Opinião de Luís Mamede: “Crise e pobreza”

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O ciclo de vida económico e financeiro da actualidade em nada ajuda a sobrevivência da espécie humana. Os contornos reais do desfecho da actual situação serão de resolução lenta. E o penar humano vai assumindo volume disforme de impacto abrangente, e em sofrimento escondido.

Enquanto isso os mortais vão assistindo a um ciclo político e eleitoralista com animação, ainda algo frouxa, mas de bastidor actuante. A aparição de Obama na Europa do G20 veio contaminar, pela introdução de uma outra forma de fazer política global, a esperança quieta, com. O actual presidente dos EUA fala de coisas simples e tenta comunicar com os aliados e não para os aliados. Será um dom de humanização de atitudes, enquanto outros se perdem na teorização de doutrinas? O líder mundial entra na negociação de estratégias e provoca a selecção de escolhas tranquila de efeito variável. Enquanto no plano interno vai dando passos firmes e responsabilizantes na cena da crise financeira.

Todos sabemos que na Europa faltam líderes e que a polémica nacional por parte da esquerda em não apoiar a recondução do Durão Barroso faz bastante sentido. Na falta de outro Obama, a União europeia gravita entre a falência de pensamento articulado e a inoperância da governação estratégica.

Entre o limbo e o esquecimento desenham-se estratégias partidárias para fins eleitoralistas. Em Junho seremos chamados às urnas para escolher os representantes no parlamento europeu, tendo a perfeita noção que a escolha será fácil e óbvia. Pela análise do cabeça de lista dos partidos, facilmente se percebe a variação da dimensão e capacidade dos actores. O tardiamente anunciado pelo PSD só vem confirmar a tese do vazio reinante no partido e da falta de soluções com dimensão. O candidato anunciado carece de currículo e de provas dadas no plano macro da governação geo-estratégica, a par das funções políticas ténues no plano político interno. Pela força de colocação de cartazes a anunciar uma presidente conhecida mas de alcance residual – nas sucessivas sondagens não descola, e decorrente do atraso da escolha do rosto às europeias, era previsível o anúncio da sua própria figura ao combate em referência. Pelo menos seria escolhida e andaria em avião de trepidação controlada.

Um filme já conhecido

O tempo não ajuda mas paulatinamente vão-se conhecendo estratégias contidas de estruturação dos restantes combates eleitorais. O filme já é mais ou menos conhecido: quem está no poder utiliza tudo e confunde os palcos. Quem pretende alcançar o poder perde tempos infinitos a denegrir, sem grande fôlego de alternativa, as escolhas propagandística com dinheiros públicos. Na senda nacional está mais que visto o desfecho: partidos de esquerda a crescer e os de centro/direita a aguentar-se na descida. Para o PSD o resultado não está de todo garantido. A líder não tem alinhamento de pensamento e faz parte de um passado recente, por sinal não muito animador da governação. As pedras não podem ser todas atiradas, faltando-lhe carisma e poder fresco de comunicação. O eleitorado não percebe, não confia e não votará.

No espectro local e para as autárquicas vão sendo conhecidas as motivações de disputa dos candidatos com maior representação política. A realização de três actos eleitorais não favorece as autárquicas, as últimas, sendo previsível que só depois do verão é que as baterias propagandísticas entrarão no terreno. Até lá muitas promessas serão debitadas sem reflexo prático, a par da obra triste lançada para avivar a memória do povo triste. A crise não dá muita margem financeira e a construção como fonte de receita está morna. Os governantes locais, por que têm que dar nas vistas e confirmar as próprias existências, remexem as infra-estruturas de magnitude visual e lançam convites de conforto efémero às franjas vulneráveis: idosos e crianças.

Os sinais de tempo idos continuam a vigorar, as obras, depois de três seguros quadros comunitários de apoio – enfoque infra-estrutural – ainda continuamos a assistir a despesismos físicos e totalmente desqualificadores do território. Os investimentos imateriais não são consistentes na criação de valor humano, ora porque são desconhecidos dos representantes, ora são menosprezados porque não são alcançados. A fraca dimensão da maioria dos que governam é deveras relevante para os resultados confrangedores locais.

Se olharmos para o que está a acontecer em freguesias de matriz rural, percebe-se o desnorte e confirma-se a tese anunciada. A fuga para a frente é grande, sem que a qualidade da intervenção e a necessidade de intervenção sejam sustentáveis, quer no plano da escolha, quer no plano da responsabilidade da acção política. O que se faz é mexer na montra, sem critério, e com cheiro a um tempo ido. A imaginação é inexistente e a capacidade de liderar um projecto local é totalmente discutível e muito penalizador. Os anseios das populações certamente que não são estes, pena é que as pessoas com dimensão se excluam de discutir as opções de governação e as entreguem a incapazes de zelar as escolhas colectivas sólidas e duradouras. O desfecho é tristemente previsível e as razões são sobejamente conhecidas.

mamede.luis@gmail.com