Opinião Victor Dias: Uma perda irreparável para o Norte

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A notícia de que um dos programas mais importantes do Canal 1 da RTP iria passar para Lisboa, depois de ter sido produzido durante mais de duas décadas, a partir dos estúdios do Monte da Virgem, é efectivamente um rude golpe para as gentes nortenhas.

O programa “Praça da Alegria” a que já nos habituamos a ver, preenchendo as manhãs de segunda a sexta-feira, no Canal 1 da RTP, é em todo o espectro televisivo português, um dos melhores conteúdos mediáticos de serviço público, produzido e realizado por uma equipa de profissionais muito dedicados e competentes.

Ao que sei, e posso garantir que estou muito bem informado, os custos de produção das quase três horas diárias de animação televisiva, plena de assuntos interessantes, de Música, Cultura e boa disposição, sem esquecer a solidariedade social, são dos mais baixos que se conseguem em todo o panorama da televisão em Portugal, facto que atesta bem, quer da capacidade de produzir televisão de serviço público, com uma qualidade inquestionável, como da eficiência de gestão de um orçamento dedicado à produção do programa que, a meu ver, é muito mais do que exíguo, é mesmo ridículo e, no entanto, a equipa da Praça, consegue fazer o que todos vemos.

Como cidadão português, residente no norte do país, confesso-me veementemente indignado com esta medida completamente arbitrária, irracional e injustificada, pois não há nada que a possa sequer fazer parecer racional.

Para a sociedade nortenha, para a Cultura, para a Música, para os artistas e, enfim, para todas as gentes do Norte de Portugal, esta medida, a concretizar-se, será um dos mais rudes golpes que vai adensar ainda mais as assimetrias e o fosso que separa a macrocéfala capital e o resto da paisagem, na qual agora querem também incluir a segunda cidade portuguesa.

Infelizmente estas tropelias começam a tornar-se habituais, e julgo que não é alheio a isso o facto de o Ministro que tutela a televisão pública ser Miguel Relvas. Uma personagem que, pela minha parte, passo a considerar “persona non gratta” para o Norte, se é que esta qualidade não alastrou já a todo o país, por equivalências acumuladas em tropelias congéneres.

Estamos a ficar fartos de tanta desconsideração, de tanta falta de respeito e tanto atentado contra a nossa Cultura e modo de ser.

Querem lá ver que as gentes do norte, os artistas, os especialistas em tantas matérias e as vozes autorizadas que temos ao mais alto nível, desde a Ciência, à Arte, passando por tantas áreas de relevantíssima importância, agora vão ter de fazer 600 km, para ir falar sobre um qualquer assunto de interesse público ou mostrar os seus talentos virtuosísticos e populares?…

Chega de falinhas mansas e solidariedades políticas ou partidárias, chegou o tempo dos nortenhos, unirem a sua voz e em uníssono dizer basta!…

Basta, porque não aguentamos mais o desprezo com que somos tratados pelo poder instalado em Lisboa.

É claro que a Praça da Alegria é um programa de âmbito nacional aberto a todo o país, mas como facilmente se compreende, a sua proximidade ao Norte, fazia com que fosse, efectivamente, um espaço de difusão dos acontecimentos do quotidiano nortenho, conferindo-lhe uma visibilidade que, caso permitamos que esta aberrante medida se concretize, se perderá fatalmente, com prejuízos cuja síntese só será possível ensaiar a médio e longo prazo, tais serão as consequências sociais e culturais que irá provocar.

Espero dos autarcas, das forças vivas e de toda a população nortenha, uma reacção de revolta pacífica, mas veemente, contra os inteligentes que a partir dos seus gabinetes em Lisboa, tomam medidas iníquas e totalmente irracionais.

Era bom que os gestores da televisão pública percebessem que o malte de que ela é feito é outro, bem diferente daquele com que se fazem as cervejas…

É intolerável que queiram desmantelar o serviço público de televisão naquilo que ele tem de mais eficiente e produtivo. Bem sabemos que o objectivo é empurrar à força, os trabalhadores do Centro de Produção do Porto, para uma rescisão amigável, face à outra face da moeda, ou seja, à sua deslocalização forçada para Lisboa, com tudo o que isso implica de viragem do avesso das vidas familiares.

Haja seriedade e respeito e deixem-se de manobras subreptícias.Nutro pelas pessoas que trabalham na RtP Porto, e em particular pela equipa da Praça, o maior respeito e admiração pela sua competência profissional e espírito de serviço público que devia ser modelo e exemplo para muito boa gente.

Seja lá o que for, o Norte não pode permitir, alegremente, que nos levem daqui um dos mais importantes factores de promoção do desenvolvimento social, cultural e económico da região, a imensa janela aberta ao Mundo que tem sido a Praça da Alegria.

 

Victor Dias