Opinião de Luís Mamede: “Tempos de Transição”

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Sempre que o povo se questiona e os reflexos da decisão extravasam o foro privado, os resultados de mudança surgem. Sempre que o contrário impera a angústia, instala-se a falta de esperança no futuro colectivo digno. Todos sentimos isso à escala local e choramos a perda de percepção da importância nas eleições próximas ao parlamento europeu.

Os candidatos, e com a devida excepção do professor Vital Moreira quase nunca centram as discussões na esfera dos problemas e soluções de governança europeia, optando os restantes, e por estratégia visível, por discutir as questões nacionais e numa perspectiva cerrada de antecipação da campanha às legislativas.

Enquanto isso, assistimos impávidos ao lume brando de apresentação de candidaturas às autarquias locais. Em tese, e em sede da democracia participativa – de puro respeito pela cidadania activa – o momento é favorável à avaliação de resultados de governabilidade instalada. O objectivo passaria por se vislumbrar os eventuais alcances das propostas dos partidos aos órgãos das autarquias locais, com maior incidência aos municípios. Se assim seria na teoria, o mesmo não se pode dizer da prática reinante. A informação é trabalhada à medida do esperado e as práticas de comunicação são, em larga medida, levadas à exaustão na captação pura do voto. A ciência política explica e o povo desanimado sente que pouco ou nada vale. A democracia anda a gravitar entre a esfera da crise e a vontade de não mudar, ao mesmo tempo, que o modelo vigente – democracia representativa – e os respectivos actores políticos, instalados nos órgãos de governação, se esforçam por mimar e melhor entreter os cidadãos. Cada vez mais descrentes mas também mais fragilizados. Todo o quadro de actuação passa por distribuir doces rebuçados e adiar a realização do que quer que seja. Provavelmente até promessas recorrentes, sem qualquer melhoria substancial nos modos de vida das populações nos inúmeros mandatos de governação autárquica.

Se pensarmos no Concelho que nos viu nascer, a Maia, facilmente percebemos a magnitude do marketing político usado e das práticas vigentes dos ciclos eleitorais. A menos de seis meses das eleições autárquicas, e a acreditar no teor das notícias da imprensa, as tácticas do PSD passam por recrutar candidatos ligados ao futebol às freguesias. Se assim for, os esforços continuam na linha anterior, e por sinal deveras reveladora do objectivo: ganhar sem preço e sem perfil eventual governativo.

A eventual mistura de actores ainda gravita em práticas perigosas e escusadas. A bem da transparência e da separação de poderes. As associações desportivas são fundamentais mas não devem ser instrumentalizadas na esfera da política pública. Ninguém abertamente opta, escolhe e a lógica é de acumulação de funções, mesmo que publicamente enjeite outro argumento. Pena é que nem sempre o povo opte por reflectir no colectivo e passe o tempo a imitar, ou a criticar no bastidor. Alguns falam de pobreza da democracia. Outros pensarão em oportunidades perdidas de bem defender as colectividades e consequentemente de melhorar a crença dos cidadãos.

Se atentamente olharmos para os resultados práticos da governação municipal, vemos que a crise está viva e que as opções oram passam por fazer baixar a qualidade real, e de vida das populações e do ambiente urbano, ora apostam na esfera imaterial e sem retorno na inteligência colectiva.

Quando percorro os arruamentos municipais vejo o esforço em alcatroar tudo de forma igual, quer seja as faixas de rodagem, quer seja os próprios passeios. Os cuidados são nenhuns e a qualidade é péssima. Nos espaços ditos de campo, como Folgosa, e fora das bordas dos edifícios com visibilidade, passou-se a ter ‘auto estadas’, ladeadas por árvores violentadas, na obra e dia após dia.

Quando olho para a triste realidade do Bairro do Sobreiro, logo penso nos inúmeros estudos, projectos, planos, programas, recibos verdes e outras mordomias municipais, directas ou indirectas, e constato um povo triste, alheado das opções de desenvolvimento. Enquanto isso, as torres degradam-se, os espaços públicos envolvente já nem prado são, e as promessas chegam à velocidade da luz. Cada dia está a ser pensadas pelos actores políticos promessas quentes e outras solicitações de colaboração na solução da empresa criada, quando, na realidade, tudo será imobiliário e nada social. Os que lá habitam só lhes resta acreditar que nada de grave lhes vai acontecer no entretanto e esperar uma mudança de líderes, sendo que os políticos no activo e outros gestores nada de positivo lhes poderão oferecer a curto prazo. Enquanto isso, vão enchendo um boião de surpresas tipo furas e pedindo colaboração na solução adiada, e totalmente desconhecida da maioria dos destinatários da mudança territorial. O que faz e se deve fazer, deverá passar pelas pessoas e com as pessoas. Nas costas e de lado não sairão certamente soluções pacificas e agregadoras de um futuro sorridente e qualificador de vidas humanas e urbanas.

mamede.luis@gmail.com