A Galiza e a CPLP

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Há poucos dias, durante as recentes eleições legislativas galegas, um dos candidatos àquele pleito (logo secundado por alguns intelectuais de Vigo e de Santiago de Compostela) trouxe brevemente para a atualidade noticiosa um tema que permanecia adormecido há algum tempo: a aspiração da Galiza a integrar a Comunidade de Países de Língua Portuguesa.

Embora a CPLP o seja, o tema não é novo.

Recordo-me, a este propósito, de Manuel Fraga Iribarne me ter dito em Santiago de Compostela, no intervalo de uma sessão do Congresso “Uña mesma língua”, que decorreu em finais de 1984 naquela cidade, que o pior erro de D. Afonso Henriques terá sido o de ter estendido os limites do Condado Portucalense para o sul, sem antes ter acautelado a sua expansão para norte, conquistando o território galego de que eram senhores seus tios, D. Raimundo e D. Urraca, até ao mar Cantábrico, possibilitando assim a formação de uma unidade territorial homogénea, que se diferenciaria claramente do resto da Península Ibérica e que ocuparia toda a sua frente marítima ocidental.

Por essa altura, Fraga Iribarne já tinha perdido as eleições para as cortes espanholas realizadas dois anos antes, e já assumia o relevante papel de líder da oposição ao governo socialista de Felipe Gonzalez, pelo que este tipo de arroubos, apesar da relevância das posições por si anteriormente ocupadas no governo espanhol, antes e depois da monarquia de Juan Carlos subir ao trono, talvez não tivessem outro objetivo que não fosse o de vincar a pulsão autonómica – quiçá independentista – da Galiza, que parece sempre ter subjazido aos seus objetivos políticos.

A sua adesão ao conceito de que o português e o galego formam uma mesma língua, de que este seria apenas uma simples variante daquele, insere-se bem no contexto da opinião de Fraga, acima citada.

Agora, ao convocarem para os nossos dias o propósito de agregar a Galiza à CPLP, os políticos que subscrevem tal desiderato talvez não estejam a fazer mais do que uma oportunista recuperação daquelas ideias do falecido líder galego – se é que as conhecem.

Há, com certeza, condicionantes jurídicas que podem ser invocadas e opostas a tal desiderato, que são naturais quando se tem presente que a Galiza não é um Estado, e que dificultam – quando não impedem – a sua concretização; tal como há condicionantes políticas muito sérias, que têm a sua raiz em Madrid e que tendem a travar à nascença esta legítima aspiração de muitos galegos.

Mas, afora isso, a integração da Galiza na Comunidade de Países de Língua Portuguesa – mesmo que possa parecer utópica, inoportuna ou inconveniente – seria bem mais natural e justificar-se-ia com bem maior facilidade e com mais justiça do que se entende a estapafúrdica admissão da Guiné Equatorial naquela nobre comunidade de nações de inspiração lusíada e lusófona, a que nada, na realidade histórica, política e sociológica daquele país africano, parece ligá-la.

Pode ser utópica, inoportuna ou inconveniente, mas é sem dúvida certo que a adesão da Galiza à CPLP continuará a ser um tema que faz jus à simpatia, quando não ao apoio declarado, dos portugueses.

Joaquim de Matos Pinheiro
(Economista e Autor eclético de obras literárias)

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