Opinião Victor Dias: “Palavras ocas e ideias tolas chovem de todo o lado”

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Com o aquecimento global da política portuguesa, o que nos safa, é a chuva de “sound bytes” e tolices que vão refrescando o ambiente.

Uma chuva democrática e plural que não deixa nenhum partido sem mácula, da esquerda à direita, há tontices para todos os gostos, enfim, é um regabofe pegado que faz as delícias dos comentadores militantes, quer se apresentem em homilias semanais, ou em tertúlias mediáticas, onde deitam faladura, como se estivessem a decretar sentenças.

Às vezes podemos achar uma certa graça, mas quando reflectimos mais profundamente, damos connosco a pensar em jeito da nacional canção, tudo isto existe, em Portugal, tudo isto é triste, tudo isto é Fado.

Não vou falar de casos concretos pela simples razão de que não quero ser cúmplice do mau gosto, da má criação e da falta de respeito. Recuso-me a participar da ampliação e difusão dos maus exemplos que certos políticos, sem sentido de Estado e da responsabilidade, dão aos jovens e à comunidade nacional que têm obrigação de servir.

Em Agosto, alguns portugueses, porventura menos do que noutros tempos, vão poder tirar uns dias de merecido descanso, abstraindo-se, tanto quanto possível, de uma realidade que, não raras vezes, faz inveja à melhor ficção hollyodesca, daquela que se inspira no mais genuíno estilo dos enredos sicilianos ou napolitanos.

Às vezes dá vontade de fazer de avestruz, pousar o olhar na retemperadora paisagem de uma das belas serras portuguesas, encher o peito de ar, apreciar o canto dos pássaros e confraternizar com os nossos melhores amigos, rodeados daqueles a quem mais amamos, a nossa família.

Lá para o início de Setembro, queiramos ou não, temos de voltar à terra e levar com esta confrangedora mediocridade que afecta, a esmagadora maioria daqueles que nos governam.

A nossa real capacidade de participar numa mudança de rumo é ínfima, quase nula, restando-nos apenas uma escolha limitada ao cardápio que os vários partidos vão cozinhar para que tenhamos a ilusão de poder alguma coisa.

Estou cada vez mais convicto de que a grande mudança que Portugal precisa, e urgentemente, é uma mudança de modelo de sistema político.

Modelo político

Precisamos de um modelo político em que os candidatos a candidatos não sejam escolhas pessoais de quem manda ou controla os aparelhos partidários, num castrante distanciamento da vontade e do querer dos eleitores e até do seu conhecimento pessoal.

Em Setembro vamos ter candidatos a deputados que pouca relação têm com os círculos por onde concorrem e, desse modo, também não se responsabilizam directamente por manter um compromisso com os interesses e direitos dos eleitores desses círculos, desenvolvendo o seu trabalho parlamentar numa obediência férrea à disciplina partidária, por forma a nunca desagradar às cúpulas, das suas bancadas e dos directórios nacionais dos seus partidos, procurando garantir a, tão almejada, continuidade no maior número possível de futuras legislaturas.

Vamos ver nas listas, os mesmos de sempre, com uma ou outra cara nova para disfarçar, mas teremos certamente um panorama político repleto de carreiristas e políticos profissionais que já demonstraram que estão vazios de ideias e vontade, salvo honrosas, mas raras excepções.

A cidadania do século XXI tem de exigir mais e melhor, este sistema não serve e está anquilosado, velho e caduco.

O actual sistema político não serve a Democracia, não serve os ideais de Liberdade e, principalmente, não funciona como devia, com a eficácia que o país carece, para que os líderes políticos possam efectivamente desempenhar os seus cargos, servindo os seus concidadãos e a comunidade, com competência, com eficiência e transparência. Uma transparência tão cristalina que ponha a nu, quem merece ou não, a nossa confiança, para ser fiel depositário do poder que legitimamente lhes é entregue, com carácter temporário, através do voto.

Assumo com todas as letras a minha condição de social democrata, pela firme convicção que tenho nesse modelo político, em que tomo como principais ideólogos que me inspiram, Sá Carneiro, Willy Brandt e Olof Palme, homens que viveram a política com autêntico espírito de serviço, plena consciência da transitoriedade dos cargos que ocuparam, elevado sentido de Estado e a humildade que nunca deixou que o poder de que foram fieis depositários lhes subisse à cabeça. Estes vultos maiores do pensamento e da política que se fez no século passado e cujo património ideológico é hoje reclamado por essa massa hipodérmica a que chamam centrão,foram de algum modo guardiões de uma ideia de Estado Social Keyneziano, moderno e suficientemente flexível, para deixar a sociedade civil respirar, ter iniciativa e fôlego empreendedor, com regulação QB, mas sem concessões ao neoliberalismoirresponsável ou ao capitalismo selvagem que nos levou à crise severa que atravessámos.

Sinto que este modelo de democracia Social que eu gostaria de ver implementado em Portugal, está cada vez mais longe da nossa realidade, facto que me vai tornando mais séptico e independente, por ter dificuldade em alinhar o meu pensamento político com o ideário actual da social democracia em Portugal.

A política tem de ser encarada como uma das actividades humanas, mais nobres e dignificantes de quem a pratica. Só a concebo com ética, com princípios e valores que não permitam às mulheres e homens que a ela se dedicam, proferir palavras ocas, exprimir ideias tolas, ter falta de respeito e de educação e, mormente, deixar-se nivelar por baixo.

Ainda bem que nas autárquicas, o que está em causa é de uma natureza política diferente, e as nossas escolhas, terão por certo que atender a outros valores e a uma lógica de maior pragmatismo, em que as pessoas e o seu perfil e passado, vão ter um peso específico de forte ponderação na nossa decisão.