“…sei que não vou por aí…”

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A expressão poética de José Régio que dá nome a esta minha prosa assume, nos dias do Portugal de hoje, um sentido novo, face à necessidade de fazer escolhas acertadas e mais decisivas do que nunca.

Nos finais do século XX, foram muitos os analistas e sociólogos que decretaram o fim das ideologias políticas e, a meu ver, com razão, sobretudo se pensarmos naquela concepção clássica de ideologia política, separando com um risco ao meio, a direita da esquerda. Um risco bastante largo que por essa altura se confirmou como uma espécie de grande centrão, onde direita e esquerda passaram a ser suportadas numa espécie de plataforma flutuante que vai derivando conforme a maré, mantendo-se sempre à tona, rodeada de uma espuma opaca que impede de ver fundo.

Perante o vazio de ideologias, matriz essencial para que qualquer país tenha rumo na sua governação, seria de esperar que, pelo menos, os políticos tivessem ideais de vida, como por exemplo, servir a comunidade e pôr o interesse público e o bem comum acima de tudo.

Olhar para os políticos a partir desse critério, poderá levar-nos a orientar a nossa escolha rejeitando o voto naqueles que já nos deram razões mais do que suficientes para não confiarmos neles.

Os cidadãos conscientes e esclarecidos sabem que não poderão cometer o erro de voltar a depositar a sua confiança política e eleitoral, em quem não a merece.

Vivemos hoje num país insolvente, desacreditado junto dos seus parceiros europeus e internacionais, completamente dependente do exterior, amargurado e deprimido.

Em seis anos de desgoverno a nossa dívida “soberana” duplicou, facto que compromete o futuro dos nossos filhos, netos e bisnetos.

Em pouco mais de dois anos gastaram-se três mil milhões de euros nas novas oportunidades. Mas é legítimo perguntar – quantos empregos geraram esses três mil milhões de euros? Essa qualificação de lápis e borracha enriqueceu culturalmente os seus beneficiários e conferiu-lhes efectivamente novas competências, abrindo-lhes novas perspectivas de emprego no mercado de trabalho? Pelos vistos não.

Não subscrevo generalizações, sejam elas de que tipo forem, porque as acho sempre muito perigosas. Acredito inclusive que o programa das novas oportunidades também teve o seu mérito e, por certo, houve muita gente que fez bom proveito dessa nova oportunidade que teve na vida, valorizando-se pessoal e profissionalmente, facto que merece todo o meu respeito e admiração. Mas convenhamos que três mil milhões de euros gastos em tão pouco tempo, com tanta gente, tinham de ter um resultado muito diferente, sobretudo muito mais gerador de emprego e riqueza, para o país, e como se vê, isso não aconteceu.

Porque continua o, ainda, primeiro-ministro a guizalhar aos quatro ventos que foram os malvados da oposição que derrubaram o governo e obrigaram a pedir “esmola” ao exterior, chumbando o PEC 4? É preciso que não nos deixemos embalar neste discurso obsessivo que de tanto ser repetido pode parecer verdade.

Convém que nenhum de nós esqueça que o PEC 4 apenas contemplava medidas para reduzir em seis mil milhões de euros a despesa pública, e que o memorando assinado pelo governo actual, com o FMI, BCE e UE, ascende a setenta e oito mil milhões de euros.

As contas são fáceis de se fazer e o resultado, mesmo que a oposição fechasse mais uma vez os olhos, permitindo que fossem os mais desprotegidos a pagar o PEC 4, onde se iriam buscar setenta e dois mil milhões de euros, para impedir que caíssemos na banca rota e já nem sequer tivéssemos dinheiro para pagar salários, pensões e importações de bens essenciais?

É também legítimo perguntar que garantias nos dão os políticos de que não vão tomar medidas cegas, fazer cortes sem critério, reformar o Estado, as finanças e a economia do país, a Justiça, a Educação, a Saúde e a segurança social, apenas para cumprir o calendário de quem realmente nos governa?

Não será que tais medidas, tomadas todas juntas e de supetão, não vão surtir o mesmo efeito de uma terapia de choque que, embora visando a cura do doente, acaba por ter efeitos secundários devastadores e levar o paciente à morte?

Perante tanta mentira, tanta asneira, tanto embuste, tanta incompetência e irresponsabilidade, ainda que não soubesse por onde ir, teria sempre de citar o poeta José Régio e exclamar: -“…sei que não vou por aí…”.

Por si, pela sua família, pelos seus filhos, netos e todas as gerações vindouras, pense nisto, caro leitor!…

Victor Dias

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