Opinião Victor Dias: “Europa: qual Europa?”

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Chega hoje ao fim a campanha eleitoral para as eleições europeias e, de Europa, dos seus problemas e futuro, muito pouco ou nada se debateu.

Lamentavelmente, os actores da campanha, da esquerda à direita, limitaram-se ao exercício de um ilusionismo medíocre que pretendeu dar a ilusão de que se falava de tudo, como alguns verberaram – “…sem intimidações e sem mordaças…”, para afinal, não tratarem do que se impunha, ou seja, esclarecer os seus concidadãos sobre o que cada partido pensa e propõe, uma vez no Parlamento Europeu.

Não obtive respostas concretas e esclarecedoras sobre a dimensão social e política da Europa da próxima década, sobre as questões, fundamentalíssimas, da segurança interna, das fronteiras e da estratégia comum de defesa do território europeu, perante as ameaças externas, cada vez mais presentes.

Temos uma Europa a envelhecer, a perder protagonismo económico e a claudicar perante as economias emergentes, vendo as condições do trabalho e do emprego, cada vez mais precárias, com índices de desemprego alarmantes.

Na Justiça o cenário não é mais animador, basta ver a impotência dos organismos judiciais, europeus e nacionais, em combater o crime organizado e as máfias, as clássicas e as neoclássicas, herdadas do bloco de leste.

Perante o colapso dos grandes potentados económicos que detinham nas mãos a indústria pesada, o sector automóvel, a investigação, desenvolvimento e produção das tecnologias de ponta, as redes de distribuição e a máquina financeira internacional, o que pensam os nossos candidatos a parlamentares europeus?…

É verdade, o leitor está a pensar o mesmo que eu, ou seja, ninguém tem uma ideia consistente sobre o combate à crise. Ninguém disse nada de concreto, quanto a essa imensa almofada da economia europeia que está, verdadeiramente, a segurar as pontas. Estou, é claro, a falar das PMEs e das micro-empresas, tecido económico com uma capacidade empregadora que está, literalmente, a ser a tábua de salvação da velha Europa.

Alguém ouviu alguma coisa consistente sobre agricultura e pescas? – Um discurso coerente sobre esta matéria, pura e simplesmente, não há, enfim, é um vazio absoluto e preocupante.

Ao nível da Cultura e das indústrias criativas e do entretenimento, como o cinema, o teatro, a música, os circuitos das exposições, os museus e toda uma panóplia de artes produtivas de valorização dos tempos livres e da vida cultural das pessoas e das comunidades, a Europa continua a ser um continente consumidor de bens de fruição intelectual, importados quase sempre, ou na sua maioria, dos Estados Unidos, ou ali concebidos e industrialmente duplicados no oriente. Esta dependência, excepcionalmente contrariada, de forma muito ténue ou pontual em certos sectores, faz com que os europeus desperdicem muita da sua riqueza e sobretudo, deixem de criar emprego, por falta de iniciativa e, principalmente, por falta de uma visão empresarial mais aguda e estrategicamente mais agressiva, das indústrias criativas que não só não têm grandes apoios à criatividade e inovação, como se vêm a braços com uma concorrência desleal e uma total incapacidade das autoridades aduaneiras europeias e nacionais, em estabelecer pautas que disciplinem as importações massivas, corrijam as distorções concorrenciais e regulem, tanto quanto possível e desejável, o mercado.

Se é verdade que existe uma política monetária europeia, com um banco central e uma articulação, mais ou menos eficaz e eficiente, com os bancos centrais nacionais, para manter o Euro, com algum poder e credibilidade, não se pode dizer que a Europa tenha uma política económica comum, forte e suficientemente blindada que não a deixe vulnerável às influências nefastas, das economias de países, onde os direitos do trabalho, os valores da Democracia e da Liberdade e, mormente, os Direitos Humanos, não encontram o respeito e a consideração que existe no espaço europeu.

A economia de mercado, a livre concorrência e a livre iniciativa são valores que devem ser entendidos como estímulos para o desenvolvimento sustentável, para a criação de riqueza e como factores potenciadores de uma maior justiça social, estabelecendo um equilíbrio saudável, entre a solidariedade e a segurança social e o premiar do mérito, de todos quantos, pela sua inteligência, esforço e responsabilidade pessoal, trabalham e procuram construir, para si e para as suas famílias, uma vida e uma sociedade melhores. Estes valores têm de ser afirmados e defendidos, por forma a que só seja possível cooperar e estabelecer acordos, sejam eles ao nível da diplomacia política ou económica, com países onde haja o mesmo entendimento, sob pena de pactuar com formas de governo e regimes que, do ponto de vista civilizacional, cultural, político e económico, são no mínimo, adversários, ou mesmo inimigos da Europa e dos europeus, contribuindo a olhos vistos, para a degradação do nosso nível de vida, da nossa paz social e pondo mesmo em risco, a nossa segurança.

A diplomacia do petróleo, tem feito vista grossa e ouvidos de mercador, estabelecendo um diálogo de paninhos quentes e falinhas mansas, com alguns dos maiores ditadores e regimes totalitaristas, não compreendendo ou ignorando, os efeitos nocivos que essa política tem tido e vai ter, com efeitos mais gravosos no futuro.

A crise da Europa é sobretudo uma crise de liderança, de falta de elites políticas bem formadas e devidamente preparadas, para poderem exercer cargos de alta responsabilidade.

A Europa dos cidadãos, um dos chavões do tão propalado tratado de Lisboa, foi uma matéria que todos meteram na gaveta. Talvez porque não dava jeito, ser confrontado com a ineficiência dos eurocratas que querem construir uma Europa, nos gabinetes de Bruxelas, ao arrepio dos europeus.

A vozearia

Lamentavelmente a maioria dos candidatos a eurodeputados, deu-se ao papel de utilizar uma linguagem inadequada, excessiva e desrespeitadora dos eleitores, preferindo o insulto encapotado, o ataque pessoal e a argumentação falaciosa. Alguns deles fizeram-me lembrar figuras populares que dão colorido e vigor às feiras e mercados, mas não é isso que nós esperamos dos políticos, nem é essa postura que dá dignidade à política. Estou farto que insultem a minha inteligência.

A campanha tem sido o espelho, e que espelho, da arrogância e do mau gosto que se instalou no país, muito por culpa de quem está no poder.

A Justiça no terreiro da política

Todos os dias da campanha, parecia vital, os casos da ordem do dia da Justiça, saíram a terreiro.

Pois bem, para mim e, por certo, para muitos leitores e concidadãos, o caso BPN está para o caso FREEPORT, como o caso FREEPORT está para o caso BPN, tal e qual, ou seja, ambos são processos do poder judicial e o poder político, tem a obrigação moral e ética, de tirar consequências, ainda que tarde e a más horas.

À Justiça o que é da Justiça e à Política o que é da Política, sendo que esta última não pode ser cega, surda e muda, bem pelo contrário.

A solução e as escolhas

É óbvio que a abstenção não é solução e o dever dos cidadãos europeus é votar, para que não seja uma minoria a decidir por uma imensa maioria, já bastam as minorias que manipulam tanta coisa na sociedade que até são capazes de controlar os vários poderes, o político, o mediático e os ocultos, porventura, os mais nocivos à sociedade.

Já fiz a minha avaliação, talvez demasiado marcada pela ideia de extrair do mal o menos e procurar pelos fios de tudo quanto há de positivo no meu partido de sempre que, a meu ver, conseguiu pelo menos refrescar as caras e apresentar um conjunto de candidatos a eurodeputados, minimamente credível e com competências políticas e técnicas que me dão algumas garantias.

Por isso mesmo, sendo fiel ao meu ideal de social democrata, que acredita numa Europa dos cidadãos, com eles e para eles construída e participada, numa Europa social, interclassista, forte na economia e poderosa politicamente, e por estar cada vez menos compaginável com a “fulanização” da política, vou votar no PSD e desse modo, ajudar a eleger Paulo Castro Rangel, ficando em paz com a minha consciência de cidadão, pese embora o facto de ter de ser eu a procurar esclarecimentos e informação, dado que a campanha que hoje termina terá sido das piores de sempre, com culpas no cartório, para todos os partidos.

Acompanhei a par e passo o roteiro de Paulo Rangel e de todos os outros cabeças de lista, candidatos às europeias e, procurando sempre fazer uma leitura tão objectiva e isenta, quanto possível, concluo que no espectro político pró-europeu, ele e os seus colegas de lista, são para mim, a melhor opção, por isso vou votar PSD e não o farei para penalizar o governo. Deixarei isso para quando chegar o momento próprio e me for dado o direito de cidadania, para dizer com uma cruzinha – basta!…