Opinião Victor Dias: “O poder da Cultura”

0
135

O poder político tem tido muita dificuldade em compreender o papel da Cultura na sociedade, facto que até se explica em regimes totalitários e ditatoriais, mas que não se entende nas democracias contemporâneas.

Na era da globalização, em que a tentação de massificar tudo ao máximo possível, para normalizar formatos, medidas, hábitos e, consequentemente, consumos, por forma a esmagar custos de produção ditados por uma economia de escala, a cultura assume uma importância crucial, como nunca antes teve.

É a Cultura que nos pode diferenciar de um chinês, de um russo, de um norte-americano, de um mongol ou tibetano.

Desde logo a língua, que é um património estruturante de cada Cultura, cuja fonética, morfologia e semântica, decorrem de matrizes como a geografia da terra, da anatomia padrão dos seres humanos falantes, dos modos de pensar, ver e estar no Mundo que são próprios de cada povo, ou seja, de cada Cultura.

As outras formas de expressão também são influenciadas por factores autóctones, como por exemplo a Música que recolhe os materiais que a natureza dá, para fazer os instrumentos musicais, a Dança que reflecte vivências e até hierarquias sociais e ritos religiosos, o Teatro que é, para além de uma importante forma de interacção social, uma forma de as comunidades assinalarem momentos históricos e memórias, mas fazerem também a catarse de certos fantasmas colectivos, tensões e motivos de conflito. A Arte é também uma fortíssima expressão e meio de comunicação que de igual modo, recorre aos materiais e motivos próprios de cada região.

Todos sabemos que a Cultura se encontra actualmente num momento de grande interacção, assimilando a diversidade como aspecto que a enriquece, sem com isso querer impor padrões normalizadores, bem pelo contrário, há uma ideia que germina, no sentido de estimular e valorizar tudo quanto afirma a diferença, tudo quanto faz perceber que o Mundo, não sendo a preto e branco, não é seguramente só a uma cor.

É imperioso que o poder político consiga efectivamente perceber a importância da Cultura como uma componente da vida das pessoas, das comunidades locais, regionais e nacionais, que tem uma função imprescindível ao nível da coesão e da Paz Social, ao nível da sã convivência intercultural e da Paz Universal. Talvez fiquemos a pensar que esta utopia só se consegue armando os países até aos dentes, para que todos tenham medo de todos e não se atrevam a dar o primeiro passo, mas a Paz, a meu ver, é um bem que só se conseguirá de forma duradoura quando formos capazes de, pelo menos, tentarmos calçar os sapatos do outro, para ver as coisas na sua perspectiva, tentarmos compreendê-lo e fazer um esforço para entender os valores e interesses que o motivam, sem com isso, prescindirmos dos nossos, mas procurando somente uma conciliação, como caminho para a Paz.

Em face do estado actual das sociedades ocidentais, em plena crise de valores éticos e morais, de crise económica e social, a dimensão social do papel da Cultura torna-se ainda mais preponderante, como factor de combate à depressão individual e colectiva que aflige quem directa ou indirectamente é afectado por essas crises.

É óbvio que a Cultura não pode ser encarada como uma terapia, e não é de todo, o que eu pretendo dizer, mas reconheço que as boas práticas e bons hábitos culturais, acabam sempre por beneficiar o ambiente social em que as pessoas se integram e, de algum modo, também beneficiam a boa forma mental.

Investimento e despesa

Crianças, jovens e adultos que, regularmente, fazem e ouvem Música, dançam, fazem Teatro, pintam, se dedicam a actividades no âmbito da fotografia e do vídeo, escrevem e lêem, quer o façam como criativos, quer sejam apenas espectadores, alargam os seus horizontes, adquirem múltiplas capacidades de comunicação e interacção e integram-se com maior facilidade, qualquer que seja a matriz cultural do meio.

Em Portugal, nos últimos quatro anos e meio, ou seja, na vigência da governação liderada por Sócrates, o (primeiro) Primeiro Ministro supostamente amigo da Cultura e da Arte de Pensar, destinou à Cultura apenas 0,4% do orçamento geral do Estado, deixando à míngua, museus, teatros e auditórios nacionais, companhias e orquestras, festivais e projectos muito válidos que foram obrigados a empobrecer a sua tradição, ou pura e simplesmente, deixar cair o pano, porque não quiseram fazer concessões ao mau gosto e nivelar por baixo.

O dinheiro que se emprega na Cultura é um investimento e não uma despesa, como tantas vezes se referem os políticos. É um investimento porque os seus rendimentos, muitas vezes visíveis apenas em gerações futuras, é mais duradouro, quando comparado com outros, realizados numa lógica mais imediatista e cujas motivações escapam aos fins, porque os meios se sobrepõe de uma forma, aparentemente, obscura, mas que quase sempre acabam por se denunciar a si próprios.

Os investimentos na Cultura e na Educação são efectivamente aqueles que melhor podem assegurar um futuro sustentável, sobretudo porque é por aí que se consegue, porventura, com mais eficiência, operar mudanças de mentalidade, sem preocupações estatísticas, ocas de conteúdo e de sentido. Políticos como Olof Palm, homem de cultura, deram uma importante lição ao Mundo, colocando a Cultura, não no lugar da política, mas na sua base.

Sócrates não entendeu o poder da cultura, talvez porque a Cultura não dê tantos votos como outros sectores, ou na pior das hipóteses, porque a Cultura não é definitivamente a sua praia. Mas seria bom que o próximo governo percebesse que não se combate a violência urbana, a desordem social, a poluição visual das grafitadas que enxameiam a paisagem das cidades, sujando monumentos e edifícios públicos, mandando contingentes de polícia de choque. Isso pode prevenir-se também com uma assertiva política cultural que proponha às comunidades, um conjunto de actividades de expressão artística, através das quais as pessoas, em particular os jovens, possam desenvolver de uma forma projectiva, as suas capacidades de expressão, utilizando desse modo a sua energia criativa.

É certo que uma sociedade mais culta, ciente dos valores que a caracterizam, conhecedora do que se pensa e faz por esse Mundo fora, é menos vulnerável a sofismas, embustes, demagogias partidárias e tentativas de manipulação. Pensa melhor pela sua cabeça, tem mais conhecimentos e argumentos para opinar e decidir, em função de um juízo, à partida, mais independente e sólido. Suspeito que seja por esta razão que os ditadores perseguem, exilam e prendem, os intelectuais, os artistas e os jornalistas, além dos livres-pensadores. Dá que pensar não dá?…

Victor Dias