Psicologia política rasca

0
175

O número que Sócrates fez na noite anterior à conclusão do memorandum do governo de fora, a que o pessoal das esquerdas e direitas, resolveu chamar, à velha maneira soviética “troika”, foi sem dúvida um número de psicologia política da mais rasca.

Tenho dois amigos especialistas, um perito em psicologia forense e outro psquiatra que exerce psicanálise, a quem reconheço várias qualidades, sendo que, desde logo, são ambos senhores de uma magnífica cultura geral, enriquecida por hábitos muito enraizados de leitura compulsiva e, por outro lado, são dois excelentes comunicadores, o que, a meu ver, faz dos dois uma espécie de “Aves raras”, num meio onde grassa a banalidade, os “clichets”, os conceitos obtusos e uma confrangedora falta de cultura.

Embora reconhecendo aos meus amigos uma honestidade intelectual, pessoal e profissional a toda a prova, o que não é comparável com certas personagens políticas, tenho de admitir que eles estão a anos-luz de poder ombrear com a capacidade e o poder de comunicação do nosso actual primeiro-ministro, com quem poderiam perfeitamente fazer um MBA em contorcionismo demagógico do mais alto nível.

Nessa inesquecível noite, houve várias pessoas que me telefonaram, congratulando-se e felicitando Sócrates por nos ter salvo de perder o subsídio de férias, o subsídio de natal, de não mexer nas pensões mais baixas e de um sem número de coisas más que só ele foi capaz de evitar, resgatando-nos do abismo, da tragédia e da desgraça. Apetece-me parafrasear os apresentadores circenses: – “… fantástico Sócrates… mais um triplo salto… mais um golpe de mágica… palmas para Sócrates… é fantástico… até parece que ninguém viu… formidável Sócrates… é o delírio… palmas para Sócrates…”.

E depois do adeus à democracia

A coisa parece uma comédia trágica, mas infelizmente é tão grave e ao mesmo tempo tão patética que nem sequer dá para esboçarmos um sorriso amarelo.

No dia 5 de Junho vamos votar, sim, mas para escolher o quê? Um programa eleitoral ou de governo não será com certeza!?… Não será, porque isso já está clarinho como água e não temos escapatória. Se queremos que os homens emprestem a massa, temos de estar caladinhos e fazer o que eles mandam.

Então, onde vamos meter a Democracia?…

Para mim chegou o momento de escolhermos pessoas, uma vez que não nos é dada a possibilidade de escolher políticas.

Na minha grelha de análise vou considerar, em primeiro lugar, o carácter dos candidatos a primeiro-ministro. A credibilidade que eu, soberanamente, lhes concedo. A competência que eu, soberanamente, lhes reconheço. E o juízo que eu, soberanamente, faço da pessoa de cada candidato, pondo nos pratos da balança, valores, princípios, provas dadas, erros, mentiras, suspeitas, responsabilidades, desconfianças e intuições pessoais.

Mas será que vamos poder escolher qualquer outra coisa além disto? Estou convicto de que não!…

Hoje sinto-me cada vez mais um militante da minha consciência, fiel aos meus princípios e valores. Já não vou facilmente em balelas, em números de magia, de quase feitiço, em que se hipnotizam os telespectadores com passes mágicos de uma psicologia política rasca, mas muito eficaz, a julgar pelo resultado sondado.

Espero que os partidos da oposição, mormente aqueles que estão do lado de uma solução viável, sejam competentes e demonstrem com eficácia e eficiência, todas as mentiras, contradições, incompetências, manipulações, desgovernos e medidas ruinosas que Sócrates e o seu desgoverno acumulam no currículo. Essa é uma tarefa até relativamente fácil, tantas e tão gritantes são as asneiras e as razões pelas quais não podemos cair no erro de escolher novamente essa personagem, para primeiro-ministro de Portugal.

Se no dia 5 de Junho, Sócrates por qualquer ironia do destino, for reeleito, o povo português cometerá um erro mais do que trágico para o seu próprio futuro, porque isso será uma terrível fatalidade. A única coisa que lamentarei nessa altura, é que pague o justo pelo pecador.

Mentiras repetidas para ver se pegam…

Uma das especialidades da psicologia política rasca de Sócrates desmonta-se perguntando:

Quem andou meses a fio a fingir que não precisávamos de ajuda externa?

Quem pregou aos quatro ventos que as contas públicas estavam no bom caminho e que os resultados de Janeiro e Fevereiro deste ano comprovavam o seu bom desempenho?

Quem disse que não governava com o FMI?

É claro que todos sabemos a resposta, foi Sócrates. Mas convém não esquecer que esse circo folclórico nos colocou numa posição de muitíssimo maior fragilidade e vai custar uns largos milhões a mais ao país.

Quem andou a assustar o povo com cortes de 13º, 14º e nas pensões mais baixas, como estava contemplado no PEC 4?

É claro, foi o Sócrates. Aliás essas foram apenas algumas das razões pelas quais Pedro Passos Coelho e Paulo Portas não assinaram por baixo o PEC4.

Porque é que Sócrates escondeu que a “troika” cortou no TGV e no novo aeroporto de Lisboa?

Se analisarmos calmamente o documento do programa de governo da nova ordem, de fora para dentro, percebe-se que o desgoverno de Sócrates perde em toda a linha e leva nas orelhas forte e feio.

Todos os pontos de vista defendidos por Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e, já agora justiça lhe seja feita, também por Manuela Ferreira Leite, são contemplados no documento de programa de governo, imposto pela “troika!”, só que com maior severidade. Esta dureza podia perfeitamente ter sido evitada se Sócrates não tivesse violentado Teixeira dos Santos, levando-o ao limite de lhe desobedecer e chamar o FMI por e-mail, numa iniciativa completamente inédita, na forma, no modo e, sobretudo, no tempo.

Compreendo e concordo com Passos Coelho, pedindo uma maioria clara, porque governar com este PS é impossível, não há qualquer hipótese de entendimento, apenas por uma questão, o carácter pessoal de Sócrates. Lembrando um certo socialista: -“…há mais vida (no PS) para além de (Sócrates)…”.

Na política também há lugar para invocar os poetas e, neste caso, recomendo José Régio e aquela sua frase lancinante de quem, apesar de todas as dúvidas, tem pelo menos uma certeza reconfortante e resgatadora: -“…sei que não vou por aí…”.

Hoje, todos os portugueses sabem que não podem ir por Sócrates. É afinal o que está em jogo nas próximas eleições.

Victor Dias