Opinião Victor Dias: Óleo de fígado de bacalhau…

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A Liberdade tem destas coisas, permite que cada um possa dizer o que bem lhe apetecer e se for rico, até se pode dar ao luxo de se revelar mais profundamente.

Tenho de confessar que nutria uma certa admiração pelo patrão da Sonae, uma empresa que nasceu na Maia e se fez pela mão de Belmiro de Azevedo e dos seus milhares de trabalhadores. Sempre gostei, daquilo que conheço, da cultura da organização e nunca tive notícia que a Sonae pagasse salários muito baixos.

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Tenho no entanto de confessar a minha decepção ao ouvir um dos homens mais ricos de Portugal e do Mundo, afirmar que o futuro da economia portuguesa está numa política de salários baixos.

Não satisfeito, o patrão da Sonae lançou uma nova metáfora – “…temos de voltar ao óleo de fígado de bacalhau…”. Isto não me caiu nada bem, mesmo descontando o facto de tais palavras terem sido proferidas num clube de pensadores, onde há poucas semanas tinha estado um dos maiores pensadores políticos do nosso tempo, embora com poucos dotes musicais, tal foi o “desafinanço” ao cantar a “Grândola Vila Morena”.

As pessoas que estão à margem da crise e que não sentem na pele as suas agruras, que não estão no desemprego e a quem não falta nada, deviam ter algum decoro e tento na língua, ou pelo menos, no clube dos pensadores, pensar duas vezes antes de deitar cá para fora, palavras que ofendem a dignidade humana dos pobres.

Mantenho o meu respeito pelo Engº. Belmiro de Azevedo e reconheço que tem sido um dos empresários portugueses que tem desempenhado um papel importante na vida económica do país, gerando negócios que têm dado emprego a muita gente, mas esperava que conseguisse dizer aquilo em que acredita, de uma forma menos chocante e de certo modo até imoral, atendendo às circunstâncias presentes.

Se o visado nesta prosa, porventura, algum dia vier a ler o que penso, longe do clube dos pensadores, certamente vai sorrir… Mas tenho a certeza absoluta que da próxima vez, quiçá, pensará melhor no que quer dizer. Não que ele não possa expressar o que pensa livremente, até porque é suficientemente rico para isso e muito mais, mas não vai esquecer-se do óleo de fígado de bacalhau que teve de engolir em menino, ou talvez não…

Ser capitalista não é, a meu ver, pecado algum, penso inclusive que se pode ser rico sendo uma rica pessoa, mas essa condição impõe-nos que não ignoremos a realidade, para que sejamos humanamente críticos, ainda que acreditemos piamente naquilo que julgamos ser o melhor para o nosso país. Quero dizer que não ponho em causa o conteúdo do discurso político do empresário, sim porque se tratou de um discurso eminentemente político, mas a forma utilizada foi muito infeliz, sobretudo quando não nos é dado ignorar o facto de que temos sobre nós, os microfones e as câmaras. O engº. Belmiro escusava de nos lembrar como nos enjoava o óleo de fígado de bacalhau.

Victor Dias