrutura, na qual, a primeira é a regra da Aparência.

Uma vez criada a imagem de Servidor, segundo a regra da Aparência, o líder político tem agora pela frente a difícil tarefa da conquista do Poder. Para conseguir atingir o seu Objectivo, terá de considerar a segunda regra do método, a regra da Competência. Para o efeito, terá de traçar e de implementar uma estratégia de publicidade das suas especiais qualidades de Percepção, Comunicação e Realização, de modo a distinguir-se entre os seus pares, sobretudo entre aqueles que, por natureza ou comodismo não atingiram o mesmo nível de competência.

Segue-se a regra da Influência, a única que permitirá ao líder não só manter-se no Poder, mas também, afastar os seus rivais. Ser influente é ainda mais difícil que ser competente. Só alguns têm acesso às esferas mais elevadas das estruturas partidárias, ao chamado “aparelho”, pelo que só esses verdadeiramente poderão exercer influência na esfera do poder dos partidos, condição para poderem vir a ser escolhidos como os mais competentes, mesmo que não passem de personalidades iguais à maioria do comum dos mortais, e assim ficarem legitimados para exercer a sua influência para além dos limites internos do partido, junto dos seus pares e dos eleitores.

Observadas estas três regras, segue-se uma quarta que, de entre todas, é a que tem mais impacto popular. A regra da Decência. Um líder político tem de ser, antes de mais, uma pessoa decente, segundo a velha máxima do “bom pai de família”. Pretende-se que um político, sobretudo quando ocupa lugares de relevo, seja, de preferência, casado e, enquanto tal, um pai dedicado e um marido fiel, um exemplo da “moral familiar”.

Máxima esta que, nos tempos que correm, e por efeito do Princípio da Paridade e da “regra das quotas”, brevemente será complementada com a máxima homóloga de uma “boa mãe de família”, o que significa não apenas no plano do género a concretização do Princípio da Igualdade, pedra basilar da Democracia, mas sobretudo e por via da política, um progresso da moral judaico-cristã que durante séculos não teve em devida conta a importância social da mulher, dado o seu fundamento e estrutura patriarcais, limitando o âmbito material de aplicação daquela máxima, ao espaço privado do lar.

Finalmente, a quinta e última regra do método, a regra da Obediência. O líder político deve ser Obediente, mas obediente apenas e só à sua própria Consciência, a qual deve resultar de um acordo racional entre aqueles que lidera, e não de uma imposição unilateral da sua posição pessoal e, muito menos, do preconceito de que ser líder é sinónimo de direito para exercer de forma autocrática um poder absoluto. Esta regra é fundamental para a credibilização do líder e consequente aceitação no seio do grupo que tem a responsabilidade de conduzir. Ao contrário das outras regras, a regra da Obediência não admite qualquer máscara ou disfarce. O seu controle é permanente e os concorrentes estão sempre à espreita, para ver se o líder que tanto apela à Democracia e à Igualdade, afinal não passa de um ditador, segundo a fórmula: “Quero, Posso e Mando”.

Método

Em síntese, se aceitarmos como premissas as cinco regras do “Método para bem conduzir o espírito na Política”, teremos de concluir que no plano da realidade e da prática políticas é difícil falar verdade em política. No entanto, do mesmo modo que em momentos de Crise é preciso acreditar na Oportunidade, também esta aparente contradição entre “Política” e Verdade nos deve reforçar a crença, ainda que no plano da Utopia, de que é preciso “Falar Verdade em Política”.

Foi a força desta crença, tornada convicção política, que conduziu Manuela Ferreira Leite ao Poder no interior do PSD. É esta a radical diferença entre um actor político e uma verdadeira líder, que recusou o papel de uma comum personagem no “teatro da política” para encarnar a Política no sentido mais nobre que os Gregos nos legaram e o único que verdadeiramente deve motivar o homem para a vida pública: o governo justo da Cidade.

Não deixa de ser curioso que tenha sido uma mulher a ter de “parir” uma nova concepção da acção política, fecundada, é certo, por um homem cuja semente germinou, mau grado todas as tempestades.

Um verdadeiro líder político tem por isso de ser no plano da Realidade, um político ÁCIDO, ou seja: aparente, competente, influente, decente e obediente, ao mesmo tempo que no plano da Utopia não deve abdicar da Verdade como princípio ético fundador e regulador da sua praxis política.