Os elos da comunidade

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Aristides de Sousa Mendes

O Elos Internacional da Comunidade Lusíada – nascido na cidade brasileira de Santos, em Agosto de 1959, numa generosa iniciativa do médico brasileiro Eduardo Dias Coelho – é um movimento emanado da sociedade civil que reúne pessoas dos mais diversos extratos sociais e nacionalidades, unidas pelo empenho que todas colocam na defesa, preservação e constante afirmação dos valores culturais, históricos e humanistas associados à lusitanidade.

O Presidente Internacional do Movimento Elista (o advogado luso-brasileiro Ramiro Cruz), ao ser recebido pelo Elos Clube de Lisboa, pediu-me que falasse aos associados daquele Clube sobre a vertente humanista do Movimento que dirige.

A caracterização do humanismo e dos valores que nele se consubstanciam, sobretudo se abstratamente considerados, seria matéria para longas, quiçá intermináveis, dissertações. Por isso, em vez de enveredar por esse caminho, por mais erudito que ele pudesse ser, optei por me concentrar na evocação de três controversas personalidades portuguesas cujas vidas, bem como o legado que deixaram aos seus concidadãos e aos vindouros, podem ser consideradas exemplares.

Comecemos, pois, pelo Abade Corrêa da Serra

Comecemos, pois, pelo Abade Corrêa da Serra. Na Casa Monticello, na Virgínia, Estados Unidos, uma espécie de casa branca, prévia ao edifício que todos conhecemos e que foi residência do terceiro presidente norte-americano Thomas Jefferson, existe um quarto (aberto à visitação pública) que o dono da casa reservava exclusivamente para alojar um seu grande amigo: é o “quarto do Abade”, sendo que este é tão só o Abade José Correia da Serra, nascido em Serpa em 1751, falecido nas Caldas da Rainha em 1823 e cofundador, com o Duque de Lafões, da Real Academia das Ciências, de Lisboa.

Jefferson, um espírito das luzes, filósofo, bibliófilo e um dos subscritores da Declaração da Independência dos Estados Unidos, e o Abade trocaram correspondência durante muitos anos e é admitido por historiadores americanos – entre eles Charles Stanford – que essas cartas podem ser entendidas como uma espécie de “rascunho” daquela Declaração de Independência.
Apesar de viver em Filadélfia desde 1812, só quatro anos depois, em 1816, o Abade, outro espírito das luzes, tomou posse do lugar de “ministro plenipotenciário do reino de Portugal, Brasil e Algarves junto do governo americano”, o que aconteceu num tempo difícil, quando a corte portuguesa estava sediada no Rio de Janeiro e enfrentava uma revolta em Pernambuco, que tinha o apoio de alguns influentes americanos.

Jefferson e o Abade

Jefferson e o Abade partilhavam uma visão muito particular, quase utópica, do futuro do continente americano e da “nova civilização, mais avançada que a europeia” que ali deveria vingar: numa carta que Jefferson escreveu a Correia da Serra em 24 de Outubro de 1820, o antigo presidente americano afirmava que “a América se separaria dos sistemas da Europa e estabeleceria o seu próprio sistema. As nossas circunstâncias, objetivos e interesses são distintos. Os princípios das nossas políticas também o devem ser. Todas as confusões com esse quarto do globo devem ser evitadas se quisermos que a paz e a justiça sejam as estrelas polares das sociedades americanas”. E, nas cartas que trocavam, ambos concordavam que a América do Norte ficaria para os Estados Unidos e que a América do Sul ficaria para Portugal…

Apesar desta visão avançada e cosmopolita que o Abade Corrêa da Serra partilhava com o seu amigo norte-americano, ele foi colocado no rol das pessoas pouco queridas em Portugal, tendo sido perseguido pela Inquisição, pelo que se exilou mais de uma vez do seu País. A sua obra, quer como clérigo esclarecido, quer como botânico respeitado e exímio diplomata, foi injustamente menorizada pelos seus contemporâneos.

O Cônsul Aristides de Sousa Mendes

A segunda personalidade que pretendo evocar é a do Cônsul Aristides de Sousa Mendes, que nasceu em Cabanas de Viriato em 1885 e faleceu em Lisboa em 1954. Trata-se de um nome por demais conhecido, que por isso dispensa apresentação.
Cônsul de Portugal em Bordéus, em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, Aristides de Sousa Mendes desafiou as instruções do Governo Português e concedeu milhares de vistos de entrada em Portugal a refugiados de várias nacionalidades que desejavam fugir da França, boa parte deles a judeus.

Desconhece-se o número de judeus que a desobediência de Sousa Mendes salvou do holocausto, mas há fontes que apontam para mais de dez mil, num total de trinta mil vistos por ele concedidos. O historiador Avraham Milgram, da Yad Vashem, admite que estes números serão exagerados mas, mesmo que o sejam e o número de judeus e ouros refugiados salvos por Aristides de Sousa Mendes seja inferior, o gesto do Cônsul de Portugal em Bordéus foi suficiente para que ele fosse reconhecido em Israel como “um justo entre os justos”, ao lado de outros nomes ilustres, como Schlinder ou Wallenberg.

Em Portugal, porém, a atitude de Aristides de Sousa Mendes, em vez de reconhecimento e gratidão, valeu-lhe o ser expulso da carreira diplomática e condenado a um injusto ostracismo e quase à miséria, de que só há poucos anos foi reabilitado.
A terceira personalidade a que me quero referir é o Tenente da Guarda Fiscal António Augusto de Seixas, que nasceu em 1891, em Montalegre, e faleceu em Sines, em 1958.

O Tenente Seixas

O Tenente Seixas aderiu cedo às ideias republicanas, participou no combate às incursões monárquicas de Sidónio Pais e foi ferido no combate de São Neutel. Ao serviço da Guarda Fiscal foi colocado em diversos postos, do Minho ao Alentejo. Recebeu vários louvores e, em 1935, foi nomeado cavaleiro da Ordem de Avis.

Entre 1936 e 1939, durante a Guerra Civil de Espanha, as populações espanholas da raia fronteiriças refugiavam-se em Portugal para fugir à violência e às atrocidades cometidas pelos combatentes de ambos os lados e às frequentes execuções sem culpa formada.

Em Barrancos, onde então estava colocado, o Tenente Seixas evitou o massacre de muitos desses refugiados, ao abrir um campo de acolhimento no lugar da Choça do Sardinheiro, porto de abrigo e salvação que acolheu milhares de espanhóis.
Muitos desses refugiados faziam parte das “listas negras” de políticos e intelectuais republicanos que estavam a ser procurados e perseguidos pelos nacionalistas, com o beneplácito do governo português. Mas também havia apoiantes de Franco, que assim conseguiram escapar às perseguições e a uma morte certa.

O artifício – que violava as orientações do Governo português

Antigos residentes de Barrancos recordam que a ação humanitária do Tenente Seixas também se revelou na arte com que acolheu os refugiados de ambas as partes, pois, à revelia das instruções oficiais, os instalou em lugares separados por uma estrada, de modo a evitar confrontos entre eles.

Este artifício – que violava as orientações do Governo português – só viria a ser “descoberto” mais tarde, quando os refugiados foram transferidos para Tarragona e se verificou que eram em número superior aos 1500 que constavam dos documentos oficiais.

É claro que o Tenente Seixas foi preso e expulso da Guarda, tendo-se fixado em Sines, onde viria a desenvolver uma operosa atividade como industrial.

Ao evocar os nomes destes três portugueses, todos eles injustiçados no seu tempo, tentei fazê-lo, não de um ponto de vista da recuperação política dos seus feitos e atitudes, ensaiada ao sabor das correntes ideológicas dominantes, mas sim numa ótica de um certo espírito humanista, que é comum aos três, e que em cada caso parece ser alheio às épocas e às realidades políticas em cujo contexto eles desenvolveram a sua ação.

A meu ver, trata-se de um humanismo que é intrínseco da condição de ser português de cada um destes homens. Trata-se de um humanismo que me permitiria denominar de humanismo lusíada, quiçá natural, independente do contexto geográfico e do enquadramento histórico e temporal que lhes está associado.

Afinal, e concluindo, estes portugueses e as suas voluntariosas ações devem ser entendidas como autênticos e superiores símbolos – embora em condições particulares e em dimensões diferentes – do humanismo lusíada que enforma e deve influenciar cada um de nós, elos de uma comunidade de que todos devemos ter orgulho em pertencer.
Joaquim de Matos Pinheiro
(Resumo da palestra proferida pelo autor em 16 de Outubro de 2016 no Elos Clube de Lisboa)