Opinião de Victor Dias: “Sempre a fracturar”

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Quando na semana passada reflectia com os leitores sobre o que nos pode unir, para nos ajudar a todos a superar esta crise que nos vai consumindo, não estava muito preocupado com as visões político-partidárias acerca da governação do país, mas interessava-me bem mais as aflições das pessoas, principalmente aquelas que já estão a sentir na carne os efeitos da incompetência e das políticas errantes de uma classe que se fez pagar a si própria, a peso de ouro e que julgava este embuste interminável. Enganaram-se redondamente, para mal de uma imensa maioria, porque por agora, ainda estamos todos à espera que se faça Justiça e essa pseudo elite de perdulários sofra também as consequências.

“Para o primeiro-ministro, talvez a solução passe pelos casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Talvez desse modo se possa poupar mais uns milhões, no apoio à maternidade, à primeira infância, na educação e no fim, nos cuidados continuados que garantam uma vida digna. Talvez fique mais barato desincentivar a natalidade e estimular a antecipação das mortes anunciadas, enfim, é arrepiante”

Enquanto as pessoas procuram, por todos os meios, assegurar o bem-estar das suas famílias, mormente, dos seus filhos, convivendo como podem com a angústia de uma crise que pode a todo o momento afectá-las de uma forma mais radical, pondo em risco o seu emprego, o Secretário e o Presidente do Partido Socialista lançam para a agenda da política portuguesa, dois assuntos profundamente fracturantes, para a nossa sociedade, o casamento entre homossexuais e a eutanásia.

Sócrates, com as suas políticas de encerramento dos serviços de obstetrícia e maternidades, um pouco por todo o país, e com a despenalização do aborto, já nos tinha esclarecido suficientemente sobre o seu conceito de vida humana e continuidade da espécie culturalmente denominada por portuguesa, mas agora acaba por erradicar qualquer dúvida. E o pior é que não sabemos se ele pensa o que pensa, por que é mesmo assim, ou se pensa só nos cifrões.

Parteiras e obstetras para quê? Lei da interrupção voluntária da gravidez para quê?

Os coelhos

Para o primeiro-ministro, talvez a solução passe pelos casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Talvez desse modo se possa poupar mais uns milhões, no apoio à maternidade, à primeira infância, na educação e no fim, nos cuidados continuados que garantam uma vida digna. Talvez fique mais barato desincentivar a natalidade e estimular a antecipação das mortes anunciadas, enfim, é arrepiante.

A minha educação, mais do que a minha formação, assenta em valores éticos e morais que só me permitem respeitar a diversidade das opções de vida das pessoas, mas isso não me obriga a assistir passivamente ao desmoronar das estruturas basilares sobre as quais se eleva aquele que é ainda o edifício mais estável e fecundo da nossa sociedade, a família.

O casamento é uma instituição milenar que tem sido responsável pela preservação e manutenção de certas civilizações e povos e não se pense que a sua sacralização é apenas uma questão da Igreja Católica, sempre tão atacada, quando o tema é matrimónio.

Deu nas vistas, o líder bloquista, Francisco Louçã, na sua metáfora do casal de coelhos, que ao contrário das notas de euros, haviam de fazer nascer coelhinhos.

Realmente, a boca foge sempre para a verdade. Um casal, seja de que espécie for, tem de ter sempre um macho e uma fêmea e só essa combinação de género pode fazer acontecer o milagre da vida. A esse acasalamento não se poderá chamar casamento? Sim, mas a espécie humana carece de outra dimensão, uma dimensão espiritual e social, ou para quem não tem Fé, só esta última.

Que diferença faz para dois homossexuais contratualizar uma união de facto, ou fazer finca-pé e querer um casamento. Algum dia irão acasalar e extrair daí consequências biológicas?

Algo de estranho move Sócrates e Almeida Santos nesta luta por direitos que, a meu ver, são retrocessos civilizacionais. Ou não serão, a legalização de um casamento estéril e a legislação sobre a morte a pedido, dois passos à retaguarda e a promoção de uma cultura de morte, numa sociedade já de si tão marcada por um Hedonismo que teima em prevalecer sobre outros valores mais edificantes?

Sempre que há um caso polémico, ou há necessidade de desviar a atenção dos portugueses, aí vem, um ou vários, fait divers, para animar os média e procurar marcar a agenda política, com assuntos que neste momento da vida nacional não são prementes, nem tão pouco fazem parte das preocupações quotidianas de uma parte muito substancial da nossa população.

Considero a Liberdade e a Democracia valores fundamentais para o desenvolvimento das sociedades modernas e não vejo mal algum no facto de se debater amplamente qualquer questão, de uma forma plural e sem fundamentalismos, mas estou convicto que há um tempo para tudo, e o momento psicossocial que estamos a atravessar, pode prejudicar gravemente, a lucidez que esta discussão requer.

Penso que é chegado o momento de alguém recomendar aos mais altos dirigentes do PS, a leitura de “ A era do vazio”, de Gilles Lipowetsky, para poderem confrontar com as suas mais que prováveis leituras de "a morte do sentido de tudo" dos Niilistas de Nietezsche, hipotética explicação para esta obsessão em cuidar da morte, num tempo em que se impunha cuidar da vida.

Não seria bem mais positivo lançar um grande debate nacional sobre a medicina da dor e a ressocialização da morte. Sem dramas e com a serenidade necessária.

Quero fazer parte daquela imensa maioria de portugueses que prefere procurar as pontas do que nos une e pode estimular a nossa criatividade, capacidade empreendedora e de inovação, para encontrar um caminho que nos faça sair rapidamente da crise, em vez de me agarrar a questões ideológicas desastrosamente fracturantes, cujo resultado mais previsível será a radicalização do discurso, e pior do que isso, do combate político, descentrando-o do essencial e imprescindível, no momento que estamos a viver.

Mas deste modo assim – sempre a fracturar?!…