Opinião Luís Mamede: “À frente do seu tempo”

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A catadupa de mensagens e outros lemas de governação é directamente proporcional à necessidade de inventar para captar a atenção dos seus concidadãos. A par da estratégia de embrulhar os eleitores. Não estivéssemos nós a passar uma enxurrada de actos e eleitorais.

A Maia nunca foi excepção ao reinventar sucessivamente ‘slogans’ que nos transportasse para um outro território, e para uma forma de governar de excelência. Os resultados inerentes são totalmente diferentes dos provocados pela gestão política municipal.

Depois de tanto sorrir, após a Maia da família, do ambiente, do desporto e doutras provocações anedóticas, em vésperas de gozos de férias e da estratégia de atingir os cidadãos-eleitores, o lema é: a Maia à frente do seu tempo.

Num primeiro momento pensa-se que é uma brincadeira. Num segundo e seguintes a mensagem, paulatinamente, entranha-se e estranha-se; para não dizer recusa-se. A denúncia é tanto maior quanto maior for a isenção e a capacidade de discernimento de cada um de nós.

A singularidade do desenvolvimento a que nos querem iludir, só exige o devido afastamento e nos transportam para práticas sérias de avaliação do percurso, dos resultados, e da medição dos impactos sectoriais e globais.

Uns mais do que outros lêem esta anedota como a tentativa de esconder as fragilidades e fazer querer que o que se fez, em prol do desenvolvimento da Maia e num contexto regional/metropolitano foi distinto dos restantes territórios. O que não é de todo verdade. Ora porque a geografia não poderia deixar a Maia alheia à mudança – a cidade polarizada do Porto e as dinâmicas territoriais, económicas e sociais em mancha de óleo atingiriam todos os concelhos contíguos. Com mais sumo ou mais água, a Maia seria sempre algo diferente do passado. A nostalgia do que fomos e a necessidade de afirmar a Maia como um concelho moderno e desenvolvido, tatuou o território com problemas e soluções iguais a tantos outros. Perdeu-se em larga escala, e sem regras de valorização as formas de vivência ‘rural’, e de exploração dos recursos agrícolas.

Nos anos sessenta do século passado, o plano regional de desenvolvimento, apontava a Maia era apontada como o pulmão verde, pela indicação da fertilidade dos solos e pelas formas organizacionais do território, a partir das práticas agrícolas. Hoje é lida como oposta, tendo sido sempre encarada, pelos políticos do activo de cada porção de tempo, como uma imagem associada ao não desenvolvimento. Como tal foram-se transformando, pela destruição das quintas e pela transformação da matriz de vivência. Os fragmentos do rural deixa de ter a agricultura como actividade central – o mesmo se foi passando com a maioria dos territórios nacionais, mas nem todos teriam as razões para o fazer. As dinâmicas de desenvolvimento contemporâneas e a ânsia de transformar o passado, apostaram na construção – sempre foi uma fonte mais ou menos segura e rentável – e na actividade industrial.

O proliferar das formas urbanas e a ausência de planeamento sustentável, ofereceu a quem quis e pôde edificações, quando as áreas verdes, ora nunca saíram do papel, ora foram mudando de cor.

Se fossemos rigorosos e quiséssemos fazer jus ao ‘slogan’, teríamos que criar uma grelha de indicadores de medição comparativa. A convicção é que teríamos surpresas, umas mais negativas do que outras, e que o que nos querem fazer querer está para lá do razoável.

Se no tempo da criação as áreas industriais eram o forte da mudança nos sectores de actividade, hoje as existências estão muito aquém do esperado. Ora carecem de total qualificação do ambiente urbano. Ora precisam de vida nova e de valor acrescentado. Quem por lá passa avista a fragilidade e comenta os problemas da falta de investimento e de zelo municipal.

No domínio das áreas verdes, as capitações de espaços verdes por habitante envergonham qualquer um, dado que as adiantadas pelo puder político, suportadas por técnicos conscientes da inexistência, apoiam-se em valores sonhados e nunca existentes.

Na esfera da modernização administrativa e das práticas de governação institucional foram criadas empresas municipais e levados a cabo parcerias de desenvolvimento, de resultados nulo e com ruído para as contas públicas.

No patamar da mobilidade, o concelho vive pendurado num projecto metropolitano, o metro de superfície, sem nunca ter sido capaz de desenhar e sustentar um plano de mobilidade sustentável para o concelho.

À escala do ensino pré-escolar, creches e rede de infantários públicos, muito há para fazer. Se não fosse a dinâmica privada ou de solidariedade social – suportadas pelo governo – os resultados seriam certamente confrangedores.

Se olharmos para as tipologias do associativismo maiatos, facilmente percebemos que tirando associações de moradores e as de matriz desportiva, nunca houve espaço, nem capacidade cívica, para formalizar associações isentas de inovação e criatividade cívica. Os apoios e a tentação de dependência municipal sempre foram provocados. Tanto é que muitos candidatos a palcos de governação de proximidade sempre foram pescados nas ‘escolas’ das associações. O treino compensa e os passos são mais seguros, enquanto a matriz de desenvolvimento ainda for do passado e muito ligada à subserviência pública. Muitas outras razões haviam para contrariar o novo lema da governação municipal, ficando provado qual é a frente do tempo da Maia.

Urbanista