Opinião Victor Dias: Medicação e confusão

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Comunicar é viver!…

Regresso aqui, de novo, à problemática da comunicação. Se Comunicar é viver, pode deduzir-se que não comunicar é morrer. Descontando o eventual exagero, a verdade é que há riscos que se correm quando a comunicação é ineficaz ou contraproducente.

Há dias, em conversa com o meu Médico, dei-me conta da enorme trapalhada que grassa no sector do medicamento.

Na política actual impera a ditadura do baixo custo, uma estratégia cuja legitimidade e racionalidade não contesto e aceito, face à escassez de recursos financeiros e situação de quase banca rota em que nos encontramos. Maleita, para a qual não parece haver remédio.

No entanto, julgo que isso não se pode tornar uma obsessão frenética que concentre todas as atenções no preço dos medicamentos e nas poupanças que o Estado pode granjear no esmagamento das margens da indústria e do comércio farmacêutico.

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Há aspectos fundamentais que estão, claramente, a ser descurados e que começam a pôr em risco a saúde pública.

Como facilmente todos perceberemos, a diferenciação objectiva das embalagens dos medicamentos, bem como a forma, dimensão, cor e textura, mormente, dos comprimidos, são aspectos de suma importância, principalmente para aquela franja da população que é, inequivocamente, a maior fatia de consumidores do mercado do medicamento. Aliás, é essa franja que sustenta essa indústria e comércio. Estou a aludir, obviamente, àquela fatia da população que, habitualmente, é designada por terceira idade, ou seja, aquela que considera todas as pessoas com mais de 65 anos de idade.

Parece evidente e inquestionável que o aparecimento dos genéricos e a sua proliferação, foi vantajosa para os cofres do Estado e para os bolsos dos doentes, mas a falta de cuidado e atenção, a esta questão da embalagem e do formato dos próprios medicamentos, da sua comunicação com o consumidor, bem como da sua claríssima diferenciação, é uma falha grave que acarreta alto risco para a saúde, sobretudo dos mais velhos, cuja visão e outras faculdades vitais se tornam mais frágeis com o avanço da idade.

Terapêuticas

Como todos sabemos, há idosos que vivem sozinhos e têm de fazer uma medicação diária composta por vários tipos de medicamentos. A gestão das várias terapêuticas que têm de seguir diariamente é, para essas pessoas, uma tarefa difícil que exige muita concentração da sua parte. Percebe-se facilmente que se as diversas embalagens de medicamentos tiverem um design que ajude a distingui-los, claramente, uns dos outros e que se as características materiais dos vários comprimidos forem concebidas e produzidas, tendo em consideração esse público mais idoso, a margem de hipotético erro diminui consideravelmente e, desse modo, há-de diminuir também o risco.

Falava-me o meu Médico, de um caso concreto, ocorrido até com um familiar seu, em que a confusão gerada na cabeça da pessoa de 84 anos foi tal que acabou por acarretar como consequência, infelizmente gravosa, um estado de pré-demência, provavelmente, irreversível. A causa desse lamentável incidente, teve como origem primeira, justamente a substituição maciça, de toda a sua medicação, por equivalentes genéricos.

Despertar

É verdade que se pouparam uns tostões, ao Estado e ao doente, mas perdeu-se um valor inestimável, a sanidade mental de uma pessoa, bem como a qualidade de vida do próprio e da sua família, o que na prática, vai acarretar agora, e completamente ao arrepio do que era pretendido, custos bem mais elevados do que as poupanças inicialmente conseguidas.

Assim que despertei para esta realidade, tornei-me mais sensível ao problema e, talvez por isso, acabei por tomar conhecimento de outros casos em que esta questão de comunicação visual, ligada à identificação dos medicamentos, por parte deste grupo social mais vulnerável, toma contornos preocupantes.

Razão tem o povo, quando em certos casos afirma: – “…vai-te ganho que me dás perda…”.

Esperemos que as autoridades competentes, nomeadamente o Sr. Ministro da Saúde, consiga ter o discernimento necessário, para não se focar demasiado na mercantilização da saúde, esquecendo que mesmo a Economia, é uma Ciência Social, de pessoas para as pessoas. E é nas pessoas que deve estar, primeiramente, o foco das políticas de saúde.

Recomenda-se com toda a emergência, como é vulgo dizer-se na actualidade, uma revisão da política do medicamento, especialmente no que diz respeito às suas características comunicacionais.

Nesta como noutras matérias, a comunicação eficiente, ou a falta dela, tem impactos de difícil aquilatação, porque mesmo quando os impactos negativos são mínimos ou residuais, é sempre de vidas humanas que se trata. E o valor de uma única vida que seja, não é passível de ser reduzido a números.

Victor Dias