Opinião: Victor Dias – Um empresário da Maia sem papas na língua

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Belmiro de Azevedo, o homem Sonae, a maior e mais genuinamente portuguesa das empresas sediadas na Maia e em Portugal, falou com a Visão que o caracteriza e disse com todas as letras, o que pensa, sente e reflecte, exercício que nem todos podem dar-se ao luxo de praticar, mormente, os políticos.

É claro que alguns disseram, sem pestanejar, que é fácil dizer o que nos apetece e vai na alma quando se tem o que Belmiro tem. Mas quantos há, igualmente ricos, que em nome dos seus interesses pessoais e, quiçá, para os protegerem do mau acolhimento da crítica, por parte dos decisores públicos, optam por se calar?…

Eu diria que o bem mais precioso que o empresário possui é, sem dúvida, o facto, concreto e irrefutável, de não depender de ninguém, entenda-se, nem do Estado, nem dos políticos.

Concordo quase com todas as suas análises e acho que algumas delas deviam ser entendidas como conselhos válidos que os políticos deviam adoptar e, mais do que isso, até interiorizar.

Aos setenta e poucos anos de idade, Belmiro de Azevedo tem uma visão sobre a vida que, porventura, surpreenderá muita gente, mas com a qual eu me identifico em variadíssimos aspectos, em particular sobre o trabalho e sobre a economia, quer pelo entendimento, a meu ver, correcto e ponderado acerca da importância de nos mantermos sempre activos e dispostos a questionar, métodos, processos, atitudes e comportamentos.

Conhecendo o homem, vamos a pouco e pouco, compreendendo melhor porque razão a Sonae cresceu e se desenvolveu, vencendo dificuldades e obstáculos, mesmo nos momentos mais críticos, como aconteceu nos idos de 1975 e subsequentes, num período em que as empresas eram tomadas pelas comissões revolucionárias de trabalhadores, os patrões eram sequestrados e as fábricas e instalações sitiadas. Lembro-me muito bem, apesar de ser ainda, nessa época, um adolescente, de o meu pai me falar do clima de comprometimento positivo que foi conseguido na Sonae, entre Belmiro de Azevedo e os trabalhadores, resistindo com êxito, às influências e pressões, exercidas pelo exterior, entenda-se alguns sindicatos inspirados por partidos de esquerda extrema, apoiados por uma certa imprensa…

Para a Maia e para toda a região, o facto de a Sonae ter a sua sede aqui foi determinante, quer na geração de emprego de qualidade e, consequentemente, de riqueza, como na captação de mais e melhor investimento produtivo, sendo que a Sonae foi sempre invocada como um caso de sucesso.

Esta entrevista do Maestro da Sonae só veio confirmar a opinião que eu já tinha a respeito dele, enquanto principal mentor de uma Cultura de organização que é o principal factor de motivação das pessoas que nela exercem a sua actividade profissional e que, de algum modo, acaba por ser uma forma de vida em sociedade que encara o trabalho como um factor de dignificação da pessoa humana, de desenvolvimento pessoal e colectivo e essência da geração de riqueza.

Uma empresa é sempre uma comunidade de interesses que não são necessariamente inconciliáveis, bem pelo contrário, quando os seus maestros sabem dirigi-las como orquestras, respeitando a arte e o saber de cada pessoa, tendo sempre por missão, a melhor performance de desempenho individual e colectivo, todos ganham, na medida do seu investimento e responsabilidade. Isto não é uma teoria económica é mais uma forma de vida em sociedade que dispensa e recusa qualquer subsídio-dependência.