Ser Católico implica uma visão política da vida em sociedade?

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Nas minhas primeiras décadas de vida, interpelações como aquela que intitula esta minha prosa, nunca estiveram no meu espírito.

No entanto, hoje, passado que está já meio século da minha vida, sou frequentemente remetido a esse íntimo questionamento.

Creio, cada vez com mais funda convicção, que não é possível professar a Fé Cristã, dissociando-a do entendimento ético e moral, que nos é dado conciliar, com a visão política que temos sobre a vida em sociedade.

Esta convicção é já uma certeza. Uma certeza confirmada pelas próprias intervenções públicas do líder espiritual da Igreja Católica, o Papa Francisco.

Mas muito para além das suas ocasionais intervenções de circunstância, ou mesmo revestidas do carácter oficial, as encíclicas do Papa, reenviam-nos para uma visão política do governo do Mundo.

Na sua primeira encíclica “Evangelia Gaudium”, estava já bem patente, um entendimento ético e moral, que clamava por um modo de vida coerente e consequente, com a Fé, exigindo dos Cristãos Católicos, um pensamento e acção política, na governação das comunidades, das nações e do Mundo, que não pode ofender a essência do depósito da Fé.

Esta evidência, veio tornar-se ainda mais clara, com a mais recente encíclica “Laudato SE”, na qual o Papa Francisco, lança um vasto leque de alertas e denúncias, que interpelam as consciências dos cidadãos do Mundo. De todos os cidadãos do Mundo, mas com muito maior responsabilidade, para os Cristãos Católicos, a quem não colherá mais o argumento da ignorância. Da ignorância dos perigos de um uso desmesurado dos recursos naturais, e sobretudo da política da servidão, que tem procurado destituir o trabalho, de toda a sua dignidade e valor.

O escravo dos tempos modernos

O Papa Francisco chama particularmente a atenção dos governantes, mas também dos cidadãos, para a ideologia neoliberal do novo paganismo, que se preocupa sobretudo com a exploração do criado, quer dizer, do escravo dos tempos modernos, tentando afastar do espírito de quem trabalha, a sua Fé no Criador.

Na verdade, o Criador criou a mulher e o homem para serem felizes, constituindo a sua família humana, para uma vida digna, em que o trabalho, pelo seu valor e dignidade intrínseca, é a principal e justa fonte de sustento.

Lamentavelmente, aquilo a que assistimos hoje, é precisamente o contrário. É uma estratégia institucionalizada pelas lideranças políticas, que apregoam o empobrecimento e a desvalorização do factor trabalho, tentando impingir um discurso tremendista, que procura convencer-nos de que é este o único caminho possível, e que caso o não queiramos seguir, então será o caos.

Não me interessa o ideário político de nenhum partido, movimento ou líder, seja ele de esquerda ou de direita, se eu sentir que existe por detrás do seu escopo ideológico, uma concepção redutora ou castradora da Liberdade, da Justiça e da Democracia.

A dignidade da pessoa humana

O que é para mim válido e determinante, é a Fé que professo, e à luz da qual, o sentido de Justiça social, a dignidade da pessoa humana, o valor intrínseco do trabalho, os valores da família, a ética e a moral, emanam precisa e essencialmente, com a força mandatória de uma conduta de vida que não pode deixar de ser coerente e consequente.

trabalho

Podemos compreender a diversidade de opções políticas nos seus mais diversos domínios, desde a economia, à saúde, passando pela educação, pela Justiça, entre muitas outras matérias, mas nunca poderemos conceder a nossa compreensão, e muito menos aprovação, sempre que a dignidade da pessoa humana for beliscada ou ofendida.

Quando milhões de seres humanos são empurrados para o limiar da pobreza, quando em nome da economia e dos mercados, se atiram milhões para o desemprego, e quando os líderes políticos fazem vista grossa a um capitalismo selvático e predador, que não olha a meios, para atingir rapidamente e em larga escala, os seus questionáveis fins, pouco se importando com a delapidação do património natural, ou com o rasto de miséria e d fome que deixa atrás de si, é de atentado á dignidade humana que estamos a falar. E isso, nenhum Cristão Católico pode aceitar e calar-se, qualquer que seja a sua ideologia política, porque é da sua natureza e imperativo da Fé que professa, ser livre e justo.

 

Victor Dias