Opinião de Victor Dias: “O que nos une?”

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Há muitas perguntas que ecoam na opinião pública. A maioria delas não terá resposta e outras não terão qualquer interesse em ser formuladas, quanto mais que se perca tempo, em tentar encontrar razões e causas que ajudem a responder às questões que levantam.

Muitas pessoas de diferentes sectores da nossa sociedade têm erguido a sua voz, para apelar a uma mobilização nacional que nos permita enfrentar os difíceis desafios com que Portugal se defronta.

Ludgero Marques afirmava por estes dias, mais ou menos isto: “é preciso que unamos esforços é necessário que pensemos todos – vamos a isto, vamos dar a volta por cima”.

O empresário, homem de bom senso e um patriota com sentido da responsabilidade social, está naturalmente preocupado, daí o seu apelo, com o qual, diga-se em abono da verdade, é difícil não concordar.

Mas será possível unir o país em torno de uma grande causa, a da sua recuperação económica e social? Realmente só com a participação de todos, sem excepção, se poderá alcançar esse desiderato.

O problema é que a prossecução de um desígnio nacional dessa dimensão, implica grandes sacrifícios que têm de ser distribuídos de uma forma equitativa e justa, por toda a sociedade.

Se o que nos pode unir é um combate eficaz contra a crise, no sentido de minorar os seus efeitos e procurar ultrapassá-la, o mais depressa possível, impõe-se uma maior eficiência do poder político, da administração da coisa pública e da gestão empresarial.

Ora, é aqui que a porca torce o rabo, ou seja, é precisamente na concepção política das formas de governação do Estado, dos inúmeros organismos públicos e também do sector privado da economia que se apresentam no nosso espectro político, propostas e projectos com diferenças, porventura, insanáveis.

Neste cenário de disputa pré-eleitoral, aquilo que sobeja do debate político é sobretudo o ruído, em vez de um esclarecimento transparente e muito clarinho, dos programas de governo que cada partido nos propõe, por forma a que possamos formar uma opinião consolidada.

Seja como for, perante o quadro actual, com o desemprego a crescer, a cada dia que passa, não vi ainda ninguém, sequer ensaiar, apresentar ao parlamento, ou ao país, um pacto de regime ou um pacto social, com um horizonte temporal para duas ou três gerações.

É tempo de deixarmos de pensar curto, apenas no imediato, o que em linguagem política à portuguesa quer dizer, governar e fazer política à vista, tendo para o seu cronograma de planeamento e acção, uma visão redutora que só permite ver até às eleições mais próximas.

Se em tempo de bonança, a estabilidade política é um factor preponderante para o desenvolvimento de um país, em tempo de dificuldades, a sua falta, aliada a uma conflitualidade social galopante, só agrava os problemas.

Sinto que um número cada vez maior de pessoas, pensa e pergunta – será que é assim tão difícil entendermo-nos e concentrarmo-nos no que, de mais inadiável e imprescindível, tem de ser feito?…

Cada um de nós sabe hoje, melhor do que antes, que é uma urgência, valorizar tudo quanto nos une, em detrimento daquilo que nos afasta, principalmente daquilo que nos afasta do essencial – o bem comum.