Opinião de Victor Dias: “Vitórias, derrotas e consequências políticas…”

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Passadas as europeias é tempo de digerir os resultados, olhar para os números e ver, com olhos de ver, as consequências políticas que cada partido e respectivos líderes têm de extrair.

Os números são o que são mas, pese embora o facto da matemática ser uma ciência exacta, há líderes partidários exímios em interpretar, segundo a sua própria pauta, a música que devia soar, tal e qual, a crueza e verdade dos números nos revela.

“Será que não pesa na consciência de ninguém, para além dos próprios abstencionistas? Considero em igualdade todos os meus concidadãos, mas fico cheio de dúvidas quanto aqueles que, tendo a possibilidade de expressar a sua opinião e vontade, desprezam os seus deveres e direitos de cidadania, borrifando-se literalmente, para valores supremos como a Liberdade e a Democracia”

A vitória da abstenção

A desculpa do bom tempo para a praia, o tempo de férias ou outros argumentos, mais ou menos improváveis, não se aplicam a esta eleição e, no entanto, a abstenção venceu com esmagadora maioria.

Este devia ser, sem sombra de dúvida, o resultado que os partidos tinham obrigatoriamente que ponderar, diria mais, meditar, para tentar compreender as causas profundas de tamanho desinteresse e demissão do eleitorado.

Será que não pesa na consciência de ninguém, para além dos próprios abstencionistas?

Considero em igualdade todos os meus concidadãos, mas fico cheio de dúvidas quanto aqueles que, tendo a possibilidade de expressar a sua opinião e vontade, desprezam os seus deveres e direitos de cidadania, borrifando-se literalmente, para valores supremos como a Liberdade e a Democracia.

Será porque durante a campanha eleitoral não lhes foi explicada a importância do Parlamento Europeu no nosso quotidiano, com as repercussões efectivas da aplicação de inúmeras normas e directivas europeias que Portugal tem de integrar na sua legislação e fazer cumprir?

Resta-me a esperança nas novas gerações, cuja consciência crítica me parece mais aguçada que as velhas gerações. É nesse terreno que o Bloco de Esquerda tem lançado as suas sementes e tem colhido os frutos, perante a inoperância e ineficácia dos grandes partidos que não têm sido capazes de encontrar um discurso suficientemente esclarecedor e atractivo para os jovens.

Derrotas e derrotados

As derrotas são sempre dolorosas e difíceis de admitir, por isso mesmo, há por parte de quem tem de as encaixar, sempre uma enorme criatividade e imaginação.

Uns são peritos em descobrir vitórias nos cenários mais desfavoráveis, em que são ultrapassados pela esquerda, por forças recém chegadas ao panorama político.

Outros, como é o caso do secretário-geral do PS, assumindo a decepção, recusam-se a tirar elações e, inclusive, reafirmam teimosamente que tudo continuará como dantes.

Para Vital Moreira que nem no seu distrito, Coimbra, conseguiu vencer, sobra da noite eleitoral, o mau perder e o mau feitio democrático de não ter tido a delicadeza, cumprindo a boa tradição cívica e democrática instituída em Portugal desde o 25 de Abril, de telefonar a Paulo Rangel, para o felicitar pela sua vitória. Aliás, como se isso não bastasse, se bem se lembram os leitores, na sua declaração conjunta com Sócrates, referiu-se a Paulo Rangel, como o cabeça de lista do partido mais votado, ignorando o seu nome – enfim!…

Ao contrário de algumas sondagens, quase sempre favoráveis aos clientes, os resultados do passado Domingo revelaram-se a melhor, mais fiável e autêntica sondagem, com indicadores concretos e que não reflectem apenas os sinais de uma qualquer amostra, com uma margem de erro, mais ou menos segura, bem pelo contrário, os resultados das europeias reflectem a vontade de todo o universo eleitoral.

Consequências políticas

Se Portugal vivesse num regime democrático pautado por uma lógica de factos/consequências, isso não seria apenas válido para as vitórias, mas teria as justas interpretações do significado dos actos, dos factos e até dos sinais, numa clara demonstração de respeito pela vontade dos cidadãos.

É certo que estas eleições tinham um objectivo concreto, eleger os nossos representantes no Parlamento Europeu. Mas agora pergunto eu, e os partidos, os seus líderes e candidatos, não foram os primeiros responsáveis pela nacionalização destas eleições?

O primeiro-ministro que deite a mão à consciência, ou se preferir, só à memória e pense nos seus discursos centrados na governação, na distribuição de benesses e de promessas que de Europa, nada tinham. E então terá a resposta sobre quem quis colar as europeias ao país real, acreditando, porventura, numa primeira volta das legislativas, flauteada e risonha, para os seus intentos. Mas o tiro saiu pela culatra, e agora?… Agora assobia e diz que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, num trocadilho que todos percebemos muito bem, mas não colhe.

A consequência mais séria que todos desejamos, é que de uma vez por todas, os políticos nos respeitem, falem verdade e esclareçam com toda a clareza, o que pensam, que projectos e propostas têm para nos apresentar, que compromissos querem assumir connosco?

As coisas estão a mudar e as pessoas começam a ficar com a paciência esgotada, talvez no futuro próximo, ainda este ano, tenham a possibilidade de escolher, sem ter de pensar naquela velha ideia – “Do mal o menos” e comecem a tomar opções mais fundadas num raciocínio do género – é isto mesmo que eu quero para Portugal!…

A nível local há muita matéria para analisar e para algumas forças políticas, estas eleições lançam dados que são um autêntico quebra-cabeças, por isso vai valer a pena dar alguma atenção as interpretações, ao consequente discurso e, sobretudo, às eventuais correcções de rota.