Opinião Victor Dias: Era bom que não fosse verdade…

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A Igreja Católica Portuguesa, a que pertenço, está a passar por momentos de dificuldade que estão a abrir feridas e, inevitavelmente, vão deixar as suas marcas.

É público que alguns membros do Clero estão sob investigação, indiciados da prática do crime de pedofilia.

Enquanto Católico, confesso que, a confirmarem-se as suspeitas da prática deste crime, isto será uma tragédia para a imagem da Igreja em Portugal.

Não resta, a meu ver, outra atitude, por parte das hierarquias eclesiásticas que não seja, a de querer ver tudo em pratos limpos e de que as autoridades civis investiguem todas as suspeitas até ao fim, doa a quem doer. O pior que poderia acontecer seria deixar que se permitisse uma generalização injusta e penalizadora que metesse no mesmo saco culpados e inocentes.

vaticano

Tenho plena certeza que a esmagadora maioria dos padres são pessoas equilibradas, mental e espiritualmente sãs e cientes da sua obrigação de agir de forma consequente, em coerência com os votos que livremente assumiram, no momento da sua ordenação.

Seria profundamente injusto e infame, que nos deixássemos embarcar numa espécie de síndroma psicótico que nos tolhesse a lucidez e o discernimento e nos impedisse de olhar e ver, com toda a claridade, onde estão os escolhos que é preciso afastar.

Tudo isto é lamentável, mas não nos pode levar a tomar a nuvem por Juno.

Para todos os crentes é tempo de rezar e pedir a Deus que nos ajude a amparar as vítimas e a perdoar aqueles que ofendem o Criador, desta forma tão iníqua, traindo a missão que lhes foi confiada.

Verdade

Acolho com agrado a serenidade e inequívoca posição de alguns bispos portugueses que face ao problema, rejeitam a negação, preferindo dar um sinal de firmeza e solidez na sua determinação quanto ao apuramento da verdade. De facto, perante notícias tão perturbadoras, de pouco adianta ensaiar teses da cabala ou da conspiração. A quem proclama o Bem e a Paz, nada mais resta senão pugnar pelo apuramento da verdade, pois só a Justiça serve aos milhares de padres cuja vida é exemplo de missão e de serviço à Igreja. Uma vida feita de imensas privações e de uma sublimação que só uma Fé inabalável e um sentido de missão a toda a prova é capaz de sustentar.

Tenho para mim, que só esta atitude desassombrada de abrir o “peito às balas” e nada temer, pode travar algumas tentações de oportunismo de alguma gente sem escrúpulos que se dispõe a tudo, para tentar armar as suas ciladas e apanhar os mais incautos e desprevenidos, em enredos e armadilhas das quais, por mais inocentes que estejam, terão sempre imensa dificuldade em provar a sua inocência. Não é novidade para ninguém que os sacerdotes católicos são pessoas muito expostas e em certos casos até, “perseguidas”, o que exige da parte delas, uma enorme capacidade de abnegação, de sacrifício e profunda noção do decoro. O grau de exigência ética e moral que toda a sociedade impõe aos padres é o maior no topo da escala social, muito acima de juízes, médicos ou outras pessoas cuja missão na sociedade também é objecto de algum enfoque.

Todos sabemos que as sociedades deste tempo estão muito orientadas para o materialismo, para o poder e para o sexo, pelo que todas as pessoas cuja vida não se rege e orienta por tais valores são, facilmente, objecto de escárnio, caricatura e, não raras vezes, ridicularização. Há momentos em que dou por mim a filtrar conteúdos mediáticos em que a norma parece ser o desvio. Se eu não tomasse esse cuidado de separar o trigo do joio, o mais provável era acabar por me deixar confundir e aceitar essa inversão de valores. E em certos lares o consumo sem regra e sem controlo parental conduz precisamente a perder o norte, ofuscando aquilo que devia ser claro, ou seja, que a rectidão está na norma ética e moralmente aceitável e que o desvio é o inverso de tudo isso.

 

São tempos muito difíceis estes que exigem a quem tem a responsabilidade de educar, uma enorme atenção e um acompanhamento permanente dos seus filhos e educandos, confiando nas instituições que nos ajudam nessa hercúlea e complexa missão.

Pese embora o carácter perturbador destas notícias que, obviamente, são guizalhadas e empoladas até à exaustão, e admitindo que se possa estar perante uma certa contaminação de um fenómeno transversal a toda a sociedade que alastra por todo o Mundo, não posso deixar de afirmar e sublinhar intensamente que nada disto abala a minha Fé, pelas simples razão de que ela não reside na Humanidade, cuja natureza é, como infelizmente se comprova, capaz do melhor e do pior. Ela radica, isso sim na minha mais íntima crença, experiência concreta da minha vida e certeza da existência de Deus e do seu amor por nós. É esta realidade, independente de tudo o resto, que dá sentido à minha vida e à minha Fé e que não me permite confundir a essência da Igreja, com algumas particularidades episódicas que não passando disso mesmo, não deixam de nos entristecer e que todos gostávamos que não fossem verdade.

De cabeça erguida, enfrento todos os dias, alguns dos que não perdem a oportunidade para me confrontar com estas notícias, porventura, na tentativa de me embaraçar. Desenganem-se, estas notícias tristes, muito tristes é certo, apenas vêm confirmar a precariedade da nossa condição humana, razão pela qual não devemos abrandar na oração, para que a nossa alma possa prosseguir serenamente e sem perturbação a sua caminhada nesta vida.

Nunca ouvi dizer a ninguém que a Igreja não acolhia os pecadores, bem pelo contrário, sempre lhes abriu as portas, para que se pudessem redimir.

Como me conforta saber que alguns Santos, antes de se converterem, também foram pecadores e, no entanto, o Espírito Santo operou neles maravilhas. Façamos desta a nossa grande Esperança deste Natal.

Victor Dias