Opinião Victor Dias: Irrevogável…

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As palavras são instrumentos do nosso pensamento e carácter.

No nosso quotidiano, mesmo quando apenas queremos comunicar atitudes, gestos ou vontades muito simples, antes de as proferirmos, é num ápice que reflectimos sobre o seu significado, e selecionamos aquelas cujo sentido se apropria à nossa necessidade de comunicação imediata.

Vejamos, se eu quiser comunicar ao meu interlocutor que não quero jogar mais uma partida de sueca, o que ficaria ele a pensar de mim, se no minuto seguinte eu pegasse no baralho e começasse a dar o jogo pelos quatro convivas? No mínimo, ficava baralhado, ou a pensar que eu tinha, como dizem os adolescentes, dado “tilt”. Penso que os caríssimos leitores terão compreendido, com toda a certeza, que todo o discurso, seja ele político ou não, tem de ter nexo e que os equívocos apenas podem encontrar alguma razão aceitável, quando se cometem “lapsus linguae”, que mais não fazem do que denunciar o que nos vai no subconsciente.

Bem!… tudo isto para dizer que naquele comunicado que Paulo Portas legou à Ciência Política, na semana passada, há muita matéria para dissecar e analisar.

O mestre Portas, cujo tratado continua arduamente a lavrar na sua mente, confeccionou um texto pleno de substância psicopolítica. Isto porque além de uma ou duas referências às suas divergências quanto à política governativa, supostamente insanáveis, Portas mostrou-se tal e qual é. Mas desta vez, com uma transparência cristalina. Assertivo, meticuloso, “aracnídeo” e letal, pedindo messas a Freud e a Maquiavel.

Atenção aos detalhes

Tudo, mas absolutamente tudo, naquele comunicado foi pensado em pormenor. A ordem das ideias e das frases, a intensidade dramática das mesmas e sobretudo a escolha, muito rigorosa, de todas as palavras.

Destaco, claro está, aquela que dá título a esta minha prosa – “irrevogável” -, e enfatizo-a, por ser no comunicado, a palavra mais aterradora, sobretudo para Passos Coelho que, suspeito eu, ao ler tal expressão, talvez tenha pensado que já ia passar férias na Manta Rota.

Irrevogável é uma palavra forte, diria até de uma magnitude simbólica que só nos permite aplicá-la em situações muito extremas, de limite mesmo, como aquelas em que temos de utilizar palavras como: irreparável, irracional, irresponsável e irremediável…

Paulo Portas é um político hábil, experiente e competentíssimo, qualidades que, actualmente, não significam que eu considere que isso seja bom para Portugal e para os portugueses, bem pelo contrário, perante políticos desta craveira, fico sempre muito desconfiado. E fico desconfiado porque, infelizmente, políticos desta envergadura, nem sempre usam a sua inteligência e experiência política, a bem da comunidade nacional.

Confesso que até gostaria de nem ter razão, mas a semana que passou e o que ao longo dela aconteceu na política e no Governo, não me deixa concluir outra coisa.

Sentido único

Essa palavra irrevogável, cirurgicamente escolhida, de significado definitivo, implacável e aterrador para o Primeiro-Ministro, é expressão do mais fundo do carácter pessoal e ético de Portas. Não foi, certamente, de ânimo leve que o Ministro dos Negócios Estrangeiros escreveu aquela palavra que vinculou, de forma definitiva e irremediável, a sua palavra de honra, a sua face, a sua pessoa de bem e o seu carácter e sentido da ética pessoal e política.

Devo dizer que essa palavra, irrevogável, me é muito cara e tem um sentido único, não sendo possível tomar outro percurso, uma vez proferida. Mas não é só a mim que ela é muito cara. A Portugal inteiro também, basta pensar que o país, num só dia, pagou por essa palavra, proferida por Portas, mais de 3 mil milhões de euros, em perdas, também elas irreparáveis.

Podemos fazer os acordos políticos que quisermos, podemos até fazer mais acordos ortográficos, mas a palavra irrevogável, revelará sempre o carácter de quem a decide utilizar.

Face a esta conclusão, para a qual não vejo alternativa, só posso afirmar que a minha desconfiança no acordo celebrado agora, entre Passos Coelho e Portas, é totalmente irrevogável, como aliás, também é a minha intranquilidade e decepção, com este tipo de lideranças políticas. Nada vai apagar os factos e as consequências políticas da semana que passou. Foi grave, foi demasiado grave e trágico, para que esta gente saia impune, e ainda por cima, mostrando-se alegremente como se tivessem sido os salvadores da Pátria que no último minuto, impediram que caíssemos no abismo.

Resta-nos esperar, com a paciência possível, que o próximo arrufo político de Portas, seja tão irrevogável como o da semana passada.

Victor Dias