Opinião Victor Dias: “Em nome do interesse nacional”

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Nos últimos dias têm vindo a terreiro alguns políticos, para defenderem a reedição, num hipotético cenário pós-eleitoral, do bloco central, segundo eles, em nome do interesse nacional, conceito demasiadamente elástico e suficientemente ambíguo, para que os partidos o possam invocar, quando lhes dá jeito.

Essa amálgama, a que chamam bloco central, não é mais do que uma massa espessa, sem cor, sem ideologia, ou seja sem ideias consistentes e orientadoras, sem critérios e princípios que responsabilizem, com consequências políticas e até civis, aqueles que o povo há-de eleger, com base em pressupostos programáticos que depois “…jamais…” serão concretizados, enfim, é uma solução que nada resolve e, porventura, se pode dissolver num ápice, lançando o país, num pantanal político ingovernável e insustentável.

Sou dos que entendem a Democracia, como um sistema político, no qual é tão digno, nobre e útil, servir o país, quer estejamos no poder, ou na oposição. Considero até que, em certos momentos da vida das sociedades democráticas, presta melhor serviço, uma oposição vigilante, construtiva, atenta e interventiva, que saiba apresentar sempre, propostas de governo alternativas, viáveis e sensatas. Uma coisa é termos uma oposição que, em nome do interesse nacional, saiba em cada momento específico, perante as propostas de um governo minoritário, negociar e viabilizar a governação, sem com isso, perder a sua identidade, autenticidade e coerência política, outra coisa é, em nome da sofreguidão do poder, entrar num bloco de interesses, descaracterizado e mantido a flutuar em águas turbas, sujeito a esbarrar, a todo o momento, contra a teimosia, obstinação ou radicalismo de um líder ou da direcção do seu partido.

Para além de eu não acreditar que seja possível, para as pessoas que estão na política, verdadeiramente em nome do interesse nacional e de boa fé, pactuar com uma certa forma de ser, pensar e actuar, marcada pela arrogância, pela indómita e indisfarçável vontade de controlar tudo e todos.

Há matérias em que os princípios e valores são, a meu ver, completamente inconciliáveis. Estou a falar de matérias como os direitos das famílias, a liberalização do aborto, do casamento dos homossexuais, do divórcio na hora, a política de encerramento de maternidades, escolas e outras infra-estruturas sociais, educacionais e da Justiça que foram alvo de políticas desastrosas que agravaram ainda mais as assimetrias regionais e o atraso no desenvolvimento que se verifica no interior do país, cavando cada vez mais fundo o fosso que o separa do litoral.

É do mais absoluto bom senso, desejar que das eleições legislativas resulte uma maioria que suporte um governo estável que possa governar, com assertividade e num clima de Paz Social, cabendo à oposição cumprir o seu papel democrático. Mas não será insensato, congeminar desde já, quando estamos ainda a meses das eleições, putativos entendimentos a torto e a direito, ou seja, à esquerda e à direita, levando o eleitorado a perceber que há, de algum modo, uma predisposição incondicional para não largar o poder, ou assumi-lo a qualquer preço?…

Se os políticos não tiverem juízo e cuidado com a boca, pode-lhes acontecer o mesmo que ao peixe, provocando uma onda monumental de desmotivação e consequente desmobilização que tornará a abstenção na maior força política nacional.

Ministros avestruzes

É urgente que os políticos encarem de uma vez por todas a realidade e falem verdade. Estamos todos fartos de ministros avestruzes que ignoram a crueza dos números, porque não conseguem apresentar soluções, nem eficazes, nem tão pouco razoavelmente aceitáveis e animadoras.

Não devia o interesse nacional pôr as cabeças pensantes da política, mormente as do governo, a trabalhar arduamente na resolução dos mais graves problemas que Portugal enfrenta, como um desemprego (9,1% este ano e 9.8% em 2010); défice galopante (6,5% este ano e 6,7% em 2010).

Quem nos explica o destino concreto e a eficácia, dos milhões de euros que foram literalmente injectados em cima da crise (e nos bolsos dos mesmos de sempre) sem Resultados palpáveis que credibilizem os políticos que tomaram essas decisões; leis em catadupa que muitas vezes se revelam inúteis e ineficazes e que só servem para apanhar o peixe miúdo e deixam de fora os grandes trutas da criminalidade económico-financeira; professores, estudantes, magistrados, polícias, enfermeiros, funcionários públicos, insatisfeitos, desmotivados e num permanente e desgastante pé de guerra com o governo, perturbando a tão necessária Paz Social, imprescindível ao desenvolvimento da sociedade; dois milhões de portugueses no limiar da pobreza, facto que devia ser, inquestionavelmente, a maior vergonha dos políticos; ricos cada vez mais ricos e poderosos; escândalos sucessivos, em que a culpa acaba sempre solteira; e políticos em permanente campanha eleitoral, fazendo da omissão, do malabarismo discursivo e das promessas impagáveis, as marcas do discurso da desfaçatez.

O interesse nacional requer, digo melhor, exige que os políticos falem verdade e sobretudo, pautem a sua acção concreta, por uma preocupação sincera e consequente, com o quotidiano das pessoas, das famílias e das comunidades, sendo coerentes no discurso e no agir.

Não vamos conseguir tolerar por muito mais tempo, a política espectáculo, a “verborreia” que não significa nada e o marketing imagético que quer vender candidatos, como quem vende automóveis ou produtos de beleza, para não falar das cedências, pueris, à tentação de utilizar a coisa pública, ou pior do que isso, usar abusivamente, a imagem de crianças, a quem não foram acautelados os direitos à imagem, junto dos seus progenitores ou encarregados de educação. Até nisto somos diferentes dos outros europeus, ou não?!…

As pessoas querem políticos que estejam próximos de si, que as escutem, que partilhem as suas angústias e preocupações e que trabalhem com denodo e abnegação, ao serviço do bem comum.

Se os nossos políticos souberem e quiserem prestar este serviço aos seus concidadãos, então serão merecedores da nossa confiança e darão provas cabais de que querem pôr o interesse nacional acima dos interesses partidários ou dos seus próprios.

Victor Dias

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