Paisagem Cultural

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Porto

1.- A cidade do Porto já não é bem a geografia que temos contemplado. O Porto, em si, é uma grande cidadania conjugada pelo conjunto de concelhos em seu redor. A linha da circunvalação já não existe, territorialmente. Será um erro com coisas materiais, é um suicídio com a cultura. Cultura é a génese dos povos, cultura é o canto de todos, mas especialmente dos mais pobres. Cultura é uma paisagem que conhece montes e vales, serras e planícies, mas não possui limites. Cultura é zurzir com determinação contra a não-inscrição. Porque este conceito de “não-inscrição”, de José Gil, é uma força bruta e não-cultural. São egoísmos que detetam uma carne putrefacta. Mas o que sentimos hoje? Se não este caminho da estupidez profunda de esconder a nossa cultura, como quem trilha passadiços embelezados, por provocações infamantes de ditames (des) conhecidos? Seremos de um povo espartilhado por interesses burlescos, ou com a capacitadora da linguagem de ler as paisagens e nelas as culturas? Estaremos não-inscritos no sentido de desfasados da nossa cidadania?

2.- Falar hoje do Porto sem entender esta dimensão do pulsar das pessoas, que com avidez procuram o espaço de ser tempo é sugar a beleza da criação sem limites. O tempo é sempre maior que o espaço, afirma o papa Francisco. Porque o tempo não possui limites, dado ser inscrito. O espaço, esse pode ter limites mas morredoiros. Por que os espaços vão-se fazendo, construindo, nos tempos que esperamos venham. A nossa não-inscrição dita os paraísos fiscais que vão removendo as gentes e as culturas. Mas a adesão à inscrição ditará o paralelismo de um ser renovado e culto, por que participativo, não-ausente. Inscrito é aquele que é cidadão a pratica a cidadania. Não-inscrito é uma cretinice de quem já não quer ser culto, logo um incapaz de ser, de participar e de viver.

3.- O Porto é essa imensidão de participantes que não desdenham de ser pessoas. A geografia expande-se para lá das linhas térreas. Por isso o Porto são as pessoas, os seres vivos e os não vivos. A cultura do Porto é a que surge em cada concelho, deste grande Porto e para lá dele. Não tem sentido isolar cada concelho, por que cada cidadão e cidadã é, em si, o participante ativo da cultura. Nasce a cultura e cria-se, constrói-se e faz-se memória, contudo estes não se emaranham em sentinelas obscuras, mas progresso no sentir a plenitude da vida. Não existe cultura em cada concelho, mas culturas que se vão tornando cordas sem nós, para viver no (des) comprimir das voltas que alguns querem dar. Para melhor poder e muito melhor durar as complicações que querem completas da falsidade em que vivem. Ser culto é ser livre das ameias que querem consagrar.

Joaquim Armindo
Doutorando em Ecologia e Saúde Ambiental