Opinião: Paulo Ramalho – Uma nova atitude, uma cultura de exigência

0
77

Portugal vive, indiscutivelmente, um momento muito difícil da sua longa história. Sem estratégia, sem rumo, e mergulhado numa crise económica de que não se vê fim à vista. Com uma dívida externa que não pára de crescer, o desemprego a atingir números nunca antes imaginados e o desequilíbrio das contas públicas a assumir um estatuto de doença crónica. De tal forma, que o próprio Presidente da República, na sua mensagem de Ano Novo, alertou para a possibilidade de Portugal estar a caminhar para “uma situação explosiva”.

Durante muito tempo foi-se desculpando a situação nacional com a “crise internacional e financeira”. Que foi efectivamente grave, e que apesar de recentes sinais positivos, ainda não desapareceu.

Mas o problema é que, na verdade, Portugal já se encontrava em recessão antes dessa crise internacional aparecer. E vai continuar, com toda a certeza, o seu caminho na crise, depois do terminus daquela, divergindo dos seus congéneres europeus e afirmando a sua descida triste, mas consistente, nos diversos rankings internacionais de crescimento, desenvolvimento e qualidade de vida.

“De acordo com os indicadores mais recentes, Portugal já baixou para a 19ª posição, estando apenas à frente de oito países da Europa de Leste que aderiram há poucos anos à União”, recordava recentemente Cavaco Silva.

Efectivamente, Portugal está cada vez mais longe do pelotão da frente da União Europeia. Com um PIB per capita de apenas 76% da média europeia, já está longe dos 94% dos gregos e dos 103% da Espanha e a anos-luz dos 276% do Luxemburgo, que continua a oferecer o maior poder de compra de toda a Europa, quase quatro vezes superior à média da União Europeia.

Crise de valores

Olhando a realidade de outra forma, o poder de compra dos portugueses é, actualmente, cerca de 18% inferior ao dos gregos, 24% inferior ao da média europeia e fica 27% aquém do dos espanhóis.

Mas, mais grave ainda, é o que se passa a nível da taxa de desemprego, que supera já os 10%. Sendo nesta altura, a quarta maior dos países que integram a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico).

E se é verdade que a única solução capaz de inverter este cenário passa por um aumento claro da nossa produtividade e designadamente, pelo reforço da competitividade externa das nossas empresas, também aqui o passado recente não alimenta grandes expectativas. Com efeito, fazendo uso de um exemplo apresentado por Marques Mendes numa das suas últimas intervenções:

“Em 1999, Portugal exportava 32 mil milhões de euros, a Hungria exportava 28 mil milhões e a República Checa 31 mil milhões. São países de dimensão semelhante à nossa. Dez anos depois, Portugal exporta 55 mil milhões, a Hungria 87 mil milhões e a República Checa 114 mil milhões. Conclusão: aqueles países multiplicaram por mais de três o valor das suas exportações e Portugal, nem duplicou as suas”…

Ora, o grande problema é que, mais grave do que a crise económica, é a crise de valores e de atitude que se abateu sobre a sociedade portuguesa.

Na verdade, todos nós, simples cidadãos, empresários, políticos, líderes de opinião, por omissão ou por acção, com maior ou menor responsabilidade, nos últimos anos permitimos que se desvalorizasse a cultura do mérito e da competência. E, pior que tudo, esquecemos a importância do rigor e da exigência. De tal forma, que acabamos por fomentar uma cultura de facilidade, em que quase tudo é alcançável sem especial esforço ou sacrifício. Em que parece valer mais a esperteza do que a inteligência e o próprio conhecimento.

A promoção do empreendedorismo e a busca da excelência só aparentemente constituem prioridades. Basta atentar no nosso sistema fiscal e na falta de exigência da escola dos dias de hoje, designadamente a nível do ensino superior.

Os próprios partidos políticos deixaram de ser capazes de oferecer e apostar nos seus melhores, nos mais competentes. Mais importante que tudo, é ganhar eleições, é chegar ou manter o poder…

Sendo que hoje dá-se mais importância à forma e à aparência, do que à substância e ao conteúdo. Daí que uma boa parte dos nossos protagonistas políticos se preocupe, cada vez mais, com a imagem e com a eficácia da comunicação, do que com a sua especial preparação e qualidade do projecto político que defendem. Os famosos “gabinetes de estudos” dos partidos, onde se produziam verdadeiras propostas de soluções para os problemas do país, perderam claramente atenção e investimento em favor dos “gabinetes de comunicação e marketing”.

E não existe hoje a necessária vontade para afirmar projectos colectivos de médio e longo prazo. A aposta na sustentabilidade e na consistência esbarra frequentemente na exigência de resultados imediatos e muitas vezes, na tentação de proteger meros interesses de circunstância ou de momento, para não dizer, individuais ou de grupo. Quantas vezes, com grave prejuízo do interesse da comunidade, mesmo do interesse nacional.

Daí que sem a afirmação de uma nova atitude e designadamente, de uma cultura de exigência, que promova e valorize o mérito, o empreendedorismo e a competência, Portugal continuará em crise por muitos e bons anos…

Presidente da Assembleia do PSD/Maia