Opinião Paulo Ramalho: Porque perdeu Sócrates a confiança dos portugueses?

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Há dois anos atrás, poucos acreditariam que Sócrates não vencesse as próximas eleições legislativas. No próprio PSD, a vitória de Sócrates era tida como uma realidade praticamente certa. Apenas se discutia se seria com ou sem maioria absoluta. Cavaco tinha alcançado duas maiorias absolutas consecutivas, Guterres repetiu em 1999 a vitória que havia alcançado em 1995, porque não haveria Sócrates de conseguir o mesmo, ele que havia vencido em 2004 com uma clara maioria? …

A verdade é que Sócrates está à beira de perder as eleições, e mesmo que não as perca, sempre as vencerá com uma vantagem mínima, que dificilmente lhe permitirá completar o mandato, para não dizer governar… É que nenhuma força política se disponibiliza para fazer uma coligação pós-eleitoral com o Partido Socialista.

Definitivamente, Sócrates perdeu grande parte da confiança dos portugueses e poucos são os que ainda estão dispostos a ouvi-lo, por muito bem que pareça falar e se esforcem os seus assessores de imagem…

E porquê? Perguntarão apenas os menos atentos.

Desde logo, porque Sócrates desvalorizou a verdade e o compromisso na sua relação com os portugueses. Durante a campanha eleitoral de 2004 prometeu não subir os impostos e passados poucos meses de tomar posse como Primeiro-ministro aumentou o IVA de 19% para 21%. Prometeu combater o desemprego através da criação de 150 000 novos postos de trabalho e o melhor que conseguiu foi subir a taxa de desemprego em cerca de 3%, de tal forma que nesta altura já se aproxima dos 9,5% da população activa. Prometeu um crescimento económico de 3% para 2009 e todos sabemos que o mesmo dificilmente ultrapassará os 0%. Prometeu aproximar o nível de vida dos portugueses do nível médio europeu e por força da sua governação aconteceu precisamente o contrário, de forma que a generalidade dos portugueses vive hoje pior, encontrando-se Portugal já abaixo de países que apenas aderiram à União Europeia em 2004, como Chipre, Eslovénia e Republica Checa.

Por outro lado, porque Sócrates deslumbrou-se com o poder e abusou da ampla maioria que os portugueses lhe haviam oferecido, confundindo frequentemente autoridade com prepotência, firmeza com arrogância. De tal forma que resolveu promover reformas à revelia da sociedade civil, para não dizer contra, como se a sua vontade não contasse ou não tivesse a mínima importância, como aconteceu com a classe dos professores e dos operadores judiciários. Fazendo da concertação uma mera formalidade.

Acresce ainda o pouco sentido de responsabilidade que Sócrates parece evidenciar relativamente ao controle da dívida pública, o que fez com que a mesma, entre 2004 e 2009 aumentasse cerca de 6% (cifrando-se nesta altura em 64% do PIB), lançando nos portugueses fundados receios sobre o futuro do país. Tanto mais que Sócrates não dá sinais de querer abrandar. Pelo contrário, parece até predisposto em continuar a endividar o país, onerando as gerações futuras, ao pretender manter projectos (nesta altura incomportáveis para Portugal) como o do comboio de alta velocidade.

Por último, a pouca clareza, para não dizer atrapalhação, com que Sócrates enfrentou alguns processos em que se viu pessoalmente envolvido, como ” o caso Freeport ”, “ o curso da Universidade Independente “ e “ o jornal de sexta da TVI “ , o que tudo deu azo a indesejada especulação e não contribuiu para uma necessária ausência de dúvidas.

Sócrates alicerçou toda a sua estratégia de poder na força da sua imagem e da sua equipa de propaganda, esquecendo que essa estratégia não resiste à perda da credibilidade e que esta apenas se consolida com competência…coisa que também a sua governação não foi capaz de demonstrar.

Aliás, esta última notícia veiculada pela própria Comissão Europeia de que Portugal desperdiçou no ano passado 71 milhões de euros de fundos comunitários destinados à agricultura (o pior desempenho de todos os países da União Europeia!) é bem uma bandeira da qualidade da governação socialista…

Como dizia Marques Mendes, a credibilidade é um bem inestimável na acção política, que leva tempo a construir, mas que se destrói num ápice.

Presidente da Mesa da Assembleia do PSD/Maia