Opinião de Mário Nuno Neves: “A crise mundial e a vingança de Kuhn”

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É normal quando nos debruçamos sobre o entendimento contemporâneo da Ciência e do seu desenvolvimento realçarmos Popper, que com a sua obra de 1934 “Logic of Scientific Discovery”, estabeleceu os cânones formalistas contemporâneos, assentes no racionalismo, em que os postulados teóricos devem ser submetidos, sempre e de forma sucessiva, a condições que testem a sua própria “falsificabilidade” (ou “falseabilidade” como alguns preferem), de forma a se tornarem sustentados e sustentáveis.

No entanto, há outro pensador, que foi muito criticado quer pelo próprio Popper quer e por exemplo por Imre Lakatos, sobretudo por ter sido considerado pouco “racionalista” nas suas teses, que hoje se deve estar a rir no túmulo perante a monumental crise que abala o planeta. Refiro-me, obviamente, a Kuhn, pensador norte-americano, nascido em 1922 e que terminou a sua brilhante carreira académica, depois de Berkeley e Princeton, no MIT, tendo morrido em 1996.

Kuhn, tal como Popper, elegeu a “Ciência” como o objecto principal do seu trabalho científico, em 1962 publicou uma obra intitulada “The Structure of Scientific Revolutions”, em que releva o seu enfoque historicista em relação ao desenvolvimento científico, construindo um modelo analítico do mesmo assente na percepção de estádios evolutivos, partindo de um patamar pré-paradigmático, que faz eclodir um determinado paradigma, paradigma esse que é objecto da laboração da por ele denominada “Ciência Normal”, até ao momento em que entra em crise, numa primeira fase sempre negada pelos próprios cientistas, até que chega a altura em que é constatado, de forma clara e inequívoca, que a Natureza, ela própria e intrinsecamente, contradiz todos os resultados expectáveis sob o quadro do paradigma vigente, o que provoca a ruptura e revolução paradigmática.

Kuhn, que foi quase vilipendiado pelos seus pares, vê hoje comprovada a validade do seu pensamento, para gáudio de todos os intelectuais que possuem uma base formação em Ciências Históricas e para estupefacção – para não dizer pior – de muitos outros, muito especialmente aqueles que são da área da economia.

O que a realidade desta crise global vem afirmar é que o paradigma faliu. Faliu em todas as suas valências. O capitalismo, escorado em teses neo-liberais, que ganhou força após a II Guerra Mundial e se desenvolveu avassaladoramente até ao início do corrente século, teve o seu epílogo simbólico com a recente prisão de Madoff.

O problema, o nosso problema, é que a maior parte dos pensadores e executores do mundo ainda se encontra na fase da negação e persistem na metolodogia da “falsicabilidade” “à Popper”, tentando desesperadamente encontrar soluções num universo paradigmático que está ineroxavelmente esgotado.

É necessária, urgente, imprescindível e vital uma revolução paradigmática, para que seja possível laboral em tranquilidade e resolver os problemas que há para resolver.

Vinguemos Kuhn.